A mais pequenina

A mais pequenina
Princesa

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Nós, Natureza! - Que conceito?

Abordar a temática “A variabilidade dos conceitos de natureza” é desafio complicado, precisamente porque esta questão tem diversas interpretações e os mais variados enquadramentos, fruto da evolução secular do Homem e, com ele, da evolução da ciência e da história que ele próprio construiu. É, sem dúvida, uma temática e uma discussão de séculos.

Por isso mesmo, epistemologicamente, existem os mais variados conceitos todos eles com a marca dos tempos, de interpretações influenciadas pela própria emancipação do Homem face a “selvagem” natureza. Em minha opinião, é mesmo nesta capacidade de emancipação, que não independência face à natureza, que reside um dos factores determinantes dos conceitos em estudo. Quer no séc. XIX, quer no séc. XX, quer actualmente, encontramos sempre uma variabilidade de conceitos, marcada pela génese civilizacional de cada sociedade, assente em cada um do seu contrato social.

A natureza marca o Homem e, por isso, ajuda a determinar e muito, os seus conceitos de cultura e a sua capacidade de interagir com a própria mãe natureza. A evolução civilizacional é, em minha opinião, fonte permanente da variabilidade do conceito de natureza, pelo que me parece adequado afirmar que a cada civilização, corresponde o seu ou seus conceitos de natureza.

E, quando não há uma demarcação evidente da natureza, por outras palavras, quando a dependência do Homem é quase absoluta em relação a ela, como ainda hoje acontece em muitos cantos do planeta, estaremos então perante conceitos muito empíricos e clássicos da natureza em que o Homem se confunde com ela, e por isso, o conceito de natureza confunde-se com o conceito de cultura.

Vyggotski lembra-nos o menino Victor de Aveyron que viveu perdido na floresta e encontrado anos mais tarde, profundamente marcado pela experiência de total dependência da natureza. Apesar de todas as questões então colocadas em torna desta história, a verdade é que este acabou por ficar um exemplo clássico da relação da natureza e da cultura. Coloca-se pois a questão das condições de vida e o meio ambiente que nos acolhe na hora do nascimento tal como aconteceu com o menino Victor e que nos marca de uma forma inequívoca.

No outro extremo da variabilidade do conceito, podemos “cair” na análise nos dias hoje e projectar que conceito actualmente teremos de natureza. Para falarmos da realidade ocidental, o mundo dito evoluído e civilizado da Europa, teremos vários conceitos de natureza. Falamos duma realidade social transversal a todo o continente europeu, em que as preocupações ambientais são politicamente evidentes, quiçá uma forma moderna de apelidar a mãe natureza e as preocupações que ela nos dá.

Com os progressos sociais e políticos que marcam a nossa civilização, a ocidental, há um inequívoco distanciamento da natureza em que esta se confunde com a urbe. Uma urbe cada vez mais assente nas trocas sociais e nas experiências muitas vezes importadas de outros recantos… de outras naturezas. Como defendeu Lévi-Strauss “é como proporcionar um status maior à cultura, considerando-a em certa autonomia com a natureza”[1].

Eis uma forma sintética equacionar delinear o pensamento primitivo e o dito “civilizado” em que a variabilidade do conceito de natureza tem aspectos tão diversos quanto comuns, mas em minha opinião, sempre com a marca que o Homem, ao nascer, acolhe de uma forma natural, com o seu espírito genético de lugar que com ele viverá e conviverá para sempre, mesmo que enquadrado noutros campos de acção, noutras sociedades sujeitas às trocas de experiências sociais.

O Homem é um animal eternamente marcado pela natureza. A natureza que o molda e ajuda a formar a sua cultura. Não é por acaso, que em muitas histórias de vida, a grande alegria acorre, quando o homem regressa às origens, à sua cultura…

António Rodrigues




[1] A relação natureza e cultura : o debate antropológico e as contribuições de Vygotski


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Porque Fogem?

Fruto dos recentes resultados estatísticos que quantificam o desemprego em Portugal, a comunicação social de hoje (18.08.010) aborda drama da fuga dos nossos jovens, em particular dos recém licenciados.

