A mais pequenina

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Princesa

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Suprema Humilhação


A suprema humilhação política para o nosso país, foi-nos oferecida numa bandeja de barro pela tal troika de que tanto se fala. A que mandou gente para Portugal e que, em três semanas, impôs à outra troika (PS; PSD E CDS) aquilo que estes, durante anos nunca quiserem assumir. Teve que vir gente de fora, que trabalhando no duro, apresentou medidas que há muito se percebia – umas mais que outras – teriam que acontecer.



É uma imagem triste.


Chumba-se o PEC IV, com o pretexto que depois dele viria o V e o país não aguentaria. Como também disse Cavaco no discurso da pré-demissão do governo, aquando da sua tomada de posse.


Afinal de contas, a troika impôs muito, mas muito mais, do que previam todos os PEC’s juntos.


E, aqueles que o chumbaram, vão cordeirinhos aprovar e assumir as medidas da troika.


Fiquem descansados que se formos governo, nós cumpriremos.


O PS fez coro e disse o mesmo. Ou seja, todos a assinaram a cartilha da nossa incompetência e falta de coragem política. Todos assumiram, preto no branco, que sem a troika, as medidas de coragem para Portugal recuperar, não seriam conseguidas sem imposição do exterior. Porque, quem está no poder, tem sempre a oposição do outro, ou dos outros… independentemente de quem governa e de quem é oposição.



E para que servem os debates que antecedem o acto eleitoral que aí vem?


Para nada!


Tal como os deputados que vão para Parlamento que não vão servir para nada. Ou por outra, vão servir para levantarem o bracinho para votarem o que decidido está.


Ao que chegámos! …


Tudo está decidido e tudo tem que ser cumprido.


Não há margem de manobra. Ou então não haverá dinheiro…


O que me espanta é que nas medidas da troika ninguém escreveu uma palavra para se acabar com os Governos Civis.


Ninguém escreveu uma palavra para acabar com as Assembleias Distritais.


Ninguém escreveu uma palavra para se acabarem com ordenados de dezenas de milhares de euros mensais verificados nas empresas públicas, muitas delas falidas. Uma vergonha que só não incomoda (ao que parece) quem os recebe.



Ninguém escreveu e ninguém aborda esta questão nos debates. Porquê?


Não me choca o fim previsto de algumas pequenas freguesias, que a troika impôs e que eles assinaram.


Mas choca-me muito mais, que o Presidente da EDP, entre outros casos escandalosos, ganhe mais num ano (3 milhões de euros) do que todas as Juntas de Freguesia que irão ser extintas gastariam juntas em todo um mandato de 4 anos.


Demagogia? Não!


Vergonha! Sim!


E outra forma de humilhação.



António Rodrigues


13 de Maio de 2011


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Portugueses ou herdeiros dos Portugueses?

Portugal está numa fase da sua vida colectiva em que não adianta procurar culpados, num processo em que ninguém está isento de responsabilidades.

Ninguém!
É, pois, por isso importante, apontar o dedo ao que tem que ser corrigido, para que possamos levantar a cabeça e esquecer a humilhação a que alguns políticos deste país nos sujeitaram.

A Portugal não assiste só o problema da falta de dinheiro. Sendo importante o dinheiro, há outros aspectos determinantes, entre eles a autoridade e o trabalho. Aliás, são vergonhosas as expressões que vêm da Europa em que de uma forma clara e objectiva nos mandam trabalhar para sermos credores de respeito e, mais do que isso, da solidariedade que procuramos.

Porque seremos assim?
Que sina é a nossa?
Que identidade a nossa?

E a nossa História nada nos diz
É impressionante o que já fomos e o que hoje não somos.Lembram-se do Tratado de Tordesilhas? Demo-nos ao luxo de juntamente com a Espanha dividirmos o mundo em duas partes: o que descoberto estava e o que ainda faltava descobrir.

D. João II foi a referência da estratégia e da aventura calculada, com Henrique na senda dos descobrimentos.
Porque tínhamos poder e éramos respeitados. E descobrimos o mundo, onde o caminho marítimo para a índia, mudou toda a lógica da navegação mundial e a interpretação geográfica até então conhecida. Não foram só os países que hoje compõem a Lusofonia, que os lusos navegantes descobriram. Andámos, melhor dizendo, navegámos por todo o lado. E descobrimos por todo o lado.
O que fizemos em África, na América, na Índia, na China, no Japão e na Insulíndia, onde Malaca e Timor, foram símbolos da nossa capacidade empreendedora? Por todas aquelas paragens deixámos a marca dos nossos costumes, a presença da nossa língua e os laivos do cristianismo.
Fomos assim.
Perfeitos?
Não!
Mas fortes e respeitados, porque empreendedores. Não dependíamos de muitos e muitos dependiam de nós.

