A mais pequenina

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Princesa

sábado, 19 de março de 2011

Não brinquem mais com o Povo


É vergonhosa a situação política e partidária que se vive no país.

Começa a ser revoltante a forma como se joga o xadrez do poder, tendo como tabuleiro toda uma população que anda farta deste tipo de actores políticos. Ou, pelo menos, de alguns deles. E, como na vida, neste jogo quem se trama é o peão.

Quando o país chega ao que chegou, e os dois maiores partidos políticos não se entendem, quando eles são os principais responsáveis da governação no pós 25 de Abril, então é quase certo que não se pode sonhar com o entendimento tão necessário e desejável, quanto mais grave é a situação social e financeira de Portugal. Quando se diz que os mercados, para baixarem os juros, exigem medidas duras e de austeridade, interrogo-me muitas vezes se um entendimento político em Portugal e uma consequente governação mais serena, não seria, também, o antídoto de excelência para a tal redução dos juros.

Mas não há entendimento e quem suporta os juros que se pagam, são os impostos que todos, ou quase todos, suportamos.

E, neste gravíssimo desentendimento político que vivemos, é também preocupante que o país tenha perdido, uma voz que procure o entendimento. Quando seria de prever que o Presidente da República viesse a ser factor de união e de conjugação de esforços na busca de algum entendimento estratégico para Portugal, eis que assumidamente se demitiu desse desiderato. Rompeu essa postura no discurso da sua tomada de posse.

É penoso viver num país, em que parece que o único que puxa por ele, é o primeiro-ministro. E tudo o que o homem faz, tudo, é mal feito aos olhos da oposição. O mesmo acontecerá, quando um dia outro vier para o seu lugar. A nossa “cultura” é dizer sempre mal de quem governa. Mal da pessoa e mal da governação.

E estamos, também, encharcados de jornalistas e comentadores que, salvaguardando honrosas excepções, muitas vezes se confundem ora, no papel da oposição ora, no papel da justiça televisiva, tão primária quanto imbecil.

Mas seria bom que quem governa ou quem queira vir a governar, se lembre por uma vez, que povo que sofre e não tem emprego, não come nem colheres de liberdade e muitos menos pratos de dialécticas políticas, que hoje inundam e imundam a cena política nacional.

O povo que vive sem esperança e suporta as consequências da crise, não come colheradas de guerras partidárias e muito menos se auto-sustenta com a ambição dos que detêm o poder o querem manter e, muito menos, daqueles que não o tendo, não olham a meios para o conseguir.

O país está exausto de tanta conversa.

E de tanta discórdia.

Própria, é certo, de uma democracia, mas desadequada num país que vive a sua sobrevivência financeira, de mão estendida para o estrangeiro. Que também começa a ficar farto de nós… e que começa a dizer, falem menos e trabalhem mais.

Olhe-se para os juros e para o facto de sermos o quarto país no mundo que mais se endividou nos últimos 10 anos.

Lembro-me daquela menina goesa, Sandra Maria, que vivendo em Pangim, Goa, e falando-me num português impecável dizia: adoro Portugal.

E vê a RTP internacional. Gosta do Malato e do Preço Certo; “mas não vejo os telejornais porque vocês andam sempre zangados e a dizer mal do vosso país”.

E eu gosto muito de Portugal!

Dizia ela.

E eu também.

António Rodrigues

19.03.2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Pastor

Conheci um pastor cuja paixão eram as suas ovelhas.

E era um bom pastor.

Galgava montes e montículos com um rebanho exemplar que o acompanhava com uma obediência canina. Tão canina que os cães pouco se preocupavam em unir o que unido estava. E o rebanho lá percorria matas e ervados.

Gordo e luzidio.

E o pastor era respeitado na sua profissão.

Sabia escolher os melhores pastos e os caminhos menos penosos para o seu vasto rebanho.

Quando uma ou outra ovelha se tresmalhava ou saía fora dos eixos, um mero assobio do pastor ou a corrida de um cachorro, reagrupava a riqueza do homem do cajado.

E assim foi durante anos a vida deste pastor, que com o tempo sentia que o seu pecúlio evoluía, porque as pastagens não faltavam e as reproduções aconteciam naturalmente. O homem trabalhava e muito.

Mas também tinha e sentia a recompensa do seu esforço.

Vieram tempos maus.

Os pastos pioraram e as secas tornaram-se mais prolongadas que o normal. E o pastor não podia fazer milagres. Não tinha força sobre a natureza para que as chuvas viessem e os pastos rejuvenescessem.

A juntar a este contratempo, o pastor, para surpresa de muitos, em vez de procurar verdura nos arrabaldes onde existiria, não o fez.

Acomodou-se.

Foi, para ele, mais fácil sujeitar as ovelhas às ervas secas e empoeiradas do que se esforçar por melhores e verdes campos.

E as ovelhas ressentiram-se. Perderam peso e brilho.

E dispersaram-se em busca de melhor pasto. E o pastor, de cajado em riste e assobios arrepiantes, bem se esforçou e tudo fez para reunir de novo as ovelhas que, na ânsia do viço da erva, deixaram de o ouvir e perderam o respeito aos cães pastores.

A erva estava seca, queriam melhor. Mereciam melhor.

E o pecúlio começou drasticamente a corroer.

