A mais pequenina

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Princesa

sábado, 1 de junho de 2013

TIMOR


Acabei de chegar de mais uma missão, realizada a convite do governo daquele país amigo e irmão.

Mais uma vez ali vivi momentos únicos.

1.    A Conferência Internacional sobre o Poder Local ocorreu a 28 e 29 e foi acontecimento único, quer na apreciação do tema quer, muito em particular, na dimensão do debate político que foi, em minha opinião, exemplar.

Foi, seguramente, uma aposta ganha!

Está, por isso, de parabéns o Dr. Tomás Cabral, Secretário de Estado da Descentralização Administrativa e toda a sua equipa a quem endereço os meus parabéns.

2.    O outro, foi a assinatura do protocolo do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da UTL (a minha escola) da Universidade Técnica de Lisboa, com Universidade de Timor Lorosae, acto determinante para um papel indelével que as duas universidades terão no futuro, na formação dos quadros públicos do Estado Timorense.

3.    Por fim, a subida às montanhas, calcorreadas durante 3h (para cada lado) para a entrega de uma imagem de N. Sª de Fátima, ao povo de Salau, no distrito de Manatuto, foi algo para jamais esquecer. A paisagem, a beleza e o misticismo das montanhas associadas à dimensão humana daquele Povo que nos esperou durante 8h para o momento alto, é indescritível. Gente bonita e digna aquela que simbolizo na pessoa da Dionísia, a catequista das crianças de Salau.

Na sua alegria e emoção me revejo e aprendo.
 
Timor é cada vez mais uma lição...

     António Rodrigues

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

MAE


Lembro-me bem.
Muito bem!

Estava uma manhã linda e com muito sol. Presumo que estaríamos em Março ou Abril de 1966…

Na escola, havia três filas de carteiras onde os miúdos se sentavam. Na que ficava do lado das três grandes janelas, sentavam-se os filhos dos ricos, supostamente os mais inteligentes e, por isso, melhores alunos. Na do meio, os menos ricos e alunos medianos. Na outra, ficavam, de forma assumida, os mais pobres e mais burros. Como eram então tratados na linguagem da época… os mais fracos!

Sendo pobre, fiz os quatro anos da primária na fila dos ricos…
A todos, incluindo os ricos, o professor passou “a mão pelo pelo”. Vá lá perceber-se porquê, nunca o homem me tocou.
Nunca!

Em casa, na véspera desta manhã solarenga, o meu pai e minha mãe discutiram.
E muito. Muito!

A minha mãe queria impor que o meu pai me deixasse fazer o exame de admissão[1]. Que teria que ser pago ao professor. Não, nem pensar - dizia o meu pai, desconsolado com a resposta. Não há dinheiro para isso e temos mais dois filhos… nem pensar!
Foi a sentença.

Naquela manhã fui para a escola, a pé, claro – como todos - pensando que quando acabasse aquela 4ª classe teria que ir dar serventia ou a pedreiros ou a calceteiros. Tinha sido a decisão da véspera, que deixou a minha mãe em choro prolongado. Tudo isto me marcou… por isso me lembro.
A aula começou com o professor zangado com o Zé Ancedo. Ele não queria nada com os trabalhos de casa.

Nunca os fazia!
A mãe estava sempre doente do coração e, por isso, não havia trabalhos de casa para ninguém. Era a desculpa, ainda por cima repetida, que dava força à régua que fervia as palmas das mãos grandes do Zé.

Ainda não refeitos da cena, batem à porta da sala.
Fiquei boquiaberto. Era a minha Mãe.

Teria 26 ou 27 anos.
Magra e bonita. De vestido caído e cabelos pretos ligeiramente caídos sobre o ombro…

Ficou de frente para o professor e, por isso, para toda a sala.
Só me lembro de a ver chorar.
E muito.