Este é um drama nacional. É a fuga do nosso património humano, o melhor de uma Pátria: os Filhos que fogem em busca de “países adoptivos”. Onde haja esperança, trabalho e auto-estima…

E porque fogem eles?

Uns porque estão desempregados e muitos outros porque perderam a esperança.

Outros porque vivem no seio de famílias atingidas pelo desemprego e pela crise; famílias que sofrem em silêncio o drama dos tempos novos. Vivemos o tempo da “desesperança”… o tempo em que parece que em Portugal nada é bom…nada acontece e nada tem futuro. Um tempo desgraçadamente mau. O tempo em que só há tempo para nos autoflagelarmos e denegrirmos. O tempo em que não há tempo para validar as coisas positivas, mas antes focar as desgraças, muitas vezes ampliadas.

O tempo em que quem governa e toma decisões, se sente isolado na coragem da decisão, porque mais ninguém, mas mesmo ninguém, considera boa a decisão. Seja ela qual for! Mesmo quando absolutamente certa!...

Seja que governo for, independentemente do partido que o suporta, será sempre um governo estigmatizado num país zangado consigo próprio. À coragem da decisão, associa-se de imediato a facilidade da crítica de toda a oposição, hoje uma, amanhã outra, mas sempre oposição cega e derrotista. E uma oposição com ecos ampliados em quase tudo o que é comunicação social. Temos uns que decidem e um coro que ataca quem decide.

Foi assim nos últimos dez anos…

É assim com um governo PS. Amanhã será assim com um governo PSD. Ou outro qualquer…

Vivemos o descrédito das instituições e da democracia. E dos políticos. Que se consomem nestas tricas miseráveis que nos hão-de levar ao abismo. Ao abismo de uma liberdade, se não aniquilada, porque impossível, a uma liberdade condicionada e amordaçada…

Ninguém é verdadeiramente livre num país que, a pretexto da liberdade, a não sabe aproveitar para se afirmar, para competir, para trabalhar e para produzir…

Um país que faz da comunicação social os seus tribunais, onde é mais credível uma notícia que uma decisão de um juiz ou de outro qualquer magistrado.

Um país em que tudo é questionado… em que ninguém parece ser competente…

E é disto que fogem os nossos jovens…

E olham para trás e percebem que deixam um país em que a geração de seus pais e avós não o soube governar, não o soube afirmar, não soube ser digna das heranças da sua História.

Na década de setenta, princípios de oitenta, ouvi alguém dizer a pretexto da bagunça que então ocorria no ensino universitário, - para muitos óbvia fruto do momento excepcional que então se vivia, - onde imperava o facilitismo, as RGA e as passagens administrativas e, com ar premonitório, o seguinte: “ai deste país quando esta malta tiver responsabilidades directivas, seja nas empresas, seja no governo…”

Terá o homem acertado ou será uma triste coincidência? …

António Rodrigues


18.08.010



Foto de Antero Inácio

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Cuspir na sopa que se há-de comer...

…é saboroso à noite no Martinho, sorvendo aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a pátria…

Assim escrevia Eça no seu “O Mandarim”

“Já viu Rodrigues? Portugal visto a esta distância parece que se desmorona. Só há más notícias…”

O Presidente da República Jorge Sampaio, que a 1de Abril 2004 tive a honra de acompanhar na travessia de Santo Antão para S. Vicente (Cabo Verde), comentando com tristeza o telejornal português, naquela que foi a sua última viagem oficial fora de Portugal.

“E, como Primeiro-ministro (Cavaco Silva), visitou escolas japonesas e tinha ficado agradavelmente surpreendido com o conhecimento histórico das crianças sobre Portugal. Vocês deviam fazer o mesmo nas escolas, ensinar a cultura e a história dos países por onde passaram. É uma pena não o fazerem. Faz parte da memória. Não a manter é quase esquecer o passado. Falo também da Índia, da China. Estão a perder a vossa memória.”

Extracto da entrevista de Akira Miwa ao jornal “Expresso” do 31 de Julho de 2010, lamentando o desprezo que os portugueses têm pela memória da sua história…

Estas três expressões dizem quase tudo sobre nós. Enquanto nação e enquanto país…

Passamos o tempo a condenar-nos… a criticar-nos… E vem de longe, com especial ênfase para essa complicada centúria de dezanove, a tal em que Eça de Queirós escreveu boa parte da sua fascinante obra literária.