E o pastor percebeu, tarde, que se se tivesse esforçado, e optado por novas pastagens embora mais longínquas, o seu rebanho continuaria unido. Luzidio e gordo a fazer inveja aos demais.

Mas não o fez…

As ovelhas andam tresmalhadas.

Será o pastor capaz de voltar a reunir o seu rebanho?

António Rodrigues

25.01.2011

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O xadrez da nossa miséria

Este país assusta-nos.

Não pelos portugueses, mas por causa de alguns deles. Dos que pensam que têm poder. Ou que o querem ter.

É revoltante a forma como alguns tratam Portugal. Sempre ou quase sempre pela negativa. Com mensagens destrutivas. O quanto pior melhor generalizou-se. Desde a comunicação social à generalidade das oposições. É hoje assim com o PS no poder; será amanhã assim com o PS na oposição.

Em 2010, Portugal teve um crescimento do PIB de 1,4%.

Foi positivo, não sendo o ideal.

Como abriram as notícias? Portugal encolheu 0,3% no último trimestre de 2010. Ou seja, ignorou-se o todo do ano de 2010, para focar o negativo do último trimestre. Chama-se a isto deturpar e enganar. Chama-se a tudo isto carregar no que já está mal, com algo que até nem é negativo. Mas é isto que vende. É este o nosso vício. Desgraçado e miserável vício. Passamos vida a dizer mal de todos nós.

Numa atitude politicamente agarotada os indivíduos da extrema-esquerda derrotista e folclórica, que nada produzem e muito gastam, anunciaram uma moção de censura. Para serem os primeiros e merecerem o destaque daqueles que deles vão a reboque. Não me Incomoda que esta gente, que brinca com o Povo, o tal que dizem defender, apresente mesmo que a brincar, uma proposta destas. O que me incomoda sim, é que o individuo que manda no grupo venha dizer que Portugal está mais desigual que o Egipto. Sinto náuseas por este tipo provocação.

Por esta maledicência.

Perante esta brincadeira de mau gosto, fico espantado com a reacção daquele que sonha substituir Sócrates. Passos Coelho tinha obrigação de ter mais senso político e mais sentido de Estado. Caiu infantilmente na brincadeira dos outros.

Vamos pensar, - dizia ele - para depois decidir. Ou seja, até podemos alinhar com esta gente radical, para chegarmos ao poder. E derrubar o governo. Embora assim não pensasse seguramente. Mas fica bem criar a expectativa e com ela dominar as manchetes e as expectativas da comunicação social. Fica a ser notícia com tabu de tamanha dimensão. O resto e suas consequências não contam. O país aguentará e quem sofre que sofra. E os juros que aumentem.

Este ainda é o tempo do PS governar, diz agora Passos Coelho. Mas disse-o com a mesma arrogância de que muitos acusam Sócrates. É ele e não o Povo que decide que quem governa e quando governa. Se é assim na oposição, como será na “situação”?

É este o homem que quer garantir a confiança dos portugueses a ser primeiro-ministro?

Esperava mais dele. E isto preocupa, pela simples razão que no estado em que estão as coisas, o mais importante é que se governe bem e se resolvam, no possível, os problemas do país. A situação a que se chegou exige gente boa e capaz de enfrentar os problemas, secundarizando a origem partidária. Gente competente.

E, é por isso, que neste universo miserabilista, dói sentir que tudo aposta na queda do governo. Tudo. Não se aposta na resolução dos problemas do país. Está aí a moda da moção de censura.

E, enquanto se vive neste cenário político, há portugueses que sofrem porque estão desempregados. Há portugueses que sofrem porque lhes cortaram ou reduziram os vencimentos. E há ainda portugueses que sofrem porque vivem sem esperança no amanhã. Há portugueses que trabalham no duro e pagam impostos, como há empresários que sofrem para cumprir as suas obrigações sociais. Tudo isto, perante o desrespeito de alguns dos nossos políticos que, na lógica do jogo do poder, puro e duro, jogam xadrez na esperança que o xeque-mate surja.

Talvez se enganem!

E, já agora, se querem jogar xadrez, mudem de tabuleiro, porque o Povo está farto de o ser.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Eduardo Guedes


Conheci-o em 1971.

Em Alfragide.

Fazíamos, então, os encontros da Geração Nova, a força dos Focolares, patenteada num projecto de vida para os mais novos.

O Eduardo distinguia-se dos demais.

Foi o primeiro GEN português.

Era bonito. Física e espiritualmente. Havia nele algo que nos arrastava, pela força da sua fé, pelo seu magnetismo. Pelo exemplo de vida.

Adorava desporto e foi bom aluno.

O Eduardo, como também o Joca, foram as referências para os novos da Geração Nova (GEN).

O Evangelho, para os GEN’s, era e é a fonte de todo o Amor.

Amar na Unidade em torno da vivência de uma forma objectiva e assumida dos Evangelhos.

Viver como Cristo, desprendido de tudo e de todos, mas disponível para todos.

Viver o momento presente em entrega absoluta ao outro, na dádiva constante da vida.

Foi assim que Chiara propôs e estimulou.

Foi assim que muitos tentaram e por isso foram mais felizes.

Viver o ideal da Unidade, para que todos sejam um.

E o Eduardo assim o fez.