E, baixinho, porque a pobreza por vezes também envergonha. Todos os colegas se aperceberam e a sala calou-se num silêncio que evidenciou ainda mais o pranto de minha mãe. Encostei a cabeça ao tampo da secretária e não me lembro se chorei também. Talvez!
Aquela mancha de batas brancas que marcavam a nossa sala, tenho-a bem presente na minha memória. Todos olharam para trás para me marcarem e tentarem perceber o que se passava. Estando na fila dos ricos, a minha carteira era a última o que obrigava a que os meus colegas se movimentassem na cadeira e, por isso, nada disfarçassem…

Sendo rápida a conversa, demorou uma eternidade. Percebi que o choro serenou e que algo de positivo terá ocorrido. Percebi o sorriso tão molhado quanto rasgado de agradecimento que minha mãe patenteou…
Só mais tarde, umas semanas mais tarde, percebi tudo que se tinha passado.

O professor, sem eu o saber e sem prévio aviso, começou a impor que eu ficasse no grupo dos colegas que se preparavam para o exame de admissão. Percebi que também iria fazer o exame… e, se calhar, não teria que ir dar serventia a pedreiros.
E assim foi.
O professor propôs-me a exame, assumindo as despesas. Terei tido a melhor nota, mas nunca consegui a confirmação.

Nesse dia de festa, diz-me o Professor:
- Rodrigues, mereces o que te fiz mas nunca te esqueças que a tua Mãe é uma grande mulher.

E eu sabia disso. E de muito mais.
E sei hoje, neste dia muito especial, que estando a dar a minha primeira aula enquanto professor universitário, o devo em primeiro lugar à coragem e ousadia de minha mãe e ao professor que sempre me estimou. A eles lhes devo muito do que se tem passado em toda a minha vida.
Manda a verdade dizer que meu pai se rendeu, percebeu que afinal foi temeroso, receando não ter condições para que todos estudássemos.

E tivemos! Graças ao seu trabalho e labuta incansável, que foi e é exemplo para todos nós.
António Rodrigues

(HOJE SERIA O DIA DO SEU ANIVERSÁRIO)

[1] Exame pago, sem o qual seria impossível ao aluno continuar os estudos

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

3,7%



Mesmo após o 25 de Abril, ainda se manteve o hábito de se dizer que Portugal era Lisboa e o resto paisagem. Aliás, não era por caso, que os lisboetas quando saíam fora de muros se arrogavam dizer que iam à província. Tudo o que não fosse Lisboa, salvo raras excepções, era um atraso de vida. Era a província...

E tinham alguma razão para tamanha arrogância.

E porquê?
Há 35 anos, quem nascia em Lisboa, desde o berço que se habituava a ter de tudo. Em casa, dentro de casa, água canalizada, esgotos, electricidade e até gás nas cozinhas. Saía de casa e encontrava de tudo naquela que era e é a capital.
Boas avenidas, passeios, bons parques e jardins.
E havia teatros, cinemas, bibliotecas e bons museus... Também bons mercados, bons restaurantes e ainda bons espaços desportivos coberto ou descobertos. Enfim, havia de tudo um pouco.
E até havia e há bons transportes.
E ainda bem que assim era.

Subsistia, no entanto, um problema.

É que, havendo perto de 10 milhões de portugueses, só os de Lisboa e de algumas (não todas) capitais de distrito usufruíam destes privilégios. Os outros, os “provincianos” habitavam um mundo diferente, um Portugal diferente.

E era estigmatizante, tudo isto, não para os Lisboetas que nenhuma culpa tinham de viverem, face aos “provincianos”  muitos furos acima do índice da qualidade de vida.
Eram as chamadas assimetrias do regime que caiu sob o cheiro intenso dos cravos de Abril...

Uma das fantásticas heranças de Abril, é o reforço e a autonomia municipalismo, o Poder Local Português; aliás, Herculano afirmava que o município era "…a mais bela das instituições que o mundo antigo legou ao mundo moderno”

Mas nem sempre foi assim em particular neste Portugal ignorado de Salazar e Caetano?