Somos o país onde tudo parece ser mau.

Onde pouco ou nada de bom se faz.

Quem governa, na óptica da oposição, governa sempre mal. Quando o PS é governo, para os outros tudo está mal. Quando é o PSD a governar para os outros tudo mal está. Como se fosse possível só fazer asneiras enquanto se governa… Como também não será possível fazer tudo bem.

É praticamente impossível ouvir a oposição reconhecer méritos, nem que sejam pontuais, a quem governa, seja ela qual for, em particular quando alternadamente o PS ou PSD detêm esse estatuto.

E este é o descrédito e a “desgraça” da política e dos políticos. Quando dizem que algo é preto quando toda a gente vê que é branco.

É a cultura do faz de conta, do bota a baixo e do quanto pior melhor. É a cultura do tacticismo em busca do protagonismo, das boas sondagens, de uma vitória eleitoral.

Quem trabalha no duro e enfrenta a vida com dificuldades, no mínimo, enjoa-se com tudo isto. Em especial se, ainda por cima, com o seu trabalho e com o seu esforço, tem que contribuir com os seus impostos para este triste cenário. Seja empresário, seja funcionário…

Não nos faltam comentadores, detentores de toda a verdade e que tudo criticam, ajudando a esta triste sina. Inspirados e imaculados por Deus nas suas altas qualidades, quis o Diabo que não fossem nossos governantes. Que pena! Isto, com eles, não estaria muito melhor? Claro que sim!

Mas se tudo isto dói, dói ainda mais o desprezo que temos pela nossa memória e pela nossa história. Uma história que, com os seus altos e baixos, por isso mesmo é história, tem pontos e referências que deveríamos não só conhecer, como divulgar e promover.

Os nossos alunos, os de hoje e os de ontem, desconhecem a essência e a identidade do país que os viu nascer. E não têm culpa alguma, porque quem nas últimas décadas nos tem governado e decide sobre os programas curriculares, obriga-os a não conhecer, o país e a sua história.

Veio agora um diplomata, e porque o é dizendo com diplomacia, que nós não temos dimensão para respeitar a nossa memória, o mesmo será dizer, a nossa história. Foi o caso do Embaixador do Japão em Lisboa, que veio dizer no expresso que as crianças japonesas ainda hoje estudam nas suas escola a história da presença portuguesa naquele país oriental.

Fica a oriental sugestão à laia de lição…

Mas, pobre país, quando hoje alguém com responsabilidades vem propor a discussão para se implementar nas nossas escolas o fim das reprovações, então é caso para dizer que tudo isto vai de mal a pior.

Já nem sequer faz sentido clamar pelo ensino dos nossos valores, da nossa memória colectiva, em suma da nossa História.

Para quê? Não é preciso!

Se já não é preciso estudar para passar o ano, para que serve mais matéria e mais complicações?

Mas isto um dia vai ter que mudar. Vai de certeza. Não o regime, claro, mas os incompetentes, políticos ou não, que sem regime e muitas vezes sem respeito, deixam passar a ideia de que somos um país sem futuro e sem esperança.

Enganam-se!


António Rodrigues

sábado, 31 de julho de 2010

O Monumento da Lusofonia


Poucos saberão que Torres Novas têm uma particularidade muito invulgar. O nosso monumento aos Heróis de Diu, situado junto ao Nogueiral, na rotunda com o mesmo nome edificado aquando das comemorações dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique é peça única em Portugal, mas não no mundo.

Com ela e por causa dela, a Lusofonia em Torres Novas, no ano em curso, poderá vir a ter um significado especial.

