A mais pequenina

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Princesa

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Para meditarmos. Todos!


Houve eleições presidenciais em Portugal.

Acabaram ditando a reeleição do actual Presidente.

Não foram famosas no conteúdo e na forma.

Pouco se falou do país e dos seus problemas

Discutiu-se a personalidade de cada um, fizeram-se insinuações. E acusações.

E houve ofensas e ataques pessoais.

A comunicação social, de tudo isto fez eco. E, como vem sendo hábito, em alguns casos sentenciou, qual tribunal da era moderna. O tribunal da era democrática e da liberdade.

A maioria dos portugueses não votou, considerando a abstenção, os votos nulos e, muito em especial, os brancos.

É assim em Portugal. Tem sido mais ou menos isto em Portugal, sempre que há eleições.

Em Cabo Verde haverá eleições para o Governo, a 6 de Fevereiro.

Decorre a campanha política.


As ruas enchem-se de cores e carros garridos e barulhentos. Com megafones ou quejandos se propagandeia o melhor de cada partido. E as bandeiras desfraldam acossadas pela velocidade dos velhos e barulhentos veículos.


Houve debate televisivo, colocando em confronto os dois putativos futuros primeiros-ministros. O actual e o que o quer substituir.

Foram quase duas horas de debate.

Sem ofensas e insinuações. E, muito menos, acusações.

Falaram e debateram os problemas do país. Com a desejável agressividade política dentro dos cânones do bom senso e do aceitável.

Em nenhuma circunstância – repito – em nenhuma circunstância, um interrompeu o outro.


É verdade!

Ninguém interrompeu ninguém e os tempos, cronometrados e projectados no ecrã, jamais foram incumpridos.

No fim, após o cordial cumprimento entre os crioulos candidatos, esperava-se pelo debate televisivo de comentadores, para apreciar o comportamento dos políticos. O debate de afiar as facas e definir cada um a seu modo, quem ganhou e quem perdeu.


Nadas disso aconteceu.

Afinal, não haveria debate entre comentadores.

O povo não precisa de interlocutores para ajuizarem o que todos viram.

Não precisa de intérpretes.

Esta a justificação que nos foi dada.

O debate será repetido mais duas vezes – e foi – e o povo saberá tirar as suas ilações sem influências de terceiros. Reafirmaram-me os meus amigos.


E a campanha continua.

Com paz, empenho e muita morna que sai daqueles altifalantes…

Lá é assim.

Cá, foi como foi!

António Rodrigues


Diásporas

É sabido que em Portugal sempre se viveu e conviveu com o fenómeno social a que chamamos emigração. E é importante abordar e analisar a nossa emigração para melhor compreendermos a imigração que hoje se regista. É bom sentir o que fomos, num dado contexto da nossa história, para melhor percebermos esse outro contexto da nossa contemporaneidade em que Portugal também se torna país de acolhimento.
Durante séculos Portugal foi um país em sangria constante, expedindo os seus cidadãos pelo mundo fora, consequência da sua pobreza e, paradoxalmente, da sua grandeza. Para muitos dos nossos historiadores Portugal adormeceu, anestesiado pelo viço de um comércio que prosperou em grande escala e rapidez ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, acabando, por isso, por reduzir o nosso empreendedorismo. No enquadramento político e social daqueles tempos percebe-se hoje, e bem, porque nos atrasámos face a uma Europa que, paulatinamente, se foi afirmando e desenvolvendo a uma outra velocidade e, de tal modo, que no arranque da revolução industrial, ainda Portugal se limitava a colher os últimos resquícios das riquezas naturais oriundas das Áfricas, Oriente e Brasil.

E é justamente o Brasil o primeiro destino do nosso primeiro grande surto de emigração. Ainda antes de um Brasil independente, tivemos intensos fluxos migratórios com aquela que era, então, a mais activa e importante colónia portuguesa. Desde logo, com toda a vasta comitiva que acompanhou a Corte no seu movimento de fuga, perante as invasões francesas, opção que muitos estudiosos vêm apontando como estratégia inteligente que garantiu a salvaguarda da independência do reino. Uma deslocação massiva das elites nacionais que moldou a face do Brasil, proporcionando-lhe uma centralidade nunca antes auferida. Foi esse processo que, após o retorno da Corte a Portugal e a subsequente independência da colónia, daria lugar a um forte desenvolvimento económico, social e político, ao qual corresponderia o auge da emigração portuguesa já em princípios do séc. XX, mais concretamente entre 1900 e 1930, em busca das novas oportunidades desse “novo mundo”, por oposição à pobreza e à instabilidade vivida em Portugal e um pouco por toda a Europa.