Viveu, espalhou e irradiou o ideal focolarino.

Primeiro em Lisboa e depois na Rússia, onde estava há 20 anos.

Em partilha com o próximo, por amor ao próximo.

Com a serenidade própria dos justos

Partiu.

Deixou-nos o seu exemplo.

Deixou-nos o perfume da sua serenidade.

E da sua bondade.

Obrigado Eduardo



António Rodrigues

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Para meditarmos. Todos!


Houve eleições presidenciais em Portugal.

Acabaram ditando a reeleição do actual Presidente.

Não foram famosas no conteúdo e na forma.

Pouco se falou do país e dos seus problemas

Discutiu-se a personalidade de cada um, fizeram-se insinuações. E acusações.

E houve ofensas e ataques pessoais.

A comunicação social, de tudo isto fez eco. E, como vem sendo hábito, em alguns casos sentenciou, qual tribunal da era moderna. O tribunal da era democrática e da liberdade.

A maioria dos portugueses não votou, considerando a abstenção, os votos nulos e, muito em especial, os brancos.

É assim em Portugal. Tem sido mais ou menos isto em Portugal, sempre que há eleições.

Em Cabo Verde haverá eleições para o Governo, a 6 de Fevereiro.

Decorre a campanha política.


As ruas enchem-se de cores e carros garridos e barulhentos. Com megafones ou quejandos se propagandeia o melhor de cada partido. E as bandeiras desfraldam acossadas pela velocidade dos velhos e barulhentos veículos.


Houve debate televisivo, colocando em confronto os dois putativos futuros primeiros-ministros. O actual e o que o quer substituir.

Foram quase duas horas de debate.

Sem ofensas e insinuações. E, muito menos, acusações.

Falaram e debateram os problemas do país. Com a desejável agressividade política dentro dos cânones do bom senso e do aceitável.

Em nenhuma circunstância – repito – em nenhuma circunstância, um interrompeu o outro.


É verdade!

Ninguém interrompeu ninguém e os tempos, cronometrados e projectados no ecrã, jamais foram incumpridos.

No fim, após o cordial cumprimento entre os crioulos candidatos, esperava-se pelo debate televisivo de comentadores, para apreciar o comportamento dos políticos. O debate de afiar as facas e definir cada um a seu modo, quem ganhou e quem perdeu.


Nadas disso aconteceu.

Afinal, não haveria debate entre comentadores.

O povo não precisa de interlocutores para ajuizarem o que todos viram.

Não precisa de intérpretes.

Esta a justificação que nos foi dada.

O debate será repetido mais duas vezes – e foi – e o povo saberá tirar as suas ilações sem influências de terceiros. Reafirmaram-me os meus amigos.


E a campanha continua.

Com paz, empenho e muita morna que sai daqueles altifalantes…

Lá é assim.

Cá, foi como foi!

António Rodrigues


Diásporas

É sabido que em Portugal sempre se viveu e conviveu com o fenómeno social a que chamamos emigração. E é importante abordar e analisar a nossa emigração para melhor compreendermos a imigração que hoje se regista. É bom sentir o que fomos, num dado contexto da nossa história, para melhor percebermos esse outro contexto da nossa contemporaneidade em que Portugal também se torna país de acolhimento.
Durante séculos Portugal foi um país em sangria constante, expedindo os seus cidadãos pelo mundo fora, consequência da sua pobreza e, paradoxalmente, da sua grandeza. Para muitos dos nossos historiadores Portugal adormeceu, anestesiado pelo viço de um comércio que prosperou em grande escala e rapidez ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, acabando, por isso, por reduzir o nosso empreendedorismo. No enquadramento político e social daqueles tempos percebe-se hoje, e bem, porque nos atrasámos face a uma Europa que, paulatinamente, se foi afirmando e desenvolvendo a uma outra velocidade e, de tal modo, que no arranque da revolução industrial, ainda Portugal se limitava a colher os últimos resquícios das riquezas naturais oriundas das Áfricas, Oriente e Brasil.

E é justamente o Brasil o primeiro destino do nosso primeiro grande surto de emigração. Ainda antes de um Brasil independente, tivemos intensos fluxos migratórios com aquela que era, então, a mais activa e importante colónia portuguesa. Desde logo, com toda a vasta comitiva que acompanhou a Corte no seu movimento de fuga, perante as invasões francesas, opção que muitos estudiosos vêm apontando como estratégia inteligente que garantiu a salvaguarda da independência do reino. Uma deslocação massiva das elites nacionais que moldou a face do Brasil, proporcionando-lhe uma centralidade nunca antes auferida. Foi esse processo que, após o retorno da Corte a Portugal e a subsequente independência da colónia, daria lugar a um forte desenvolvimento económico, social e político, ao qual corresponderia o auge da emigração portuguesa já em princípios do séc. XX, mais concretamente entre 1900 e 1930, em busca das novas oportunidades desse “novo mundo”, por oposição à pobreza e à instabilidade vivida em Portugal e um pouco por toda a Europa.