A ver vamos…

Porque mais prático e mais rigoroso, aqui fica um extracto de um artigo do Dr. Carlos Carreira recentemente publicado numa das edições da revista municipal Nova Augusta:

O Padrão nas ex-colónias

“No âmbito da Escultura Pública, este será dos casos raros em que aquela se faz de forma tão ampla, dispersa e unificadora ao mesmo tempo. Observando o referido Programa de Comemorações, destinado às Províncias Ultramarinas, foram várias as cidades que, nas ex-colónias, adoptaram este modelo arquitectónico como forma de se associar às comemorações e fazer perpetuar a memória desse símbolo maior da ocupação colonial: Díli (Timor), Água Grande (S. Tomé e Príncipe), Lourenço Marques (Moçambique), Cidade da Praia (Cabo Verde), Bissau, Farim e Cacheu (Guiné-Bissau), são algumas cidades onde, ainda hoje, se poderá encontrar o Padrão no seu lugar. Por confirmar ficarão as reminiscências de uma possível presença no antigo Estado da Índia e Angola. Com efeito, apesar de no Programa se encontrar indicada a pretensão da sua construção na generalidade do Império, o prazo para a obra raramente se encontra estipulado, ficando dependente da capacidade e da iniciativa de cada “Comissão Provincial”, em alguns não se tendo chegado a concretizar. Para a Índia perspectivava-se, “para data a marcar oportunamente: a inauguração do Padrão Comemorativo da Morte do Infante D. Henrique”, sendo que, para Angola, se “admitia a implantação de um monumento ao Infante, segundo plano que seria posto a concurso”. Nestas duas ex-colónias, contudo, não temos notícia da presença de qualquer edificação comemorativa.”

E com este texto de Carlos Carreira e de fotos que fui captando aqui e acolá, fica o esclarecimento.

A 1ª foto foi tirada em Díli, a segunda em Cabo Verde na cidade da Praia e a última, claro, em Torres Novas. A foto do artigo "Porque nos esquecemos da nossa História?" que deu lugar a este pequeno passatempo é, como alguns amigos afirmaram, em Cacheu na Guiné...

António Rodrigues

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Porque nos esquecemos da nossa História?

Quando hoje falamos de globalização, de tão banalizado que está o termo e de tão abrangente que é o fenómeno, esquecemo-nos, muitas vezes, do papel que Portugal por estranho que a alguns pareça, teve neste processo.

De facto tudo tem um princípio… ou até vários!...

Eis aquele que a nós diz respeito:

D. Henrique é o pai da globalização da era moderna que, em minha opinião, se iniciou em 1415 quando os portugueses tomaram Ceuta, dando início a uma das mais fascinantes páginas da história mundial. A expansão marítima portuguesa, que consigo arrastou outras aventuras marítimas, nomeadamente as espanholas, inglesas e holandesas, entre outras, esteve na base não só dos novos mundos que foram descobertos, mas acima de tudo no novo conceito de mercado comercial que os marinheiros lusos fomentaram, muito em particular no Oriente.

É para todos evidente que, muito antes de nós, na baixa Idade Média, outro tipo de aventuras comerciais ocorreram um pouco por todo o lado, muito em particular na Europa, quer a norte, quer a sul, onde o Mediterrâneo foi palco especial. E deste também já com ligações ao Oriente. E ainda antes destes temos o Império Romano com toda a sua envolvência política, social e económica um pouco por toda a Europa…

Não faltam pois antecedentes para se perceber que, muitos dos factores que hoje determinam a existência de um mundo globalizado, já antes se poderia afirmar que o mundo tinha, à escala de então, a sua própria globalização.

A expansão marítima europeia onde os portugueses foram pioneiros é, sem dúvida, o primeiro grande marco da revolução, não só do comércio e da economia da era moderna como também o primeiro factor de verdadeiras migrações intercontinentais…

Com a expansão marítima portuguesa passaram a ser comercializados produtos até então desconhecidos, operando-se verdadeiras revoluções nos mercados internacionais, em particular nos europeus.

As grandes cidades do mediterrâneo, com ênfase para Veneza, veriam cair a sua importância estratégica e económica e quase faliram. Não foram só as especiarias do Oriente que revolucionaram, mas também os produtos agrícolas, as novas plantas, as novas pescarias, tudo isto foi uma autêntica globalização económica a que os portugueses ficarão para sempre ligados, para já não falar no fenómeno da miscigenação cultural e racial que a passagem dos portugueses pelo mundo veio a provocar. Em consequência de toda esta dinâmica transnacional, vulgarizou-se o uso do crédito, o recurso à letra de câmbio, a criação de novos sistemas de escrituração, como ainda foram criadas as primeiras grandes redes de correio europeias. Foram ainda desenvolvidas as actividades bolsistas, bancárias e de seguros.