Hoje dependemos de muitos e poucos dependem de nós.

Inverteram-se os termos.
Não aceitamos a autoridade. Confundimo-la com a liberdade.
Não aceitamos personalidades de referência, porque para isso já bastou o antes do 25 de Abril.
Não aceitamos, assumamos isso, uma autoridade que nos governe. Confundimo-la com ditadura.
O Presidente da República não tem poderes, e os poucos que tem, para muitos serão de mais.
Os governos nunca prestam e tem constantes barreiras para governarem.
Os ministros regra geral são sempre incompetentes e assim caracterizados ainda antes de tomarem posse.
As oposições, sejam quais forem e no tempo que for, nunca reconhecem méritos a quem governa.

Fazem-se julgamentos sumários na comunicação social, qual Inquisição do séc. XXI.
São elevados a heróis os pais que fecham escolas porque faltou um auxiliar o que agridem o professor porque ralhou com o menino. Tudo isto impunemente sem reprimenda das justiça, antes consagrados como corajosos em aberturas de telejornais.
A autoridade e o respeito pelo outro, são valores cada vez menos observados na nossa comunidade. Quem os defende é bota de elástico, conservador e antiquado… fascista e ditador muitas vezes.
Por estas e por muitas outras, chegámos onde chegámos.
Repito, dependemos de muitos e poucos dependem de nós. E, os estendermos a mão para pagarmos o que devemos, mandam-nos trabalhar. Uns, dizem-no em alto e em bom tom, outros, na surdina que a diplomacia sugere…

Suprema humilhação! Suprema vergonha a herança que deixamos aos nossos filhos e netos.
Brevemente teremos eleições. Para quê?
Para quase nada!
Tudo ou quase tudo está ou vai estar decidido pelos nossos credores.
Pouco mandará o próximo governo. E, como os outros, que ainda não foi eleito, será incompetente e incapaz. Manter-se-ão as zangas e os desentendimentos entre lideres partidários. E a má educação que os tem caracterizado, onde a Assembleia da República é palco privilegiado.

E a falta de respeito por quem sofre as consequências da crise.
Porque ainda não se aperceberam que o Estado português faliu.
Miseravelmente falido.
Por causa deles.
Por culpa nossa.
E minha também.

É caso para perguntar:
Somos portugueses ou herdeiros dos portugueses?

António Rodrigues

22.04.2011

sábado, 2 de abril de 2011

LIXO


Desde o dia 23 de Março que as taxas de juros para os empréstimos ao Estado Português não param de subir.


Estavam na altura a 7,7%, para, nove dias depois se situarem muito próximo dos 10%. O rating da dívida da república caiu para níveis tão miseráveis que se aproximam da expressão mais desgraçada que (não) se pode dirigir a quem quer que seja, muito menos a um país: lixo!


Também ao nível da banca portuguesa esses mesmos índices já ouviram a mesma adjectivação: lixo.



Foi para o lixo que nos mandaram aqueles que, cada um com a sua quota-parte de responsabilidade, recusaram o PEC que e Europa nos impôs. Impôs a este governo e imporá ao próximo. E com agravantes.


É óbvio que a nossa soberania, pelo menos a financeira, já só existe no papel.



E quem vai pagar e sofrer com tudo isto?


Os do costume.


Aqueles de quem ninguém se lembra quando se tomam decisões que nos levam para o charco. Os que trabalham no duro e pagam impostos, sejam patrões sejam empregados. Os que trabalham sem grande esperança no futuro melhor.


Pelo menos o próximo.



Estão “no lixo” as contas públicas. Está no lixo a dignidade do estado português. Está no lixo a coerência política daqueles que em tempos de votos, fazem coligações atípicas e oportunistas. E fazem-no parlamento também ele atípico e incompetente, mas sob o pretexto da liberdade, da democracia e dos interesses nacionais. Corrijo, partidários.



E o país que está à beira do “lixo” financeiro, carregado de desemprego e crises sociais, permite que empresas públicas, geridas também com dinheiros dos contribuintes, muitas delas com prejuízos constantes, paguem aos seus administradores, centenas e centenas de milhares de euros anuais, a somar a outras mordomias indecorosas.



E estamos também no lixo, porque o pior que pode acontecer a um país é o Povo perder a confiança em que o governa ou na alternativa que se apresenta para a governança.


E é nessa que estamos.


No descrédito absoluto. No mesmo descrédito oferecido pelada I República e que abriu as portas à ditadura.



Hoje o “lixo”, ontem, a “choldra” de Eça de Queiroz, quando se referia à situação politica nacional de então.



Ontem a monarquia, hoje a República.