Fruto dos novos cuidados médicos, destacando-se a vacinação e as inovações nos processos de higiene, a Europa duplicou a sua população entre o séc. XIX e princípios do XX. O continente americano, a sul ou a norte, foi o grande receptor desta fortíssima onda migratória, ímpar na história da Humanidade. O “velho mundo” dava vida e impulso ao “novo mundo”.
Já na segunda metade da última centúria são a França, a Alemanha e a Suíça que surgem como o grande destino para os nossos emigrantes, havendo umas boas centenas de milhar que optaram por viver em Angola e Moçambique.
Depois desta autêntica síntese, de uma síntese do nosso historial migratório, será fácil perceber porque é rara a família portuguesa que não tenha no seu seio elementos que foram ou ainda são emigrantes.

Ora, este pormenor é determinante para melhor percebermos toda a nossa postura face à vaga migratória que, após a concessão da independência às ex-colónias, e, mais intensamente, desde finais da década de noventa, atinge o nosso país, muito em especial a imigração oriunda dos recém libertados países de leste. Com efeito, sem esquecermos o verdadeiro fenómeno migratório do pós 25 de Abril, que caracterizou a vinda dos ditos “retornados” das ex-colónias (que muitos apontam serem na ordem dos 800 mil, embora oficialmente os números se fixem pelo meio milhão), são os naturais desses países africanos que, apesar da independência, vêm optando por viver em Portugal, perseguindo os seus sonhos em busca de maior qualidade de vida, ou por aqui passando, qual plataforma de porta aberta ao mundo.

Somos, pois, um povo habituado à dor de ver partir, um povo de diáspora, mas também habituado a receber e a acolher quem vê em nós, muitas vezes, a miragem da sua felicidade.

Torres Novas, à sua escala e dimensão, viveu, obviamente, enquanto município que terá actualmente muito perto de 40 mil habitantes, todos estes fenómenos. Mas, não tendo sido tão castigada com os níveis de emigração verificados noutros pontos do país, acaba por também não se ver confrontada com uma chegada abrupta de imigrantes.

Torres Novas tem a particularidade, devidamente testemunhada e documentada, de nas décadas de 50 e 60 do século passado, ter acolhido milhares de trabalhadores oriundos de Ansião e Pombal, que vinham até ao concelho em busca de melhor vida, tentando trabalho nas fainas da apanha do figo, da azeitona e até a própria vindima. E por cá ficaram, constituíram família e deixaram descendentes. Eram os “barrões” ou os “botas”, como então, porventura depreciativamente, eram pelos torrejanos apelidados. Mas foi gente boa, trabalhadora e ordeira, que veio enriquecer o tecido social e laboral de Torres Novas, sendo, por isso mesmo, um micro fenómeno de migração interna. E, curiosamente, se hoje as famílias torrejanas têm laços directos ou indirectos à emigração da década de 60 e 70, ela é precisa e maioritariamente pela via dos seus “barrões”, pois aqueles dois concelhos quase se despejaram com o drama da diáspora. A tal “ida de assalto” para França, como então se dizia, ou, numa vertente mais política, para fugir à tropa e à guerra, Ansião e Pombal, como quase todos os concelhos de Portugal, viram partir para terras de França e Alemanha o melhor da sua essência: os seus filhos e, com eles, a esperança de um futuro mais alegre e risonho. Foram divididas famílias, muitas delas para sempre, em busca daquilo que Portugal não conseguia oferecer, mais concretamente o trabalho e, muitas vezes, a dignidade suficiente para viver e manter uma família. O tal Portugal que juntava aos erros de então, as consequências das políticas do passado.
Parece-me importante falar destes pormenores, que também possuem alguma carga emotiva, porque verdadeira, pois só assim perceberemos o porquê de a Portugal ser actualmente reconhecida a melhor legislação do mundo em termos de acolhimento e integração de imigrantes. Sentimos na pele esse drama e no papel da lei o fizemos reflectir.
E ainda bem.
Fomos coerentes com as nossas experiências.
António Rodrigues

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

AVE MARIA

Neste final de ano, quiçá dos mais complicados da nossa história recente, e precisamente porque ainda nem sequer começou o de 2011, que parece não trazer nada de melhor, deixo a quem tem tido a paciência de me ler, os votos de Boas Festas e, dentro do possível, um bom Ano Novo. (Nunca este voto foi tão paradoxo!)

As coisas não estão bem neste Portugal feito de uma História riquíssima e que teimamos em não ensinar aos nossos filhos de uma forma mais profunda. Mas é por causa dela que sinto que daremos a volta por cima.

Que seremos capazes.

Mas sinto e sei – todos sabemos – que há muitos que sofrem e choram.


E o drama aumenta e adensa-se porque não conseguimos o milagre de a todos acorrer. De a todos ajudar.


Fica a intenção.

E algo que se vai fazendo.


E a vontade de estendermos a mão sempre que possível.


E o coração a quem precisa de uma palavra amiga.


Para todos os amigos que por aqui passam deixo a serenidade e a paz de uma Avé-Maria cantada às “ordens de André Rieu”.


Não é preciso acreditar para se ouvir e sentir a mensagem.


Não é preciso acreditar para juntos todos fazermos algo de bom pelo outro.


Mas é bom acreditar



António Rodrigues







sábado, 18 de dezembro de 2010

Kika e o escritor de sonhos

Era uma vez uma andorinha que vivia muito feliz com as suas irmãs e amigas.

Ela gostava muito de voar! Ora fazia piruetas no ar, ora voava rentinho ao chão, para logo a seguir subir, bem lá para cima, parecendo que queria voar até ao céu...