Naqueles tempos não havia aviões, computadores nem televisões, mas houve a coragem de um povo que acabou por ser pequeno para o mundo, que com as naus e determinação, criou o primeiro grande processo de globalização do planeta.

Pena é que hoje pareça que se tem vergonha de ensinar tudo isto aos mais novos…

Não faz história o político que ignora ou tem vergonha da sua própria História.

António Rodrigues

terça-feira, 27 de julho de 2010

Custa muito reconhecer?


Não é preciso ser economista, mas simplesmente realista, para se perceber que Portugal e a Europa em que estamos inseridos têm um futuro económico sombrio. A crise veio para ficar, para moer e para doer.

Acima de tudo junto dos mais desfavorecidos.

Nos próximos anos não cresceremos como nos últimos. Se crescermos…

Compete-nos, pois, encontrar alternativas e soluções que minimizem os dramas que nos esperam. Não alternativas paliativas e enganadoras, muito menos alternativas de conversa fiada, fruto de promessas e expectativas irrealizáveis.

Não vai ser com essa conversa e demagogia barata que o país sobreviverá. De modo algum.

Sairemos da crise se gastarmos menos e produzirmos mais.

Ora, regra geral, quem produz são os empresários e as empresas. Os produtores de riqueza e geradores de impostos. E de empregos. As empresas e os homens que as gerem.

Ai do país que não veja nelas, desejavelmente consistentes, modernas e competitivas, uma das realidades que poderá ser a base do progresso e, acima de tudo, da afirmação social e política da nação.

Os governantes de Portugal, os de hoje e os de ontem, parecem terem vergonha de ensinar a História aos seus filhos. A História de todo um percurso de grandezas e misérias de mais de mais de 850 anos.

A nossa História.

A tal história onde ressalta um dos acontecimentos mais marcantes da história da humanidade: a nossa expansão marítima. A tal que, sem complexos, como diz o poeta: “deu novos mundo ao mundo”.

Por causa dela, entre vários factores que não vêm agora ao caso, a língua portuguesa espalhou-se por todo o mundo, de tal modo que hoje é das mais faladas.

E é nela que, sem traumas, teremos de apostar. Ao nível político, cultural e empresarial.

O êxito e o enquadramento da nossa economia no mundo passa, inquestionavelmente, pela afirmação e pelo reconhecimento da importância estratégica da língua portuguesa.

De entre os países que emergem no mundo como potências económicas estão, para já, dois: Brasil e Angola. E Moçambique na calha…

E falam português.

E gostam de Portugal.

E querem interagir com os Portugueses.

E que vão crescer num só ano o que Portugal e a Europa não conseguirão em vários.

Por tudo isto, é bem perceptível o empenho e a importância que o Presidente da República depositou na sua recente deslocação a Angola. Porque o Presidente sabe que o futuro da nossa economia passa por ali…

Vivemos num país em que parece proíbido reconhecer, já não digo elogiar, os méritos dos políticos. Por isso, e apesar de ter havido algum reconhecimento pelos resultados desta deslocação, fico com a impressão de que ficou muito aquém da grandeza desta iniciativa presidencial.

Só o futuro mostrará aos incautos, alguns deles ainda roídos por factores de partidarite primária ou até de ordem pessoal, a dimensão e a importância do que Cavaco conseguiu em Angola.

Um êxito de que Portugal precisa e, penso, desejava.

Um êxito de que Angola também precisa. E também deseja.

Mas, mais do que isso, um trabalho que há-de dar frutos junto dos que trabalham, geram riqueza e pagam impostos.

Esses sim, os empresários, serão os primeiros a perceber e a atingir o alcance desta histórica visita do Presidente. Os tais que hão-de repartir com o país, o fruto dos resultados que ali venham legitimamente conseguir.

Mas, como alguns gostam mais de palavreado, foi mais importante na semana seguinte perder-se tempo com uma pouco mais que precipitada e incauta proposta de revisão constitucional, do que reconhecer, analisar e interpretar as vantagens e os efeitos desta histórica jornada.

Parabéns Presidente!

António Rodrigues

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A Mercearia


Meu caro José Sócrates


Vais desculpar a ousadia desta minha missiva electrónica, mas penso que… bem lá no fundo, acabarás por entendê-la e, porque não, até levá-la a sério.