Fruto dos novos cuidados médicos, destacando-se a vacinação e as inovações nos processos de higiene, a Europa duplicou a sua população entre o séc. XIX e princípios do XX. O continente americano, a sul ou a norte, foi o grande receptor desta fortíssima onda migratória, ímpar na história da Humanidade. O “velho mundo” dava vida e impulso ao “novo mundo”.
Já na segunda metade da última centúria são a França, a Alemanha e a Suíça que surgem como o grande destino para os nossos emigrantes, havendo umas boas centenas de milhar que optaram por viver em Angola e Moçambique.
Depois desta autêntica síntese, de uma síntese do nosso historial migratório, será fácil perceber porque é rara a família portuguesa que não tenha no seu seio elementos que foram ou ainda são emigrantes.

Ora, este pormenor é determinante para melhor percebermos toda a nossa postura face à vaga migratória que, após a concessão da independência às ex-colónias, e, mais intensamente, desde finais da década de noventa, atinge o nosso país, muito em especial a imigração oriunda dos recém libertados países de leste. Com efeito, sem esquecermos o verdadeiro fenómeno migratório do pós 25 de Abril, que caracterizou a vinda dos ditos “retornados” das ex-colónias (que muitos apontam serem na ordem dos 800 mil, embora oficialmente os números se fixem pelo meio milhão), são os naturais desses países africanos que, apesar da independência, vêm optando por viver em Portugal, perseguindo os seus sonhos em busca de maior qualidade de vida, ou por aqui passando, qual plataforma de porta aberta ao mundo.

Somos, pois, um povo habituado à dor de ver partir, um povo de diáspora, mas também habituado a receber e a acolher quem vê em nós, muitas vezes, a miragem da sua felicidade.

Torres Novas, à sua escala e dimensão, viveu, obviamente, enquanto município que terá actualmente muito perto de 40 mil habitantes, todos estes fenómenos. Mas, não tendo sido tão castigada com os níveis de emigração verificados noutros pontos do país, acaba por também não se ver confrontada com uma chegada abrupta de imigrantes.

Torres Novas tem a particularidade, devidamente testemunhada e documentada, de nas décadas de 50 e 60 do século passado, ter acolhido milhares de trabalhadores oriundos de Ansião e Pombal, que vinham até ao concelho em busca de melhor vida, tentando trabalho nas fainas da apanha do figo, da azeitona e até a própria vindima. E por cá ficaram, constituíram família e deixaram descendentes. Eram os “barrões” ou os “botas”, como então, porventura depreciativamente, eram pelos torrejanos apelidados. Mas foi gente boa, trabalhadora e ordeira, que veio enriquecer o tecido social e laboral de Torres Novas, sendo, por isso mesmo, um micro fenómeno de migração interna. E, curiosamente, se hoje as famílias torrejanas têm laços directos ou indirectos à emigração da década de 60 e 70, ela é precisa e maioritariamente pela via dos seus “barrões”, pois aqueles dois concelhos quase se despejaram com o drama da diáspora. A tal “ida de assalto” para França, como então se dizia, ou, numa vertente mais política, para fugir à tropa e à guerra, Ansião e Pombal, como quase todos os concelhos de Portugal, viram partir para terras de França e Alemanha o melhor da sua essência: os seus filhos e, com eles, a esperança de um futuro mais alegre e risonho. Foram divididas famílias, muitas delas para sempre, em busca daquilo que Portugal não conseguia oferecer, mais concretamente o trabalho e, muitas vezes, a dignidade suficiente para viver e manter uma família. O tal Portugal que juntava aos erros de então, as consequências das políticas do passado.
Parece-me importante falar destes pormenores, que também possuem alguma carga emotiva, porque verdadeira, pois só assim perceberemos o porquê de a Portugal ser actualmente reconhecida a melhor legislação do mundo em termos de acolhimento e integração de imigrantes. Sentimos na pele esse drama e no papel da lei o fizemos reflectir.
E ainda bem.
Fomos coerentes com as nossas experiências.
António Rodrigues

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

AVE MARIA

Neste final de ano, quiçá dos mais complicados da nossa história recente, e precisamente porque ainda nem sequer começou o de 2011, que parece não trazer nada de melhor, deixo a quem tem tido a paciência de me ler, os votos de Boas Festas e, dentro do possível, um bom Ano Novo. (Nunca este voto foi tão paradoxo!)