Mas, tal como Eça salvaguardava, há que dizer alto e em bom tom: o português é extraordinário. Tão extraordinária que tem tido paciência e coragem para aguentar e aturar tudo isto.



Até quando?



Fica a foto como sinal de esperança.


Que não se pode nem deve perder.



António Rodrigues


2.04.2011

sábado, 19 de março de 2011

Não brinquem mais com o Povo


É vergonhosa a situação política e partidária que se vive no país.

Começa a ser revoltante a forma como se joga o xadrez do poder, tendo como tabuleiro toda uma população que anda farta deste tipo de actores políticos. Ou, pelo menos, de alguns deles. E, como na vida, neste jogo quem se trama é o peão.

Quando o país chega ao que chegou, e os dois maiores partidos políticos não se entendem, quando eles são os principais responsáveis da governação no pós 25 de Abril, então é quase certo que não se pode sonhar com o entendimento tão necessário e desejável, quanto mais grave é a situação social e financeira de Portugal. Quando se diz que os mercados, para baixarem os juros, exigem medidas duras e de austeridade, interrogo-me muitas vezes se um entendimento político em Portugal e uma consequente governação mais serena, não seria, também, o antídoto de excelência para a tal redução dos juros.

Mas não há entendimento e quem suporta os juros que se pagam, são os impostos que todos, ou quase todos, suportamos.

E, neste gravíssimo desentendimento político que vivemos, é também preocupante que o país tenha perdido, uma voz que procure o entendimento. Quando seria de prever que o Presidente da República viesse a ser factor de união e de conjugação de esforços na busca de algum entendimento estratégico para Portugal, eis que assumidamente se demitiu desse desiderato. Rompeu essa postura no discurso da sua tomada de posse.

É penoso viver num país, em que parece que o único que puxa por ele, é o primeiro-ministro. E tudo o que o homem faz, tudo, é mal feito aos olhos da oposição. O mesmo acontecerá, quando um dia outro vier para o seu lugar. A nossa “cultura” é dizer sempre mal de quem governa. Mal da pessoa e mal da governação.

E estamos, também, encharcados de jornalistas e comentadores que, salvaguardando honrosas excepções, muitas vezes se confundem ora, no papel da oposição ora, no papel da justiça televisiva, tão primária quanto imbecil.

Mas seria bom que quem governa ou quem queira vir a governar, se lembre por uma vez, que povo que sofre e não tem emprego, não come nem colheres de liberdade e muitos menos pratos de dialécticas políticas, que hoje inundam e imundam a cena política nacional.

O povo que vive sem esperança e suporta as consequências da crise, não come colheradas de guerras partidárias e muito menos se auto-sustenta com a ambição dos que detêm o poder o querem manter e, muito menos, daqueles que não o tendo, não olham a meios para o conseguir.

O país está exausto de tanta conversa.

E de tanta discórdia.

Própria, é certo, de uma democracia, mas desadequada num país que vive a sua sobrevivência financeira, de mão estendida para o estrangeiro. Que também começa a ficar farto de nós… e que começa a dizer, falem menos e trabalhem mais.

Olhe-se para os juros e para o facto de sermos o quarto país no mundo que mais se endividou nos últimos 10 anos.

Lembro-me daquela menina goesa, Sandra Maria, que vivendo em Pangim, Goa, e falando-me num português impecável dizia: adoro Portugal.

E vê a RTP internacional. Gosta do Malato e do Preço Certo; “mas não vejo os telejornais porque vocês andam sempre zangados e a dizer mal do vosso país”.

E eu gosto muito de Portugal!

Dizia ela.

E eu também.

António Rodrigues

19.03.2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Pastor

Conheci um pastor cuja paixão eram as suas ovelhas.

E era um bom pastor.

Galgava montes e montículos com um rebanho exemplar que o acompanhava com uma obediência canina. Tão canina que os cães pouco se preocupavam em unir o que unido estava. E o rebanho lá percorria matas e ervados.

Gordo e luzidio.

E o pastor era respeitado na sua profissão.

Sabia escolher os melhores pastos e os caminhos menos penosos para o seu vasto rebanho.

Quando uma ou outra ovelha se tresmalhava ou saía fora dos eixos, um mero assobio do pastor ou a corrida de um cachorro, reagrupava a riqueza do homem do cajado.

E assim foi durante anos a vida deste pastor, que com o tempo sentia que o seu pecúlio evoluía, porque as pastagens não faltavam e as reproduções aconteciam naturalmente. O homem trabalhava e muito.

Mas também tinha e sentia a recompensa do seu esforço.

Vieram tempos maus.

Os pastos pioraram e as secas tornaram-se mais prolongadas que o normal. E o pastor não podia fazer milagres. Não tinha força sobre a natureza para que as chuvas viessem e os pastos rejuvenescessem.