Voava com as suas quatro irmãs. Todas tinham nascido num ninho feito de barro,

debaixo do telhado de uma pequena capoeira, no quintal de uma casa.

Ah, como ela gostava de brincar!


Voava baixinho, junto do galo, das galinhas e dos patos, que ocupavam todo o quintal, e cantava para eles… Todas as andorinhas por ali andavam a chilrear, durante todo o dia, alimentando-se dos insectos que apareciam à volta dos patos e das capoeiras.


As andorinhas ouviam muitos avisos da mãe e do pai… Estes, preocupados, passavam o dia ao seu lado, voando, chilreando e ralhando:


− Tenham cuidado! Tenham juízo! Não voem tão depressa! Ainda se podem magoar e partir uma asa...


No quintal, os donos da casa, faziam uma grande festa quando por lá aparecia a Kika. E que festa! Eram os avós babados de uma neta bonita que mal sabia andar, tal como as andorinhas, que voavam há tão pouco tempo...

A pequenita, a tentar equilibrar-se no seu andar, passava o tempo a brincar com os patinhos e com as andorinhas.

De vez em quando, a Kika levantava os braços no ar, tentando agarrar as andorinhas...

E estas, que também queriam brincar com ela, voavam tão perto da sua cabecita que quase paravam em cima dela.

Estávamos em plena Primavera e a alegria abundava naquele quintal, onde as macieiras e as pereiras se enchiam de flores e de muitas abelhas, suspensas sobre as pétalas em busca do pólen... A andorinha, que por ali passeava e brincava, quase poisava nas mãos da menina.

Até parecia que parava em pleno voo…


− Olá passarinho! Como te chamas? − Perguntava a Kika à andorinha que, chilreando, lhe respondia:

− Sou a Teté, e tu?

− Eu sou a Kika.

E sempre que a Kika vinha ao quintal dos avós, havia alegria e festa, para os avós e para as andorinhas…


Os dias longos e quentes iam dando lugar aos dias mais curtos…

O Verão estava a acabar e, com os últimos dias de calor, também as andorinhas partiam. A Kika perguntava, e voltava a perguntar, pelos passarinhos, e chorava pela ausência das amiguinhas. As andorinhas voaram para longe, muito longe… Voaram, e voaram, passaram dias e dias sempre a voar…


Voaram pelos campos, pelas cidades, atravessaram o oceano e o deserto.

Iam para sul, à procura de calor e alimento, queriam chegar a África.


Cansadas de atravessar o vasto oceano, chegaram a Cabo Verde, poisaram nas montanhas íngremes de Santo Antão, uma ilha perdida no azul do mar...

O bando descansou, então, numa frondosa árvore, muito verde, com folhas grandes e frutos que pareciam melões, a fruta-pão.

Eram tantas as montanhas, tantas, tantas, que as andorinhas conseguiam vê-las do alto daquela árvore enorme…

As andorinhas voaram para o telhado de uma igreja, que tinha à sua volta muitas casinhas, com telhado de colmo. De algumas delas saía fumo.

Os meninos brincavam por ali, corriam atrás de uma bola e faziam muito barulho.


Parecia que estavam no recreio da escola. Corriam e corriam, com o cabelito muito curto e encarapinhado, tom de pele escura, muito bonitos, alguns de olhos azuis…

Nas escadas da igreja, estava um menino, muito triste que não brincava, olhava em redor e via os colegas a correr e a brincar... A andorinha Teté observava-o intrigada.

Saltitou para o chão e ficou ali parada, pertinho dele.

− Olá, eu sou a andorinha Teté! E tu, como te chamas?

− Eu sou o Joca. Respondeu tristemente

− Sabes, Teté, os meus amigos estão muito felizes a jogar à bola, mas eu sonho ser escritor. Passo aqui horas e horas, sentado, a imaginar histórias tão bonitas… Mas, à noite, quando a mãe me chama para dormir, já me esqueci do princípio da história, por isso todos se riem de mim… Dizem que sem princípio a história não faz sentido… O que eu mais queria, Teté, era ter um lápis. Assim, já podia escrever a história, do princípio ao fim, e todos acreditariam em mim.

− Eu acho que posso ajudar-te, Joca, mas tens de ser paciente e esperar uns meses…

− Eu nasci em Portugal, numa cidade chamada Torres Novas. Na casa onde eu nasci há uma menina, a Kika, que é minha amiga… Ela ainda não sabe, mas, no próximo ano, vou voltar a casa dela. A Kika tem muitos lápis, faz muitos desenhos, alguns de andorinhas… Quando eu regressar, vou-lhe contar a tua história e pedir-lhe um lápis para te oferecer. Não fiques triste, para o ano a tua história vai ser conhecida por todos. Vais escrevê-la com o lápis que a Kika te vai mandar...

O tempo passou e as andorinhas regressaram a Portugal.

Teté volta ao quintal onde nasceu e reencontra a Kika. Os olhos da menina brilham de alegria… Kika, mais crescida, continua a entusiasmar-se com as andorinhas, entretém-se com elas, gesticulando e falando.

Teté conta a Kika a história do Joca, o amigo cabo-verdiano, que aguarda ansioso o seu regresso. As duas amigas não perdem tempo: a Kika ajuda a andorinha a levantar voo com o lápis no bico. A tarefa não era nada fácil.