As coisas não estão bem neste Portugal feito de uma História riquíssima e que teimamos em não ensinar aos nossos filhos de uma forma mais profunda. Mas é por causa dela que sinto que daremos a volta por cima.

Que seremos capazes.

Mas sinto e sei – todos sabemos – que há muitos que sofrem e choram.


E o drama aumenta e adensa-se porque não conseguimos o milagre de a todos acorrer. De a todos ajudar.


Fica a intenção.

E algo que se vai fazendo.


E a vontade de estendermos a mão sempre que possível.


E o coração a quem precisa de uma palavra amiga.


Para todos os amigos que por aqui passam deixo a serenidade e a paz de uma Avé-Maria cantada às “ordens de André Rieu”.


Não é preciso acreditar para se ouvir e sentir a mensagem.


Não é preciso acreditar para juntos todos fazermos algo de bom pelo outro.


Mas é bom acreditar



António Rodrigues







sábado, 18 de dezembro de 2010

Kika e o escritor de sonhos

Era uma vez uma andorinha que vivia muito feliz com as suas irmãs e amigas.

Ela gostava muito de voar! Ora fazia piruetas no ar, ora voava rentinho ao chão, para logo a seguir subir, bem lá para cima, parecendo que queria voar até ao céu...

Voava com as suas quatro irmãs. Todas tinham nascido num ninho feito de barro,

debaixo do telhado de uma pequena capoeira, no quintal de uma casa.

Ah, como ela gostava de brincar!


Voava baixinho, junto do galo, das galinhas e dos patos, que ocupavam todo o quintal, e cantava para eles… Todas as andorinhas por ali andavam a chilrear, durante todo o dia, alimentando-se dos insectos que apareciam à volta dos patos e das capoeiras.


As andorinhas ouviam muitos avisos da mãe e do pai… Estes, preocupados, passavam o dia ao seu lado, voando, chilreando e ralhando:


− Tenham cuidado! Tenham juízo! Não voem tão depressa! Ainda se podem magoar e partir uma asa...


No quintal, os donos da casa, faziam uma grande festa quando por lá aparecia a Kika. E que festa! Eram os avós babados de uma neta bonita que mal sabia andar, tal como as andorinhas, que voavam há tão pouco tempo...

A pequenita, a tentar equilibrar-se no seu andar, passava o tempo a brincar com os patinhos e com as andorinhas.

De vez em quando, a Kika levantava os braços no ar, tentando agarrar as andorinhas...

E estas, que também queriam brincar com ela, voavam tão perto da sua cabecita que quase paravam em cima dela.

Estávamos em plena Primavera e a alegria abundava naquele quintal, onde as macieiras e as pereiras se enchiam de flores e de muitas abelhas, suspensas sobre as pétalas em busca do pólen... A andorinha, que por ali passeava e brincava, quase poisava nas mãos da menina.

Até parecia que parava em pleno voo…


− Olá passarinho! Como te chamas? − Perguntava a Kika à andorinha que, chilreando, lhe respondia:

− Sou a Teté, e tu?

− Eu sou a Kika.

E sempre que a Kika vinha ao quintal dos avós, havia alegria e festa, para os avós e para as andorinhas…


Os dias longos e quentes iam dando lugar aos dias mais curtos…

O Verão estava a acabar e, com os últimos dias de calor, também as andorinhas partiam. A Kika perguntava, e voltava a perguntar, pelos passarinhos, e chorava pela ausência das amiguinhas. As andorinhas voaram para longe, muito longe… Voaram, e voaram, passaram dias e dias sempre a voar…


Voaram pelos campos, pelas cidades, atravessaram o oceano e o deserto.

Iam para sul, à procura de calor e alimento, queriam chegar a África.


Cansadas de atravessar o vasto oceano, chegaram a Cabo Verde, poisaram nas montanhas íngremes de Santo Antão, uma ilha perdida no azul do mar...

O bando descansou, então, numa frondosa árvore, muito verde, com folhas grandes e frutos que pareciam melões, a fruta-pão.

Eram tantas as montanhas, tantas, tantas, que as andorinhas conseguiam vê-las do alto daquela árvore enorme…

As andorinhas voaram para o telhado de uma igreja, que tinha à sua volta muitas casinhas, com telhado de colmo. De algumas delas saía fumo.

Os meninos brincavam por ali, corriam atrás de uma bola e faziam muito barulho.