Aliás, seria desejável que o fizesses.

Todos sabemos, e tu melhor do que ninguém, das dificuldades por que passa este país. E diga-se que mesmo aqueles que não concordam contigo reconhecem que tens trabalhado e lutado para encontrar soluções, sempre na perspectiva de puxar esta lusa pátria para o bom caminho.

Aliás, muitas vezes pareces sozinho a clamar por um pensamento positivo para o nosso país, quando alguns, estranhamente, o caracterizam de insustentável.

A tua coragem é reconhecida, mesmo por muitos dos teus adversários políticos.

Tens pedido e até imposto sérios sacrifícios a todos nós.

Parece que não haverá volta a dar. Compreende-se, e por isso tens tomado medidas nesse sentido:

Tens feito drásticos cortes orçamentais;

Aumentaste os impostos, como por exemplo o IVA (cada vez mais terrível);

Cortaste receitas às autarquias em 100 milhões;

Queres portajar as SCUT, nomeadamente a A23, aqui perto da minha terra.

Por tudo isto, e por causa disto, apresentaste um PEC que em Bruxelas foi aprovado e apreciado.

Enfim, andas num esforço titânico para matares esta maldita crise… A nossa e a importada.

Por falar em PEC, e porque com um facilitismo demagógico se fala por aí em eliminar umas dezenas de câmaras, essas "malditas gastadoras", tenho um para apresentar, aliás uma PEC, uma “proposta especial de contenção”:

Porque não acabas de uma vez por todas, e pela raiz, com esses sorvedores de dinheiros públicos que sempre foram e continuam a ser os Governos Civis…? Porque não eliminas esta apodrecida estrutura representativa do Governo, que de representação pouco ou nada tem? E tu sabes, tão bem como eu, que eles se arrastam penosamente, sem dinâmica política e sem factores acrescidos que tenham reflexos positivos nas populações. Aliás, com essa fantástica medida que tens promovido que são as Lojas do Cidadão, não tenhas qualquer dúvida que os governos civis têm tendência a transformar-se, cada vez mais, em autênticas mercearias de bairro, em que os utentes são sempre os mesmos. Do mesmo bairro, logo, quase todos da mesma família.

E todos sabemos que sempre foi assim. Independentemente dos governos, laranjas ou rosas, os Governos Civis de governo nada tiveram. E nada governaram…

Eis a minha PEC.

Se a levares a sério, e ao contrário das SCUT, das autarquias, entre outras, em que os sacrifícios atingem largas centenas de milhares de cidadãos, estaremos aqui a falar de duas ou três centenas de beneficiados, aliás, prejudicados… os tais do mesmo bairro ou da mesma família…


Com amizade,

Teu camarada e amigo

AR

sexta-feira, 9 de julho de 2010

LoroSae















....... Partir com o seguinte estado de espírito:


a) Espírito de missão

b) Consciente das dificuldades que se irão encontrar

c) Ter sempre presente o respeito pelos entrevistados, pela sua cultura e, acima de tudo, pelas suas declarações

d) Não influenciar em nada as respostas dos entrevistados

e) Partir com o espírito de Baden-Powell, percebendo que a técnica da observação é, neste caso, fundamental.

f) Ter sempre presente que de todo o trabalho que se vier a efectuar surgirão premissas e raízes para uma futura legislação autárquica timorense

g) Diversificar ao máximo o tipo de entrevistados, não centrando todo o trabalho nos chefes de suco, mas noutros elementos influentes da comunidade, sejam liurais, padres, professores ou régulos

h) Seguir o método das entrevistas livres e abertas

i) Nunca esquecer que apesar de amigos, estamos em país estrangeiro com um povo esmagado e cansado pela guerra…

j) Cada dia será dedicado a um distrito

k) Compartimentar e identificar bem cada uma das perguntas/respostas por distrito

l) Perceber que distrito a distrito as sensibilidades são diferentes

m) Perceber que o relatório final e os juízos de valor têm que reflectir com rigor as diversidades e assimetrias regionais.


........