As duas davam grandes gargalhadas, enquanto o lápis caía no chão vezes sem conta, mas ambas sabiam que acabariam por conseguir…

Tanto treinaram que, no final da Primavera, quando Teté partiu em direcção à ilha,


Levava no bico o lápis da Kika.


Foi com grande esforço que a andorinha Teté manteve o lápis no bico durante a longa viagem. Mas, a Teté era muito corajosa e amiga do seu amigo. Por isso, nunca desistiu.


Joca, de lápis na mão, escreve a sua história, acompanhado pelo rápido compasso da dança, marcado pelos saltitos da Teté. O Joca nunca mais parou de escrever histórias. Hoje, todos o conhecem pelo nome de Joca, o escritor de sonhos.

A partir de então, todas as Primaveras, a Teté regressa a Torres Novas com histórias vindas de Cabo Verde.


A Kika lê com atenção todas as histórias trazidas pela Teté e imagina a vida daqueles meninos que têm sonhos tão grandes que não cabem naquela pequena ilha…


E foi assim, da amizade entre uma criança e uma andorinha, que nasceu a cooperação entre as pessoas de Torres Novas e as de Cabo Verde.


Um sonho que se transformou em história, uma história escrita a lápis, símbolo da esperança e do amor que existe no coração dos amigos.


António Rodrigues
Livro lançado a 20 de Novembro de 2010
Com ilustrações de Alexandra Sirgado

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Diáspora - a nossa e a dos outros

É sabido que em Portugal sempre se viveu e conviveu com o fenómeno social a que chamamos emigração. E é importante abordar e analisar a nossa emigração para melhor compreendermos a imigração que hoje se regista.

É bom sentir o que fomos, num dado contexto da nossa história, para melhor percebermos esse outro contexto da nossa contemporaneidade em que Portugal também se torna país de acolhimento.


Durante séculos Portugal foi um país em sangria constante, expedindo os seus cidadãos pelo mundo fora, consequência da sua pobreza e, paradoxalmente, da sua grandeza. Para muitos dos nossos historiadores Portugal adormeceu, anestesiado pelo viço de um comércio que prosperou em grande escala e rapidez ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, acabando, talvez por isso, reduzindo o nosso empreendedorismo. No enquadramento político e social daqueles tempos percebe-se hoje, e bem, porque nos atrasámos face a uma Europa que, paulatinamente, se foi afirmando e desenvolvendo a uma outra velocidade, e de tal modo que no arranque da revolução industrial, ainda Portugal se limitava a colher os últimos resquícios das riquezas naturais oriundas das Áfricas, Oriente e Brasil.


E é justamente o Brasil o primeiro destino do nosso primeiro grande surto de emigração. Ainda antes de um Brasil independente, tivemos intensos fluxos migratórios com aquela que era, então, a mais activa e importante colónia portuguesa. Desde logo com toda a vasta comitiva que acompanhou a Corte no seu movimento de fuga, perante as invasões francesas, opção que muitos estudiosos vêm apontando como estratégia inteligente que garantiu a salvaguarda da independência do reino. Uma deslocação massiva das elites nacionais que moldou a face do Brasil, proporcionando-lhe uma centralidade nunca antes auferida. Foi esse processo que, após o retorno da Corte a Portugal e a subsequente independência da colónia, daria lugar a um forte desenvolvimento económico, social e político, ao qual corresponderia o auge da emigração portuguesa já em princípios do séc. XX, mais concretamente entre 1900 e 1930, em busca das novas oportunidades desse “novo mundo”, por oposição à pobreza e à instabilidade vivida em Portugal e um pouco por toda a Europa.


Fruto dos novos cuidados médicos, destacando-se a vacinação e as inovações nos processos de higiene, a Europa duplicou a sua população entre o séc. XIX e princípios do XX. O continente americano, a sul ou a norte, foi o grande receptor desta fortíssima onda migratória, ímpar na história da Humanidade. O “velho mundo” dava vida e impulso ao “novo mundo”.

Já na segunda metade da última centúria são a França, a Alemanha e a Suíça que surgem como o grande destino para os nossos emigrantes, havendo umas boas centenas de milhar que optaram por viver em Angola e Moçambique.


Depois desta autêntica síntese, de uma síntese do nosso historial migratório, será fácil perceber que é rara a família portuguesa que não tenha no seu seio elementos que foram ou ainda são emigrantes.

Ora, este pormenor é determinante para melhor percebermos toda a nossa postura face à vaga migratória que, após a concessão da independência às ex-colónias, e, mais intensamente, desde finais da década de noventa, atinge o nosso país, muito em especial a imigração oriunda dos recém libertados países de leste. Com efeito, sem esquecermos o verdadeiro fenómeno migratório do pós 25 de Abril, que caracterizou a vinda dos ditos “retornados” das ex-colónias (que muitos apontam serem na ordem dos 800 mil, embora oficialmente os números se fixem pelo meio milhão), são os naturais desses países africanos que, apesar da independência, vêm optando por viver em Portugal, perseguindo os seus sonhos em busca de maior qualidade de vida, ou por aqui passando, qual plataforma de porta aberta ao mundo.