Parecia que estavam no recreio da escola. Corriam e corriam, com o cabelito muito curto e encarapinhado, tom de pele escura, muito bonitos, alguns de olhos azuis…

Nas escadas da igreja, estava um menino, muito triste que não brincava, olhava em redor e via os colegas a correr e a brincar... A andorinha Teté observava-o intrigada.

Saltitou para o chão e ficou ali parada, pertinho dele.

− Olá, eu sou a andorinha Teté! E tu, como te chamas?

− Eu sou o Joca. Respondeu tristemente

− Sabes, Teté, os meus amigos estão muito felizes a jogar à bola, mas eu sonho ser escritor. Passo aqui horas e horas, sentado, a imaginar histórias tão bonitas… Mas, à noite, quando a mãe me chama para dormir, já me esqueci do princípio da história, por isso todos se riem de mim… Dizem que sem princípio a história não faz sentido… O que eu mais queria, Teté, era ter um lápis. Assim, já podia escrever a história, do princípio ao fim, e todos acreditariam em mim.

− Eu acho que posso ajudar-te, Joca, mas tens de ser paciente e esperar uns meses…

− Eu nasci em Portugal, numa cidade chamada Torres Novas. Na casa onde eu nasci há uma menina, a Kika, que é minha amiga… Ela ainda não sabe, mas, no próximo ano, vou voltar a casa dela. A Kika tem muitos lápis, faz muitos desenhos, alguns de andorinhas… Quando eu regressar, vou-lhe contar a tua história e pedir-lhe um lápis para te oferecer. Não fiques triste, para o ano a tua história vai ser conhecida por todos. Vais escrevê-la com o lápis que a Kika te vai mandar...

O tempo passou e as andorinhas regressaram a Portugal.

Teté volta ao quintal onde nasceu e reencontra a Kika. Os olhos da menina brilham de alegria… Kika, mais crescida, continua a entusiasmar-se com as andorinhas, entretém-se com elas, gesticulando e falando.

Teté conta a Kika a história do Joca, o amigo cabo-verdiano, que aguarda ansioso o seu regresso. As duas amigas não perdem tempo: a Kika ajuda a andorinha a levantar voo com o lápis no bico. A tarefa não era nada fácil.

As duas davam grandes gargalhadas, enquanto o lápis caía no chão vezes sem conta, mas ambas sabiam que acabariam por conseguir…

Tanto treinaram que, no final da Primavera, quando Teté partiu em direcção à ilha,


Levava no bico o lápis da Kika.


Foi com grande esforço que a andorinha Teté manteve o lápis no bico durante a longa viagem. Mas, a Teté era muito corajosa e amiga do seu amigo. Por isso, nunca desistiu.


Joca, de lápis na mão, escreve a sua história, acompanhado pelo rápido compasso da dança, marcado pelos saltitos da Teté. O Joca nunca mais parou de escrever histórias. Hoje, todos o conhecem pelo nome de Joca, o escritor de sonhos.

A partir de então, todas as Primaveras, a Teté regressa a Torres Novas com histórias vindas de Cabo Verde.


A Kika lê com atenção todas as histórias trazidas pela Teté e imagina a vida daqueles meninos que têm sonhos tão grandes que não cabem naquela pequena ilha…


E foi assim, da amizade entre uma criança e uma andorinha, que nasceu a cooperação entre as pessoas de Torres Novas e as de Cabo Verde.


Um sonho que se transformou em história, uma história escrita a lápis, símbolo da esperança e do amor que existe no coração dos amigos.


António Rodrigues
Livro lançado a 20 de Novembro de 2010
Com ilustrações de Alexandra Sirgado

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Diáspora - a nossa e a dos outros

É sabido que em Portugal sempre se viveu e conviveu com o fenómeno social a que chamamos emigração. E é importante abordar e analisar a nossa emigração para melhor compreendermos a imigração que hoje se regista.

É bom sentir o que fomos, num dado contexto da nossa história, para melhor percebermos esse outro contexto da nossa contemporaneidade em que Portugal também se torna país de acolhimento.


Durante séculos Portugal foi um país em sangria constante, expedindo os seus cidadãos pelo mundo fora, consequência da sua pobreza e, paradoxalmente, da sua grandeza. Para muitos dos nossos historiadores Portugal adormeceu, anestesiado pelo viço de um comércio que prosperou em grande escala e rapidez ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, acabando, talvez por isso, reduzindo o nosso empreendedorismo. No enquadramento político e social daqueles tempos percebe-se hoje, e bem, porque nos atrasámos face a uma Europa que, paulatinamente, se foi afirmando e desenvolvendo a uma outra velocidade, e de tal modo que no arranque da revolução industrial, ainda Portugal se limitava a colher os últimos resquícios das riquezas naturais oriundas das Áfricas, Oriente e Brasil.