A juntar a este contratempo, o pastor, para surpresa de muitos, em vez de procurar verdura nos arrabaldes onde existiria, não o fez.

Acomodou-se.

Foi, para ele, mais fácil sujeitar as ovelhas às ervas secas e empoeiradas do que se esforçar por melhores e verdes campos.

E as ovelhas ressentiram-se. Perderam peso e brilho.

E dispersaram-se em busca de melhor pasto. E o pastor, de cajado em riste e assobios arrepiantes, bem se esforçou e tudo fez para reunir de novo as ovelhas que, na ânsia do viço da erva, deixaram de o ouvir e perderam o respeito aos cães pastores.

A erva estava seca, queriam melhor. Mereciam melhor.

E o pecúlio começou drasticamente a corroer.

E o pastor percebeu, tarde, que se se tivesse esforçado, e optado por novas pastagens embora mais longínquas, o seu rebanho continuaria unido. Luzidio e gordo a fazer inveja aos demais.

Mas não o fez…

As ovelhas andam tresmalhadas.

Será o pastor capaz de voltar a reunir o seu rebanho?

António Rodrigues

25.01.2011

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O xadrez da nossa miséria

Este país assusta-nos.

Não pelos portugueses, mas por causa de alguns deles. Dos que pensam que têm poder. Ou que o querem ter.

É revoltante a forma como alguns tratam Portugal. Sempre ou quase sempre pela negativa. Com mensagens destrutivas. O quanto pior melhor generalizou-se. Desde a comunicação social à generalidade das oposições. É hoje assim com o PS no poder; será amanhã assim com o PS na oposição.

Em 2010, Portugal teve um crescimento do PIB de 1,4%.

Foi positivo, não sendo o ideal.

Como abriram as notícias? Portugal encolheu 0,3% no último trimestre de 2010. Ou seja, ignorou-se o todo do ano de 2010, para focar o negativo do último trimestre. Chama-se a isto deturpar e enganar. Chama-se a tudo isto carregar no que já está mal, com algo que até nem é negativo. Mas é isto que vende. É este o nosso vício. Desgraçado e miserável vício. Passamos vida a dizer mal de todos nós.

Numa atitude politicamente agarotada os indivíduos da extrema-esquerda derrotista e folclórica, que nada produzem e muito gastam, anunciaram uma moção de censura. Para serem os primeiros e merecerem o destaque daqueles que deles vão a reboque. Não me Incomoda que esta gente, que brinca com o Povo, o tal que dizem defender, apresente mesmo que a brincar, uma proposta destas. O que me incomoda sim, é que o individuo que manda no grupo venha dizer que Portugal está mais desigual que o Egipto. Sinto náuseas por este tipo provocação.

Por esta maledicência.

Perante esta brincadeira de mau gosto, fico espantado com a reacção daquele que sonha substituir Sócrates. Passos Coelho tinha obrigação de ter mais senso político e mais sentido de Estado. Caiu infantilmente na brincadeira dos outros.

Vamos pensar, - dizia ele - para depois decidir. Ou seja, até podemos alinhar com esta gente radical, para chegarmos ao poder. E derrubar o governo. Embora assim não pensasse seguramente. Mas fica bem criar a expectativa e com ela dominar as manchetes e as expectativas da comunicação social. Fica a ser notícia com tabu de tamanha dimensão. O resto e suas consequências não contam. O país aguentará e quem sofre que sofra. E os juros que aumentem.

Este ainda é o tempo do PS governar, diz agora Passos Coelho. Mas disse-o com a mesma arrogância de que muitos acusam Sócrates. É ele e não o Povo que decide que quem governa e quando governa. Se é assim na oposição, como será na “situação”?

É este o homem que quer garantir a confiança dos portugueses a ser primeiro-ministro?

Esperava mais dele. E isto preocupa, pela simples razão que no estado em que estão as coisas, o mais importante é que se governe bem e se resolvam, no possível, os problemas do país. A situação a que se chegou exige gente boa e capaz de enfrentar os problemas, secundarizando a origem partidária. Gente competente.

E, é por isso, que neste universo miserabilista, dói sentir que tudo aposta na queda do governo. Tudo. Não se aposta na resolução dos problemas do país. Está aí a moda da moção de censura.

E, enquanto se vive neste cenário político, há portugueses que sofrem porque estão desempregados. Há portugueses que sofrem porque lhes cortaram ou reduziram os vencimentos. E há ainda portugueses que sofrem porque vivem sem esperança no amanhã. Há portugueses que trabalham no duro e pagam impostos, como há empresários que sofrem para cumprir as suas obrigações sociais. Tudo isto, perante o desrespeito de alguns dos nossos políticos que, na lógica do jogo do poder, puro e duro, jogam xadrez na esperança que o xeque-mate surja.