Os municípios em conjunto com as freguesias operaram a mais fantástica revolução e renovação a que o país jamais assistiu ou assistirá.
Sim, com algumas asneiras que os parasitas procuram evidenciar, em detrimento do muito que foi positivo, de tudo se conseguiu.

De 1979 até aos dias de hoje, levou-se a água potável, electricidade e os esgotos à mais recôndita da aldeia portuguesa. Os caminhos de cabra, de terra batida e enlameada, passaram a ser caminhos para humanos com o mesmo direito dos da capital. Pavimentaram-se milhares de quilómetros de estradas. Edificaram-se escolas, centos escolares, centros de saúde, lares ou centros de dia de acolhimento; construíram-se e equiparam-se espaços desportivos cobertos ou descobertos e promoveu-se a formação desportiva em todas as freguesias deste país. Construíram-se bibliotecas, recuperaram-se teatros e edificaram-se museus para preservarem a nossa memória. A memória de quem trabalha, chora ou ri, um pouco por todo o território português prenhe de feitos fantásticos. E, multiplique-se tudo isto, por 308 municípios cada um à sua escala e dimensão.

E criaram-se, aqui e acolá, zonas industriais que geraram riqueza, criaram emprego e fixaram as populações. E ainda houve tempo para, em muitos casos, se regenerar centros históricos, palcos corroídos da nossa história. A que nos deveria orgulhar e que cobardemente não divulgamos.

Discretamente, e bem, mataram-se carências e estendeu-se a mão a quem dela precisava: para uma palavra, para um conforto ou conselho de um reformado ou um pobre isolado ou até perdido, na casota mais distante da aldeia... da freguesia.

 E hoje, o que se evoca de tudo isto?

A dívida dos municípios e o despesismo dessa gente diminuída e inconsciente, que são os autarcas.

De tal forma é uma classe tão desprezível que há que a abater e controlar ainda mais. Nem que para isso se tenha que acabar com as freguesias e com essa figura estranha e anómala do presidente de Junta.
Venha o Padre da paróquia que o substitua...

E quem faz toda esta apologia e persegue esta riqueza comunitária: os do Terreiro do Paço. Os de hoje e os de ontem.
Os inteligentes!
Os tais que - quase todos - ao virem ao mundo de tudo encontraram. E que acham caro e muito, tudo o que se fez, para que Lisboa deixasse de ser Portugal e paisagem o resto.

Todos somos portugueses e todos merecemos o que só alguns tinham.

E hoje, todos ou quase todos, têm o que a minoria já tinha.
Essa associação estranha, a riqueza do municipalismo português, associação de homens e mulheres,  que reergueram o país e esbateram diferenças e mataram assimetrias, mesmo contra a vontade ou a inveja do terreiro do Paço, ficará para sempre na memória de todos.

 Hoje Portugal está falido.

Quanto custou ao país a "loucura" dos autarcas portugueses para que os alfacinhas deixassem de ir à província?

3,7% da nossa falência.

E os outros 96,3% da nossa desgraça quem os estoirou, quem os queimou?

O Terreiro do Paço.
O tal que é ocupado, maioritariamente, por quem nasceu com água em casa e com tudo à porta...

 António Rodrigues  



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Perdoado seja (II)


A Igreja no seu melhor… a portuguesa claro!
Para D. Policarpo o país chegou a um estado tal que as manifestações não fazem sentido. “Comer e calar” parece ser o seu lema… ou por outra, não comer e calar…
Eis uma afirmação de incompreensível resignação que, vindo de quem vem, tem algo de muito mais grave. Para este homem da Igreja, o primeiro do país, as manifestações e protestos de rua não fazem sentido e só incomodam.

Só fala assim quem está fora da realidade e de barriga cheia!
Não comer e calar, parece ser a sugestão deste patriarca há muito fora do contexto… mas o drama é que para muitos já não há mesmo nada para comer.
A fome atinge muitos e, em particular, os que dela sempre estiveram muito longe.
A dura realidade é que em Portugal há fome e fome escondida, pela vergonha.
E há sub-alimentação.