In "Memórias de Hoje"

de


António Rodrigues







Né do Almonda




Dedicado a essa Mulher simples, rica e grande
que em Torres Novas passa despercebida,
e que de Torres Novas faz sua Terra e seu berço:
Né Ladeiras!...
Poetisa a tempo inteiro,
encanta e por vezes canta...

Eis este crioulo menino que é poesia
no cume do monte em Santo Antão
onde o mar domina,
e a canção alimenta
Terra de poetas
terra de encanto...




quarta-feira, 7 de julho de 2010

Rambouillet - cidade multicultural



Rambouillet é uma referência incontornável da história francesa e está situada numa área privilegiada nas cercanias de grandes e verdejantes florestas que nos enchem a alma e nos inspiram serenidade e paz de espírito. Florestas intercaladas por lindos e grandes lagos naturais, onde abunda a pesca e os patos se deliciam, em torno dos quais famílias inteiras desfrutam do espaço para os tão usais piqueniques. A cidade propriamente dita, está totalmente ligada a esta floresta, qual quintal gigantesco daquela, mas a porta mais conhecida e referenciada é, sem dúvida, aquela que a liga ao Palácio Presidencial, local de acolhimento para grandes eventos políticos de índole nacional e internacional.

Rambouillet está repleta de grandes e bonitos edifícios do séc. XVIII, que albergam escolas, serviços do estado e serviços municipais, entre outros.

Há uma elevadíssima qualidade de vida nesta Rambouillet. Uma cidade que inspira segurança, porque ela de facto existe, onde o desemprego tem índices muito reduzidos e onde todos os serviços públicos estão ao dispor da população, sem excepção. Rambouillet poderá bem ser um dos símbolos de uma cidade multicultural. E um símbolo exemplar.

A figura incontornável por detrás do que atrás referi é sem margem para dúvidas o seu Maire, há 27 anos no exercício daquelas funções, que hoje acumula com as de Presidente do Senado Francês, precisamente a segunda figura política de França, logo a seguir ao Presidente Sarkozy.

Homem afável, tão dinâmico quanto sensível, é uma autêntica força da natureza que calhou em sorte àquela cidade. E é um homem da multiculturalidade, no discurso e na acção!

Gérard Larcher. É ele o Maire, é ele o Presidente do Senado de França.

E é aqui que tudo se enquadra na nossa árdua tarefa de perceber, e bem interpretarmos, o que são as verdadeiras políticas de acolhimento ao imigrante.

Em Rambouillet há muitas e variadas comunidades de imigrantes, mais concretamente a portuguesa (talvez a maior), a espanhola, a irlandesa, a chinesa, a brasileira, a africana, a romena, a ucraniana e até a americana.

Vamos às políticas concretas que testemunhei:


  1. As crianças destas comunidades de imigrantes têm, semanalmente, aulas específicas para aprendizagem da sua língua de origem, a par de iniciativas semanais de apoio não só à preservação como a promoção e vivência das culturas de origem.

  2. As associações locais de comunidades estrangeiras recebem apoios financeiros da autarquia local, para a promoção de acções de apoio a actividades ligadas à promoção das suas culturas e língua de origem.
  3. Há igualdade plena de trato, quer no emprego, quer na obtenção ou fruição de todo e qualquer serviço público e municipal

  4. Há representantes das comunidades estrangeiras em alguns dos órgãos municipais.

  5. Filhos de imigrantes ocupam hoje lugar de relevo na vida comunitária de Rambouillet e têm, inclusivamente, actividades profissionais de alta responsabilidade técnica e política.

  6. Respira-se em toda a comunidade um recíproco respeito entre todo o tipo de cidadãos.

  7. Há uma efectiva abrangência de toda e qualquer iniciativa municipal a todo e qualquer munícipe independentemente da sua origem, da sua cor, credo religioso ou convicção política.
  8. As comissões de geminação da Câmara de Rambouillet têm obrigatoriamente representantes das comunidades dos respectivos países envolvidos.