Talvez se enganem!

E, já agora, se querem jogar xadrez, mudem de tabuleiro, porque o Povo está farto de o ser.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Eduardo Guedes


Conheci-o em 1971.

Em Alfragide.

Fazíamos, então, os encontros da Geração Nova, a força dos Focolares, patenteada num projecto de vida para os mais novos.

O Eduardo distinguia-se dos demais.

Foi o primeiro GEN português.

Era bonito. Física e espiritualmente. Havia nele algo que nos arrastava, pela força da sua fé, pelo seu magnetismo. Pelo exemplo de vida.

Adorava desporto e foi bom aluno.

O Eduardo, como também o Joca, foram as referências para os novos da Geração Nova (GEN).

O Evangelho, para os GEN’s, era e é a fonte de todo o Amor.

Amar na Unidade em torno da vivência de uma forma objectiva e assumida dos Evangelhos.

Viver como Cristo, desprendido de tudo e de todos, mas disponível para todos.

Viver o momento presente em entrega absoluta ao outro, na dádiva constante da vida.

Foi assim que Chiara propôs e estimulou.

Foi assim que muitos tentaram e por isso foram mais felizes.

Viver o ideal da Unidade, para que todos sejam um.

E o Eduardo assim o fez.

Viveu, espalhou e irradiou o ideal focolarino.

Primeiro em Lisboa e depois na Rússia, onde estava há 20 anos.

Em partilha com o próximo, por amor ao próximo.

Com a serenidade própria dos justos

Partiu.

Deixou-nos o seu exemplo.

Deixou-nos o perfume da sua serenidade.

E da sua bondade.

Obrigado Eduardo



António Rodrigues

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Para meditarmos. Todos!


Houve eleições presidenciais em Portugal.

Acabaram ditando a reeleição do actual Presidente.

Não foram famosas no conteúdo e na forma.

Pouco se falou do país e dos seus problemas

Discutiu-se a personalidade de cada um, fizeram-se insinuações. E acusações.

E houve ofensas e ataques pessoais.

A comunicação social, de tudo isto fez eco. E, como vem sendo hábito, em alguns casos sentenciou, qual tribunal da era moderna. O tribunal da era democrática e da liberdade.

A maioria dos portugueses não votou, considerando a abstenção, os votos nulos e, muito em especial, os brancos.

É assim em Portugal. Tem sido mais ou menos isto em Portugal, sempre que há eleições.

Em Cabo Verde haverá eleições para o Governo, a 6 de Fevereiro.

Decorre a campanha política.


As ruas enchem-se de cores e carros garridos e barulhentos. Com megafones ou quejandos se propagandeia o melhor de cada partido. E as bandeiras desfraldam acossadas pela velocidade dos velhos e barulhentos veículos.


Houve debate televisivo, colocando em confronto os dois putativos futuros primeiros-ministros. O actual e o que o quer substituir.

Foram quase duas horas de debate.

Sem ofensas e insinuações. E, muito menos, acusações.

Falaram e debateram os problemas do país. Com a desejável agressividade política dentro dos cânones do bom senso e do aceitável.

Em nenhuma circunstância – repito – em nenhuma circunstância, um interrompeu o outro.


É verdade!

Ninguém interrompeu ninguém e os tempos, cronometrados e projectados no ecrã, jamais foram incumpridos.

No fim, após o cordial cumprimento entre os crioulos candidatos, esperava-se pelo debate televisivo de comentadores, para apreciar o comportamento dos políticos. O debate de afiar as facas e definir cada um a seu modo, quem ganhou e quem perdeu.


Nadas disso aconteceu.

Afinal, não haveria debate entre comentadores.

O povo não precisa de interlocutores para ajuizarem o que todos viram.

Não precisa de intérpretes.

Esta a justificação que nos foi dada.

O debate será repetido mais duas vezes – e foi – e o povo saberá tirar as suas ilações sem influências de terceiros. Reafirmaram-me os meus amigos.


E a campanha continua.

Com paz, empenho e muita morna que sai daqueles altifalantes…

Lá é assim.

Cá, foi como foi!