E é justamente o Brasil o primeiro destino do nosso primeiro grande surto de emigração. Ainda antes de um Brasil independente, tivemos intensos fluxos migratórios com aquela que era, então, a mais activa e importante colónia portuguesa. Desde logo com toda a vasta comitiva que acompanhou a Corte no seu movimento de fuga, perante as invasões francesas, opção que muitos estudiosos vêm apontando como estratégia inteligente que garantiu a salvaguarda da independência do reino. Uma deslocação massiva das elites nacionais que moldou a face do Brasil, proporcionando-lhe uma centralidade nunca antes auferida. Foi esse processo que, após o retorno da Corte a Portugal e a subsequente independência da colónia, daria lugar a um forte desenvolvimento económico, social e político, ao qual corresponderia o auge da emigração portuguesa já em princípios do séc. XX, mais concretamente entre 1900 e 1930, em busca das novas oportunidades desse “novo mundo”, por oposição à pobreza e à instabilidade vivida em Portugal e um pouco por toda a Europa.


Fruto dos novos cuidados médicos, destacando-se a vacinação e as inovações nos processos de higiene, a Europa duplicou a sua população entre o séc. XIX e princípios do XX. O continente americano, a sul ou a norte, foi o grande receptor desta fortíssima onda migratória, ímpar na história da Humanidade. O “velho mundo” dava vida e impulso ao “novo mundo”.

Já na segunda metade da última centúria são a França, a Alemanha e a Suíça que surgem como o grande destino para os nossos emigrantes, havendo umas boas centenas de milhar que optaram por viver em Angola e Moçambique.


Depois desta autêntica síntese, de uma síntese do nosso historial migratório, será fácil perceber que é rara a família portuguesa que não tenha no seu seio elementos que foram ou ainda são emigrantes.

Ora, este pormenor é determinante para melhor percebermos toda a nossa postura face à vaga migratória que, após a concessão da independência às ex-colónias, e, mais intensamente, desde finais da década de noventa, atinge o nosso país, muito em especial a imigração oriunda dos recém libertados países de leste. Com efeito, sem esquecermos o verdadeiro fenómeno migratório do pós 25 de Abril, que caracterizou a vinda dos ditos “retornados” das ex-colónias (que muitos apontam serem na ordem dos 800 mil, embora oficialmente os números se fixem pelo meio milhão), são os naturais desses países africanos que, apesar da independência, vêm optando por viver em Portugal, perseguindo os seus sonhos em busca de maior qualidade de vida, ou por aqui passando, qual plataforma de porta aberta ao mundo.

Somos, pois, um povo habituado à dor de ver partir, um povo de diáspora, mas também habituado a receber e a acolher quem vê em nós, muitas vezes, a miragem da sua felicidade.

Somos portugueses!


Recebemos bem!.



sábado, 4 de dezembro de 2010

E a revolta dos Injustiçados?


Começa a cheirar muito mal todo o tipo de incoerências e de injustiças a que o país assiste… impunemente, assim parece.

Já não basta aquelas que aparentemente são incontornáveis ou pelos menos de resolução difícil, quanto mais aquelas que são fruto da incompetência, do oportunismo e do “xico-espertismo” de alguns políticos.

Não percebo e sinto até alguma revolta, em como foi possível que o grupo parlamentar do PS tivesse aceitado e votado essa escandalosa isenção de impostos a aplicar aos dividendos antecipados da PT, Portucel, Jerónimo Martins, entre outras. E com essa postura, ao que parece, terá arrastado a posição do PSD que, diga-se, também não fica nada bem na fotografia.

Então, a lei só se aplica a alguns?

A crise não é para ser suportada por todos de forma equitativa?

E a coerência da matriz identitária do PS?

Se ela não é bandeira em tempo de crise, então, quando o será?

Onde pára a veia humanista do PS?

E nem quero acreditar que a posição socialista tenha a ver com a proveniência da proposta. Não me parece que ela tenha perdido oportunidade e justiça social, só porque proveniente da CDU...

Mas esta situação gera outra ainda mais grave e que esmaga por completo aquela que já por si é miserável e nula: a imagem e a liberdade da acção política dos deputados, diga-se, que generalizada a todo o parlamento. Quando nestes assuntos tão sérios e profundos, que colidem com os princípios e a génese política de alguém supostamente militante partidário, eleito precisamente com base nesses princípios e, na hora da verdade, tem que os ignorar e, mais do que isso, votar contra a sua vontade em detrimento da vontade das cúpulas, há que perguntar: para que serve o parlamento? Para que serve votar?