Somos, pois, um povo habituado à dor de ver partir, um povo de diáspora, mas também habituado a receber e a acolher quem vê em nós, muitas vezes, a miragem da sua felicidade.

Somos portugueses!


Recebemos bem!.



sábado, 4 de dezembro de 2010

E a revolta dos Injustiçados?


Começa a cheirar muito mal todo o tipo de incoerências e de injustiças a que o país assiste… impunemente, assim parece.

Já não basta aquelas que aparentemente são incontornáveis ou pelos menos de resolução difícil, quanto mais aquelas que são fruto da incompetência, do oportunismo e do “xico-espertismo” de alguns políticos.

Não percebo e sinto até alguma revolta, em como foi possível que o grupo parlamentar do PS tivesse aceitado e votado essa escandalosa isenção de impostos a aplicar aos dividendos antecipados da PT, Portucel, Jerónimo Martins, entre outras. E com essa postura, ao que parece, terá arrastado a posição do PSD que, diga-se, também não fica nada bem na fotografia.

Então, a lei só se aplica a alguns?

A crise não é para ser suportada por todos de forma equitativa?

E a coerência da matriz identitária do PS?

Se ela não é bandeira em tempo de crise, então, quando o será?

Onde pára a veia humanista do PS?

E nem quero acreditar que a posição socialista tenha a ver com a proveniência da proposta. Não me parece que ela tenha perdido oportunidade e justiça social, só porque proveniente da CDU...

Mas esta situação gera outra ainda mais grave e que esmaga por completo aquela que já por si é miserável e nula: a imagem e a liberdade da acção política dos deputados, diga-se, que generalizada a todo o parlamento. Quando nestes assuntos tão sérios e profundos, que colidem com os princípios e a génese política de alguém supostamente militante partidário, eleito precisamente com base nesses princípios e, na hora da verdade, tem que os ignorar e, mais do que isso, votar contra a sua vontade em detrimento da vontade das cúpulas, há que perguntar: para que serve o parlamento? Para que serve votar?

Para ratificar a vontade das cúpulas e chefias?

Para que servem os partidos e os seus militantes?

Para eleger lideres e depois ser-lhes subserviente, andar com eles ao colo e ser escravo das suas vontades?

Eis a deturpação de toda a lógica da representatividade democrática.

Uhm! Isto não está bem! E cheira mal!

Não há nesta decisão qualquer equidade e justiça social e ainda sobeja humilhação para um parlamento, que o é cada vez menos, em particular para alguns grupos parlamentares…

A uns, aumentam-se impostos, corta-se nos vencimentos e anulam-se subsídios que agravam dramas e pobrezas. A outros, perdoam-se impostos…

Como se não bastasse, aparece agora um gesto de puro xico-espertismo do Dr. César dos Açores, que quer evitar que o arquipélago sinta na pele o que os do continente são obrigados a suportar… a crise que a todos deveria afectar. E quer fazer compensações aos ilhéus, nos cortes dos vencimentos e quejandos. Anda gente preocupada com a constitucionalidade da decisão. Que estupidez!

Então?

Se for constitucional, a atitude do homem dos Açores passa a ser eticamente correcta e moralmente aceite?

E, já agora, como apontam César como um dos eventuais candidatos a sucessor de Sócrates, por mim fiquei esclarecido. Com este tipo de atitudes, dispenso-o.

Pois, se fosse o imprevisível Jardim a lançar esta ideia, cairia o carmo e a trindade. E não basta a preocupação de Cavaco e Sócrates. É pouco! Terão que fazer muito mais, se tiverem coragem e autoridade.

E é esta que cada vez mais está ausente neste país e que, por ausência dela, nos arrastam cada vez mais para o fosso.

A mesma autoridade ou falta dela, que caracteriza essa vergonha nacional, de termos gestores em empresas públicas, quais vacas sagradas de iluminação celestial, que ganham num mês, mais do que o Presidente da República aufere em anos. Ainda há dias, uma entrevistadora da RTP, entrevistava o primeiro ministro de Portugal. Eis um bom exemplo da vergonha e do destempero a que chegou a justiça salarial que caracteriza a aplicação dos dinheiros públicos! Ou falta dela... A entrevistadora ganha o triplo do entrevistado. E, com o sim político e a assinatura do entrevistado, que só este ano transferiu 200 milhões de euros para a RTP.

Dinheiro dos nossos impostos.

Como conseguem sobrevir os canais privados? É a pergunta que apetece.

Tudo isto e muito mais que não foi aqui referido, prova que isto ainda não bateu no fundo. Ainda há muita gente a brincar com coisas muito sérias… e a brincar com o sofrimento de milhares de pessoas que, por mero acaso, também são portugueses.

Até que o Povo, o tal que elege deputados que acabam por não o ser, transforme em acções concretas a revolta que lhes vai na alma. E, infelizmente, esta não é uma expressão de retórica, que até poderá ficar bem no fim de um texto.

Não!

É o risco que se corre.

E um texto que gostaria de não ter escrito.

António Rodrigues

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A hora di bai de Nhô Domingos



O Mar de Canal, pontual como sempre, partiu rumo ao porto de Porto Novo.

Para trás vislumbramos a linda baía do Mindelo, de mar sempre sereno, com os barcos e os botes ancorados que parecem sempre duplicados, tal o reflexo perfeito na água. Linda e azul como sempre. No mar e no céu.