António Rodrigues


Diásporas

É sabido que em Portugal sempre se viveu e conviveu com o fenómeno social a que chamamos emigração. E é importante abordar e analisar a nossa emigração para melhor compreendermos a imigração que hoje se regista. É bom sentir o que fomos, num dado contexto da nossa história, para melhor percebermos esse outro contexto da nossa contemporaneidade em que Portugal também se torna país de acolhimento.
Durante séculos Portugal foi um país em sangria constante, expedindo os seus cidadãos pelo mundo fora, consequência da sua pobreza e, paradoxalmente, da sua grandeza. Para muitos dos nossos historiadores Portugal adormeceu, anestesiado pelo viço de um comércio que prosperou em grande escala e rapidez ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, acabando, por isso, por reduzir o nosso empreendedorismo. No enquadramento político e social daqueles tempos percebe-se hoje, e bem, porque nos atrasámos face a uma Europa que, paulatinamente, se foi afirmando e desenvolvendo a uma outra velocidade e, de tal modo, que no arranque da revolução industrial, ainda Portugal se limitava a colher os últimos resquícios das riquezas naturais oriundas das Áfricas, Oriente e Brasil.

E é justamente o Brasil o primeiro destino do nosso primeiro grande surto de emigração. Ainda antes de um Brasil independente, tivemos intensos fluxos migratórios com aquela que era, então, a mais activa e importante colónia portuguesa. Desde logo, com toda a vasta comitiva que acompanhou a Corte no seu movimento de fuga, perante as invasões francesas, opção que muitos estudiosos vêm apontando como estratégia inteligente que garantiu a salvaguarda da independência do reino. Uma deslocação massiva das elites nacionais que moldou a face do Brasil, proporcionando-lhe uma centralidade nunca antes auferida. Foi esse processo que, após o retorno da Corte a Portugal e a subsequente independência da colónia, daria lugar a um forte desenvolvimento económico, social e político, ao qual corresponderia o auge da emigração portuguesa já em princípios do séc. XX, mais concretamente entre 1900 e 1930, em busca das novas oportunidades desse “novo mundo”, por oposição à pobreza e à instabilidade vivida em Portugal e um pouco por toda a Europa.

Fruto dos novos cuidados médicos, destacando-se a vacinação e as inovações nos processos de higiene, a Europa duplicou a sua população entre o séc. XIX e princípios do XX. O continente americano, a sul ou a norte, foi o grande receptor desta fortíssima onda migratória, ímpar na história da Humanidade. O “velho mundo” dava vida e impulso ao “novo mundo”.
Já na segunda metade da última centúria são a França, a Alemanha e a Suíça que surgem como o grande destino para os nossos emigrantes, havendo umas boas centenas de milhar que optaram por viver em Angola e Moçambique.
Depois desta autêntica síntese, de uma síntese do nosso historial migratório, será fácil perceber porque é rara a família portuguesa que não tenha no seu seio elementos que foram ou ainda são emigrantes.

Ora, este pormenor é determinante para melhor percebermos toda a nossa postura face à vaga migratória que, após a concessão da independência às ex-colónias, e, mais intensamente, desde finais da década de noventa, atinge o nosso país, muito em especial a imigração oriunda dos recém libertados países de leste. Com efeito, sem esquecermos o verdadeiro fenómeno migratório do pós 25 de Abril, que caracterizou a vinda dos ditos “retornados” das ex-colónias (que muitos apontam serem na ordem dos 800 mil, embora oficialmente os números se fixem pelo meio milhão), são os naturais desses países africanos que, apesar da independência, vêm optando por viver em Portugal, perseguindo os seus sonhos em busca de maior qualidade de vida, ou por aqui passando, qual plataforma de porta aberta ao mundo.

Somos, pois, um povo habituado à dor de ver partir, um povo de diáspora, mas também habituado a receber e a acolher quem vê em nós, muitas vezes, a miragem da sua felicidade.

Torres Novas, à sua escala e dimensão, viveu, obviamente, enquanto município que terá actualmente muito perto de 40 mil habitantes, todos estes fenómenos. Mas, não tendo sido tão castigada com os níveis de emigração verificados noutros pontos do país, acaba por também não se ver confrontada com uma chegada abrupta de imigrantes.