Para ratificar a vontade das cúpulas e chefias?

Para que servem os partidos e os seus militantes?

Para eleger lideres e depois ser-lhes subserviente, andar com eles ao colo e ser escravo das suas vontades?

Eis a deturpação de toda a lógica da representatividade democrática.

Uhm! Isto não está bem! E cheira mal!

Não há nesta decisão qualquer equidade e justiça social e ainda sobeja humilhação para um parlamento, que o é cada vez menos, em particular para alguns grupos parlamentares…

A uns, aumentam-se impostos, corta-se nos vencimentos e anulam-se subsídios que agravam dramas e pobrezas. A outros, perdoam-se impostos…

Como se não bastasse, aparece agora um gesto de puro xico-espertismo do Dr. César dos Açores, que quer evitar que o arquipélago sinta na pele o que os do continente são obrigados a suportar… a crise que a todos deveria afectar. E quer fazer compensações aos ilhéus, nos cortes dos vencimentos e quejandos. Anda gente preocupada com a constitucionalidade da decisão. Que estupidez!

Então?

Se for constitucional, a atitude do homem dos Açores passa a ser eticamente correcta e moralmente aceite?

E, já agora, como apontam César como um dos eventuais candidatos a sucessor de Sócrates, por mim fiquei esclarecido. Com este tipo de atitudes, dispenso-o.

Pois, se fosse o imprevisível Jardim a lançar esta ideia, cairia o carmo e a trindade. E não basta a preocupação de Cavaco e Sócrates. É pouco! Terão que fazer muito mais, se tiverem coragem e autoridade.

E é esta que cada vez mais está ausente neste país e que, por ausência dela, nos arrastam cada vez mais para o fosso.

A mesma autoridade ou falta dela, que caracteriza essa vergonha nacional, de termos gestores em empresas públicas, quais vacas sagradas de iluminação celestial, que ganham num mês, mais do que o Presidente da República aufere em anos. Ainda há dias, uma entrevistadora da RTP, entrevistava o primeiro ministro de Portugal. Eis um bom exemplo da vergonha e do destempero a que chegou a justiça salarial que caracteriza a aplicação dos dinheiros públicos! Ou falta dela... A entrevistadora ganha o triplo do entrevistado. E, com o sim político e a assinatura do entrevistado, que só este ano transferiu 200 milhões de euros para a RTP.

Dinheiro dos nossos impostos.

Como conseguem sobrevir os canais privados? É a pergunta que apetece.

Tudo isto e muito mais que não foi aqui referido, prova que isto ainda não bateu no fundo. Ainda há muita gente a brincar com coisas muito sérias… e a brincar com o sofrimento de milhares de pessoas que, por mero acaso, também são portugueses.

Até que o Povo, o tal que elege deputados que acabam por não o ser, transforme em acções concretas a revolta que lhes vai na alma. E, infelizmente, esta não é uma expressão de retórica, que até poderá ficar bem no fim de um texto.

Não!

É o risco que se corre.

E um texto que gostaria de não ter escrito.

António Rodrigues

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A hora di bai de Nhô Domingos



O Mar de Canal, pontual como sempre, partiu rumo ao porto de Porto Novo.

Para trás vislumbramos a linda baía do Mindelo, de mar sempre sereno, com os barcos e os botes ancorados que parecem sempre duplicados, tal o reflexo perfeito na água. Linda e azul como sempre. No mar e no céu.

E o barco galga as ondas, por vezes de um azul muito escuro, sempre potentes e gigantes, e que cospem água por força das ventanias. É um sobe e desce, consoante a onda, e, quando desce, mais parece que vai direito ao fundo do mar profundo.

Mas não!

Empertiga-se e, por vezes inclinado, volta a ter força para emergir na coroa da onda… É assim esta sensação de sobe desce. Ora parece que vai para as profundezas do inferno, ora parece que vai ao céu…

E a água, a tal que é cuspida pela força dos alísios, enxagua-nos a face e faz-nos sentir que somos mais um a ter que lutar contra ventos e marés, para que o destino depressa chegue.

Há um silêncio absoluto no magote de crioulos que enchem o barco. E, no bar, o espírito é o mesmo. Onde antes imperava a anedota fácil, a história rápida ou o piropo às meninas que nos servem o melhor café de todo o Mindelo, o ambiente é pesado.