Tive sorte em participar na Festa do Muguet, acontecimento municipal anual que mobiliza os 27 mil habitantes daquela cidade.E foi aqui que vi a “prática da política multicultural”. Vamos identificar os gestos e as atitudes que tivemos o gosto de partilhar:

a) A rainha da Festa do Muguet, eleita por voto secreto pelo universo de 250 associações, é portuguesa, filha de pais de Vagos, distrito de Aveiro.

b) Das duas “damas de honor” que ladeiam a rainha, uma é francesa e a outra de Martinica.

c) A recepção à rainha da Festa do Muguet foi realizada no arraial da festa em pleno jardim ladeado por um enorme lago durante a noite de festa. Vê-se chegar a jovem num barco moliceiro de Aveiro com as cores da bandeira de Portugal, nele bem expressas.
d) O fogo-de-artifício, com que foi encerrada a noite, teve como penúltimo tema musical, em homenagem aos imigrantes portugueses, uma canção de Amália… “uma família portuguesa”.
e) O Presidente do Senado e Maire da cidade não só convidou o Presidente da autarquia torrejana a coroar a rainha, como o convidou a usar da palavra perante milhares de pessoas, entre as quais largas centenas de emigrantes da nossa lusa pátria

f) No auge e último dia da festa, Domingo, 9 de Maio, foi exibida de uma forma tão solene quanto sincera, a expressão maior da política municipal de integração dos imigrantes de Rambouillet, mais concretamente o desfile de carros alegóricos, simbolizando cada um deles o melhor da tradição de cada uma das comunidades.

g) Cada comunidade se fez representar com o melhor da sua cultura de origem, com carro decorado em função do tema escolhido, com os figurantes nacionais vestidos com os trajos usuais nas suas terras de origem. (a comunidade portuguesa apresentou um carro com uma garrafa gigante de vinho do Porto, totalmente feita com a folha e a flor do Muguet)

h) Gestos de respeito e de profunda preocupação para que tudo saísse bem foram uma constante por parte do Maire de Rambouillet.

i) Nas intervenções políticas ouve sempre a preocupação nítida para que os imigrantes sentissem a importância que tem para Rambouillet e para o país, a presença das comunidades imigrantes que, forçosamente, terão de se sentir como em sua casa. A naturalidade e a espontaneidade das intervenções, seguramente que são o reflexo da velha sigla francês, tão antiga quanto actual, liberdade, igualdade e fraternidade…

E é precisamente nesta expressão da revolução francesa, sempre tão presente e tão actual, que assenta toda uma lógica política de respeito e de políticas efectivas de integração de imigrantes.

No dia 8 de Maio, foi o Presidente da Câmara de Torres Novas convidado a depor um ramo de flores, no Monumento ao Mortos da I Grande Guerra, mas em homenagem aos mortos da II Guerra Mundial, pois que naquele dia se comemora em França a derrota da Alemanha nazi.

Dizia o Maire Larcher, que foi precisamente o drama e a miséria da guerra que durante cinco anos vitimou milhares de franceses e milhões de europeus, que ainda hoje ensina as actuais e as gerações de então, a promoverem processos de integração de comunidades imigrantes assentes nos direitos humanos e no respeito que a todos é devido. Assim se constrói a paz, assim se mantém a paz, no respeito mútuo das identidades culturais e linguísticas de cada.

É também neste contexto que Rambouillet promove geminações, precisamente para que estas se articulem com as comunidades correspondentes, formando elas próprias um outro mecanismo de apoio efectivo à integração social dos homens e mulheres que deixaram os seus países em busca de uma vida melhor…

Liberdade, Igualdade e Fraternidade…

Um mote que parece sempre presente na vida das comunidades imigrantes em Rambouillet.


António Rodrigues



Rambouillet Maio de 2010





segunda-feira, 5 de julho de 2010

Rostos de Esperança


Estas crianças são da Ribeira Grande, na ilha de Sto. Antão em Cabo Verde.
Todas, ou quase todas, andam a pé entre 10 a 15km para chegarem às suas escolas. Levantam-se diariamente às 6h da manhã, ou mesmo antes, para chegarem às 9. Poucas têm um lápis ou uma borracha e, muito menos, um caderno diário.
Mas estudam e aprendem. E algumas, muitas, são bons alunos.
Por ali não há transportes escolares, computadores, bibliotecas escolares,apoio social ou outro…


Rostos de pouco, mas que nos inspiram muito… e que falam português!

Rostos de um dos países mais bem governados em toda a África…

Rostos de conquista e de luta contra a adversidade!

Estes são os rostos da esperança!