Torres Novas tem a particularidade, devidamente testemunhada e documentada, de nas décadas de 50 e 60 do século passado, ter acolhido milhares de trabalhadores oriundos de Ansião e Pombal, que vinham até ao concelho em busca de melhor vida, tentando trabalho nas fainas da apanha do figo, da azeitona e até a própria vindima. E por cá ficaram, constituíram família e deixaram descendentes. Eram os “barrões” ou os “botas”, como então, porventura depreciativamente, eram pelos torrejanos apelidados. Mas foi gente boa, trabalhadora e ordeira, que veio enriquecer o tecido social e laboral de Torres Novas, sendo, por isso mesmo, um micro fenómeno de migração interna. E, curiosamente, se hoje as famílias torrejanas têm laços directos ou indirectos à emigração da década de 60 e 70, ela é precisa e maioritariamente pela via dos seus “barrões”, pois aqueles dois concelhos quase se despejaram com o drama da diáspora. A tal “ida de assalto” para França, como então se dizia, ou, numa vertente mais política, para fugir à tropa e à guerra, Ansião e Pombal, como quase todos os concelhos de Portugal, viram partir para terras de França e Alemanha o melhor da sua essência: os seus filhos e, com eles, a esperança de um futuro mais alegre e risonho. Foram divididas famílias, muitas delas para sempre, em busca daquilo que Portugal não conseguia oferecer, mais concretamente o trabalho e, muitas vezes, a dignidade suficiente para viver e manter uma família. O tal Portugal que juntava aos erros de então, as consequências das políticas do passado.
Parece-me importante falar destes pormenores, que também possuem alguma carga emotiva, porque verdadeira, pois só assim perceberemos o porquê de a Portugal ser actualmente reconhecida a melhor legislação do mundo em termos de acolhimento e integração de imigrantes. Sentimos na pele esse drama e no papel da lei o fizemos reflectir.
E ainda bem.
Fomos coerentes com as nossas experiências.
António Rodrigues

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

AVE MARIA

Neste final de ano, quiçá dos mais complicados da nossa história recente, e precisamente porque ainda nem sequer começou o de 2011, que parece não trazer nada de melhor, deixo a quem tem tido a paciência de me ler, os votos de Boas Festas e, dentro do possível, um bom Ano Novo. (Nunca este voto foi tão paradoxo!)

As coisas não estão bem neste Portugal feito de uma História riquíssima e que teimamos em não ensinar aos nossos filhos de uma forma mais profunda. Mas é por causa dela que sinto que daremos a volta por cima.

Que seremos capazes.

Mas sinto e sei – todos sabemos – que há muitos que sofrem e choram.


E o drama aumenta e adensa-se porque não conseguimos o milagre de a todos acorrer. De a todos ajudar.


Fica a intenção.

E algo que se vai fazendo.


E a vontade de estendermos a mão sempre que possível.


E o coração a quem precisa de uma palavra amiga.


Para todos os amigos que por aqui passam deixo a serenidade e a paz de uma Avé-Maria cantada às “ordens de André Rieu”.


Não é preciso acreditar para se ouvir e sentir a mensagem.


Não é preciso acreditar para juntos todos fazermos algo de bom pelo outro.


Mas é bom acreditar



António Rodrigues







sábado, 18 de dezembro de 2010

Kika e o escritor de sonhos

Era uma vez uma andorinha que vivia muito feliz com as suas irmãs e amigas.

Ela gostava muito de voar! Ora fazia piruetas no ar, ora voava rentinho ao chão, para logo a seguir subir, bem lá para cima, parecendo que queria voar até ao céu...

Voava com as suas quatro irmãs. Todas tinham nascido num ninho feito de barro,

debaixo do telhado de uma pequena capoeira, no quintal de uma casa.

Ah, como ela gostava de brincar!


Voava baixinho, junto do galo, das galinhas e dos patos, que ocupavam todo o quintal, e cantava para eles… Todas as andorinhas por ali andavam a chilrear, durante todo o dia, alimentando-se dos insectos que apareciam à volta dos patos e das capoeiras.


As andorinhas ouviam muitos avisos da mãe e do pai… Estes, preocupados, passavam o dia ao seu lado, voando, chilreando e ralhando:


− Tenham cuidado! Tenham juízo! Não voem tão depressa! Ainda se podem magoar e partir uma asa...


No quintal, os donos da casa, faziam uma grande festa quando por lá aparecia a Kika. E que festa! Eram os avós babados de uma neta bonita que mal sabia andar, tal como as andorinhas, que voavam há tão pouco tempo...

A pequenita, a tentar equilibrar-se no seu andar, passava o tempo a brincar com os patinhos e com as andorinhas.

De vez em quando, a Kika levantava os braços no ar, tentando agarrar as andorinhas...

E estas, que também queriam brincar com ela, voavam tão perto da sua cabecita que quase paravam em cima dela.

Estávamos em plena Primavera e a alegria abundava naquele quintal, onde as macieiras e as pereiras se enchiam de flores e de muitas abelhas, suspensas sobre as pétalas em busca do pólen... A andorinha, que por ali passeava e brincava, quase poisava nas mãos da menina.

Até parecia que parava em pleno voo…


− Olá passarinho! Como te chamas? − Perguntava a Kika à andorinha que, chilreando, lhe respondia:

− Sou a Teté, e tu?

− Eu sou a Kika.