Nhô Domingos não resistiu à queda da cama.

O colo do fémur partido e as suas consequências, associados aos seus 92 anos, ditaram o fim.

Sereno e atento até aos últimos instantes, partiu com a dignidade e a dimensão dos Grandes. Os tais que, sendo Grandes, passam ao lado dos grandes.

Cá em baixo, no porão do barco, com as cautelas e o respeito devido, Nhô Domingos dorme o sono eterno e faz a sua derradeira viagem para Coculi.

Este é o canal que ele já não vê!

O mesmo que ele em vida atravessou, altas horas da madrugada, fugindo às leis injustas de Salazar. Também ele, num bote minúsculo, subiu e desceu as ondas gigantes, enquanto em Coculi se rezava para que voltasse são e salvo. Os mesmos que hoje rezam pela sua eternidade. Para que nos céus se faça justiça.

No ar, gaivotas sobrevoam e acompanham o Mar de Canal.

Na água, peixes voadores surgem do azul das ondas, voam e mergulham mais à frente… Os golfinhos emergem e mergulham num constante entrar e sair de água, que cansa só dever.

Estes, os guardas de honra do Mar de Canal. Estes, os melhores guardiães da última viagem de Nhô Domingos.

No Coculi é grande a tristeza.

O sino da velha igreja, paredes meias com a casa de Nhô Domingos, brame espaçadamente. E deixa no ar um som triste que se espalha pelos vales e inunda o espírito dos viventes. E quando o vento se ajeita e a flor da cana baloiça ao sabor dele, até em Boca de Coruja se ouve o choro do velho e fraco sino…

Aqui e ali ouve-se a criançada. Mas não se vê a criançada…

Ficaram-se pelos pobres quintais onde os mais velhos comentam a hora di bai de Nhô Domingos.

Mas Coculi está sempre bonita.

Sempre!

Mesmo na hora da tristeza!

Vieram de todo o lado.

Da Povoação, da Ponta do Sol, de Fontainhas, do Figueiral, de Boca de Coruja e de Chã de Igreja, entre outras.

O Coculi encheu.

E subiu a montanha rezando pelo falecido, ao som melodioso e penetrante das cordas dos violinos….que arrepiam e choram, tal a destreza e o sentimento que os dedos lhe incutem.

Mais em baixo o terreno da C.A.S.A, que Nhô Domingos não viu construída. Mas que o será, com toda a certeza, para que nela os pobres sejam menos pobres.

E sobe-se. E continua a subir-se.

E, quanto mais se sobe, mais bebemos daquele vento persistente e vislumbramos os cumes de Sto. Antão.

Uma paisagem única.

Uma beleza inaudita.

E chega-se ao Campo-Santo, onde o nosso amigo, para sempre ficará.

No regresso já se sente alguma descompressão.

E já há vozes altercadas na descida compassada.

O que tinha que ser feito, feito está.

Já passou a emoção, a reza e os pêsames que sempre se dão e não se regateiam nestas alturas…

E a família de Nhô Domingos esteve lá. Toda!

Na hora de bai,

Do pai,

Do avô, do bisavô, do irmão, do tio…

Do amigo.

A tarde caiu e a família, agora em casa, continua reunida. A vida passou a ser outra. É a vida! Que se muda de um para outro momento.

É a hora da dor vivida no silêncio, com as memórias que a todos assolam.

Tudo vem à memória.

Tudo!

E o passado, faz-se presente.

Os filhos, alguns, sentam-se junto à igreja, antes que a noite caia.

E falam silêncios, entrecortados com os pequenos goles de grogue.

O Cónego Terças, que mereceu campa rasa, perto da porta de entrada do velho edifício, é testemunha desta homenagem a Nhô Domingos.

Dos filhos que bebem do seu grogue.

Abençoados trapiches que tanta cana espremeram.

Abençoados braços que tudo deram a tantos filhos.

E também os de D. Mariazinha. Que afagaram e trabalharam.

E muito!

Ela, sempre presente, que não se despediu de Nhô Domingos.

Há muitas mulheres assim que, como ela,

jamais de despedem.

Nem do homem, nem dos filhos.

Porque amaram muito.

Amam muito.

Um amor infinito que não tem hora de bai…

Foi assim a hora di bai de Nhô Domingos.

Que descanse em paz.