E o barco galga as ondas, por vezes de um azul muito escuro, sempre potentes e gigantes, e que cospem água por força das ventanias. É um sobe e desce, consoante a onda, e, quando desce, mais parece que vai direito ao fundo do mar profundo.

Mas não!

Empertiga-se e, por vezes inclinado, volta a ter força para emergir na coroa da onda… É assim esta sensação de sobe desce. Ora parece que vai para as profundezas do inferno, ora parece que vai ao céu…

E a água, a tal que é cuspida pela força dos alísios, enxagua-nos a face e faz-nos sentir que somos mais um a ter que lutar contra ventos e marés, para que o destino depressa chegue.

Há um silêncio absoluto no magote de crioulos que enchem o barco. E, no bar, o espírito é o mesmo. Onde antes imperava a anedota fácil, a história rápida ou o piropo às meninas que nos servem o melhor café de todo o Mindelo, o ambiente é pesado.

Nhô Domingos não resistiu à queda da cama.

O colo do fémur partido e as suas consequências, associados aos seus 92 anos, ditaram o fim.

Sereno e atento até aos últimos instantes, partiu com a dignidade e a dimensão dos Grandes. Os tais que, sendo Grandes, passam ao lado dos grandes.

Cá em baixo, no porão do barco, com as cautelas e o respeito devido, Nhô Domingos dorme o sono eterno e faz a sua derradeira viagem para Coculi.

Este é o canal que ele já não vê!

O mesmo que ele em vida atravessou, altas horas da madrugada, fugindo às leis injustas de Salazar. Também ele, num bote minúsculo, subiu e desceu as ondas gigantes, enquanto em Coculi se rezava para que voltasse são e salvo. Os mesmos que hoje rezam pela sua eternidade. Para que nos céus se faça justiça.

No ar, gaivotas sobrevoam e acompanham o Mar de Canal.

Na água, peixes voadores surgem do azul das ondas, voam e mergulham mais à frente… Os golfinhos emergem e mergulham num constante entrar e sair de água, que cansa só dever.

Estes, os guardas de honra do Mar de Canal. Estes, os melhores guardiães da última viagem de Nhô Domingos.

No Coculi é grande a tristeza.

O sino da velha igreja, paredes meias com a casa de Nhô Domingos, brame espaçadamente. E deixa no ar um som triste que se espalha pelos vales e inunda o espírito dos viventes. E quando o vento se ajeita e a flor da cana baloiça ao sabor dele, até em Boca de Coruja se ouve o choro do velho e fraco sino…

Aqui e ali ouve-se a criançada. Mas não se vê a criançada…

Ficaram-se pelos pobres quintais onde os mais velhos comentam a hora di bai de Nhô Domingos.

Mas Coculi está sempre bonita.

Sempre!

Mesmo na hora da tristeza!

Vieram de todo o lado.

Da Povoação, da Ponta do Sol, de Fontainhas, do Figueiral, de Boca de Coruja e de Chã de Igreja, entre outras.

O Coculi encheu.

E subiu a montanha rezando pelo falecido, ao som melodioso e penetrante das cordas dos violinos….que arrepiam e choram, tal a destreza e o sentimento que os dedos lhe incutem.

Mais em baixo o terreno da C.A.S.A, que Nhô Domingos não viu construída. Mas que o será, com toda a certeza, para que nela os pobres sejam menos pobres.

E sobe-se. E continua a subir-se.

E, quanto mais se sobe, mais bebemos daquele vento persistente e vislumbramos os cumes de Sto. Antão.

Uma paisagem única.

Uma beleza inaudita.

E chega-se ao Campo-Santo, onde o nosso amigo, para sempre ficará.

No regresso já se sente alguma descompressão.

E já há vozes altercadas na descida compassada.

O que tinha que ser feito, feito está.

Já passou a emoção, a reza e os pêsames que sempre se dão e não se regateiam nestas alturas…

E a família de Nhô Domingos esteve lá. Toda!

Na hora de bai,

Do pai,

Do avô, do bisavô, do irmão, do tio…

Do amigo.

A tarde caiu e a família, agora em casa, continua reunida. A vida passou a ser outra. É a vida! Que se muda de um para outro momento.

É a hora da dor vivida no silêncio, com as memórias que a todos assolam.

Tudo vem à memória.

Tudo!

E o passado, faz-se presente.

Os filhos, alguns, sentam-se junto à igreja, antes que a noite caia.

E falam silêncios, entrecortados com os pequenos goles de grogue.

O Cónego Terças, que mereceu campa rasa, perto da porta de entrada do velho edifício, é testemunha desta homenagem a Nhô Domingos.

Dos filhos que bebem do seu grogue.

Abençoados trapiches que tanta cana espremeram.

Abençoados braços que tudo deram a tantos filhos.

E também os de D. Mariazinha. Que afagaram e trabalharam.

E muito!

Ela, sempre presente, que não se despediu de Nhô Domingos.

Há muitas mulheres assim que, como ela,

jamais de despedem.

Nem do homem, nem dos filhos.

Porque amaram muito.

Amam muito.

Um amor infinito que não tem hora de bai…

Foi assim a hora di bai de Nhô Domingos.

Que descanse em paz.

António Rodrigues

(o autor deste artigo, não esteve lá)