E sempre que a Kika vinha ao quintal dos avós, havia alegria e festa, para os avós e para as andorinhas…


Os dias longos e quentes iam dando lugar aos dias mais curtos…

O Verão estava a acabar e, com os últimos dias de calor, também as andorinhas partiam. A Kika perguntava, e voltava a perguntar, pelos passarinhos, e chorava pela ausência das amiguinhas. As andorinhas voaram para longe, muito longe… Voaram, e voaram, passaram dias e dias sempre a voar…


Voaram pelos campos, pelas cidades, atravessaram o oceano e o deserto.

Iam para sul, à procura de calor e alimento, queriam chegar a África.


Cansadas de atravessar o vasto oceano, chegaram a Cabo Verde, poisaram nas montanhas íngremes de Santo Antão, uma ilha perdida no azul do mar...

O bando descansou, então, numa frondosa árvore, muito verde, com folhas grandes e frutos que pareciam melões, a fruta-pão.

Eram tantas as montanhas, tantas, tantas, que as andorinhas conseguiam vê-las do alto daquela árvore enorme…

As andorinhas voaram para o telhado de uma igreja, que tinha à sua volta muitas casinhas, com telhado de colmo. De algumas delas saía fumo.

Os meninos brincavam por ali, corriam atrás de uma bola e faziam muito barulho.


Parecia que estavam no recreio da escola. Corriam e corriam, com o cabelito muito curto e encarapinhado, tom de pele escura, muito bonitos, alguns de olhos azuis…

Nas escadas da igreja, estava um menino, muito triste que não brincava, olhava em redor e via os colegas a correr e a brincar... A andorinha Teté observava-o intrigada.

Saltitou para o chão e ficou ali parada, pertinho dele.

− Olá, eu sou a andorinha Teté! E tu, como te chamas?

− Eu sou o Joca. Respondeu tristemente

− Sabes, Teté, os meus amigos estão muito felizes a jogar à bola, mas eu sonho ser escritor. Passo aqui horas e horas, sentado, a imaginar histórias tão bonitas… Mas, à noite, quando a mãe me chama para dormir, já me esqueci do princípio da história, por isso todos se riem de mim… Dizem que sem princípio a história não faz sentido… O que eu mais queria, Teté, era ter um lápis. Assim, já podia escrever a história, do princípio ao fim, e todos acreditariam em mim.

− Eu acho que posso ajudar-te, Joca, mas tens de ser paciente e esperar uns meses…

− Eu nasci em Portugal, numa cidade chamada Torres Novas. Na casa onde eu nasci há uma menina, a Kika, que é minha amiga… Ela ainda não sabe, mas, no próximo ano, vou voltar a casa dela. A Kika tem muitos lápis, faz muitos desenhos, alguns de andorinhas… Quando eu regressar, vou-lhe contar a tua história e pedir-lhe um lápis para te oferecer. Não fiques triste, para o ano a tua história vai ser conhecida por todos. Vais escrevê-la com o lápis que a Kika te vai mandar...

O tempo passou e as andorinhas regressaram a Portugal.

Teté volta ao quintal onde nasceu e reencontra a Kika. Os olhos da menina brilham de alegria… Kika, mais crescida, continua a entusiasmar-se com as andorinhas, entretém-se com elas, gesticulando e falando.

Teté conta a Kika a história do Joca, o amigo cabo-verdiano, que aguarda ansioso o seu regresso. As duas amigas não perdem tempo: a Kika ajuda a andorinha a levantar voo com o lápis no bico. A tarefa não era nada fácil.

As duas davam grandes gargalhadas, enquanto o lápis caía no chão vezes sem conta, mas ambas sabiam que acabariam por conseguir…

Tanto treinaram que, no final da Primavera, quando Teté partiu em direcção à ilha,


Levava no bico o lápis da Kika.


Foi com grande esforço que a andorinha Teté manteve o lápis no bico durante a longa viagem. Mas, a Teté era muito corajosa e amiga do seu amigo. Por isso, nunca desistiu.


Joca, de lápis na mão, escreve a sua história, acompanhado pelo rápido compasso da dança, marcado pelos saltitos da Teté. O Joca nunca mais parou de escrever histórias. Hoje, todos o conhecem pelo nome de Joca, o escritor de sonhos.

A partir de então, todas as Primaveras, a Teté regressa a Torres Novas com histórias vindas de Cabo Verde.


A Kika lê com atenção todas as histórias trazidas pela Teté e imagina a vida daqueles meninos que têm sonhos tão grandes que não cabem naquela pequena ilha…


E foi assim, da amizade entre uma criança e uma andorinha, que nasceu a cooperação entre as pessoas de Torres Novas e as de Cabo Verde.


Um sonho que se transformou em história, uma história escrita a lápis, símbolo da esperança e do amor que existe no coração dos amigos.


António Rodrigues
Livro lançado a 20 de Novembro de 2010
Com ilustrações de Alexandra Sirgado