António Rodrigues

(o autor deste artigo, não esteve lá)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Europa das "europas"


Quando intitulo esta minha pequena divagação pela estratégia da língua, ou se quisermos das línguas, de “Europa das Europas”, faço-o precisamente porque penso que é isso mesmo que hoje temos no contexto da União Europeia. Seremos porventura a maior união política do mundo onde o multilinguismo é respeitado de uma forma clara e objectiva, de tal modo que os seus custos têm quinhão muito expressivo nos orçamentos da União. E é precisamente por isso que as “europas” se dispersam pela Europa, pelo simples facto de ao longo dos séculos se ter construído no continente em que vivemos, a afirmação, a conjugação e a articulação da sua riqueza multilinguística, com tantos países e tantas línguas, inseridos num espaço relativamente pequeno. No passado recente, cada país era uma riqueza e uma identidade tão fechada e tão assente nas suas géneses e tradições, que só os tempos modernos, por força da informação e da queda das fronteiras, permitiram outro tipo de evolução. E de interacção.


Quer queiramos quer não, esta matriz identitária dos povos, é hoje um “puzzle” na Europa unida pela política, mas nunca unida pela língua e muito menos pelos costumes.


E é esta exactamente a sua riqueza… e é neste tabuleiro de diversidades culturais que se jogará o futuro da União, nomeadamente a sua identidade que resultará recauchutada, fruto das políticas de miscigenação politica, cultural e social, com a aplicação e a adesão aos programas Erasmus, Sócrates, Leonardo da Vinci e outros que tais…


Precisamente porque os europeus salvaguardaram à união política a não união linguística, de resto impossível, resulta daqui como que uma disputa de liderança de língua em que o Inglês, o Francês e o Alemão, marcam a dianteira, não necessariamente pelos méritos da língua e muito menos pelas sua representatividade mundial, mas antes por questões estratégicas e de representatividade nacional. E da força do dinheiro…


A Europa respeita a liberdade, a democracia e a diversidade e, nesse contexto, também o multilinguismo é respeitado, de tal modo que lhe criou um marco: o Dia Europeu das Línguas. Assim, reconhece que esta diversidade linguística é um dos pontos de honra da Europa, em que a aprendizagem das línguas é factor de tolerância e de respeito mútuo.


O inglês é hoje, inequivocamente, a língua que, depois da materna, mais se aprende ou ensina, não só na Europa como um pouco por todo o Mundo. Por isso mesmo, se tornou aqui a e acolá numa espécie de “crioulo” tal a dimensão da adulteração da sua génese. Aliás, este tipo de fenómeno levou a que, em Torres Novas, o Professor Adriano Moreira se referisse à língua inglesa como o “Globis” ou o Tradut, algo que resultará de um inglês transversal a todo o fenómeno linguístico universal.


A União aconselha e sugere que para além da língua materna, se aprendam mais duas línguas, o que é mais um reforço da estratégia de tolerância e de respeito pelos valores do diálogo intercultural, que há-de ser, se o não é já, a alma de uma União Europeia rica e desenvolvida, que o futuro há-de atestar.


Portugal, em minha opinião, soube e bem, nos anos 80 e 90 do outro século, defender a manutenção da língua portuguesa nos milhões de emigrantes espalhados pelo continente europeu. Tivemos, por ali dispersos, centenas e centenas de professores a ensinar o português aos filhos dos nossos emigrantes. Um feito que passou despercebido ao comum do cidadão mas que foi determinante para a afirmação e para o respeito do nosso idioma.


E se hoje essa “batalha” está, eventualmente ganha, falta perceber se o português consegue sobreviver num mundo de disputa pela utilização e afirmação das línguas, numa Europa prenhe de diversidades linguísticas em que adicionamos às línguas oficias e indígenas, todo o manancial de expressão oral oriundo de outros continentes, muito em particular de África e de Ásia. Falantes que hoje inundam a União Europeia em busca de melhores dias.


Abençoada expansão marítima portuguesa que permitiu a divulgação e também a expansão da nossa língua um pouco por todo o mundo. Se tal não tivesse acontecido e se hoje não fossemos 240 milhões a falar a língua de Camões, os riscos próprios da língua de um país pequeno e periférico da Europa, seriam enormes e o seu futuro muito comprometido.


Quando um intelecto com a dimensão de Adriano Moreira, afirma sem pejo, que dentro de 20 anos a língua italiana, “mãe” de um país rico e nesse contexto nada comparado com Portugal, poderá estar em risco de acabar, o que seria do português se só fosse falado no nosso rectângulo ibérico?


Abençoado Vasco da Gama, Cabral e quejandos.


António Rodrigues