Em ambos os casos, todos temos – uns mais outros menos – a nossa responsabilidade e, ao mesmo tempo, a obrigação de ser solidários.
Só manda calar quem tem fome, os que estão de barriga cheia.
E que não são solidários.  

É feio mandar calar quem tem fome.
É feio mandar calar quem não tem para aconchegar e suavizar o drama dos filhos.
É mau ser insensível.
Esta não é a Igreja solidária de que todos precisamos.
Se há uns meses D. Policarpo nos mimoseou com a afirmação de que “ninguém sai da política de mãos limpas”, também é caso para lhe dizer que nem todos os líderes da igreja sabem estender a mão a quem precisa.
Valha-nos não ser aquela a verdade absoluta da política, valha-nos não ser aquela a verdade absoluta da Igreja Católica portuguesa.

Hoje, um pouco por todo o lado, prolifera a solidariedade e o apoio efectivo, muitas vezes no silêncio e na discrição, dos católicos deste ou daquele recanto do nosso traumatizado país. Há, em Portugal, homens, mulheres e jovens que, no silêncio do amor, repartem o que têm para que o outro sofra menos. Na solidariedade e no apoio ao próximo, os católicos e suas instituições são exemplo.
No respeito por todos aqueles que sofrem, católicos ou não, D. Policarpo deveria dar uma mensagem de respeito, de esperança e de solidariedade.

Ou então, ficar calado!
António Rodrigues
16.10.2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O absurdo da cegueira


Não é preciso recorrer à demagogia, nem ao excesso de argumentos, para comprovar o absurdo daquela a que chamam a “Lei dos Compromissos”. Bastará alguma objectividade no mero exercício da sua aplicação para se perceber que ela, para além de cega, reflecte bem a incapacidade de quem a idealizou e de quem a aprovou.
Falamos da incapacidade de compreender a gestão diária e corrente de uma autarquia, ou da incapacidade de perceber ao que estão sujeitas as Câmaras quando, sistematicamente e a todo o momento, são confrontadas com necessidades que aliam uma decisão a uma despesa. Com a sua implementação, ficará a esmagadora maioria dos municípios inibida de actos administrativos tão elementares como a compra de selos postais ou pneus para os veículos municipais. Para não falar em situações ainda mais revoltantes como o caso concreto de Centros Escolares concluídos e que não abrirão as portas aos alunos porque as câmaras estão impedias de contratarem o gás ou outras vertentes complementares do investimento ou obras em curso que irão parar pela impossibilidades de novos contratos ou, ainda, de se dotarem de equipamentos imprescindíveis ao seu funcionamento.

É também gritante a incompreensão da injustiça de uma lei que transforma os eleitos municipais em autênticos funcionários do Estado, sujeitando-os à humilhação de depender da autorização dos serviços para que uma sua tomada de decisão se possa executar.
À luz da sua natureza intrínseca, e sem qualquer margem para dúvidas, a lei em causa reporta o papel dos autarcas àquele que tinham os presidentes de Câmara na vigência do Estado Novo: pouca ou nenhuma autonomia e total subserviência ao Poder Central. Mas mais do que isso, esta é uma lei que não se coaduna com uma exequibilidade clara e objectiva, na medida em que chega ao cúmulo inverosímil de forçar a cessão da actividade regular das autarquias junto das comunidades que servem, inibindo e humilhando quem tem obrigação de, junto das populações, resolver, objectivamente, os problemas que se vão apresentando.

Os autarcas têm absoluta consciência da necessidade de contenção e poupança. Sabem também que têm de ser parte da solução para melhorar o actual estado do país, ainda que, também plenamente conscientes de contribuírem, tão somente, com 4% da dívida de todo o país. Contudo, lamenta-se que esses 4% tenham vindo a ser pretexto para, de forma fria e indiscriminada, se tomar um conjunto de decisões que, não obstante a inevitabilidade de umas, pecam pela incorrecção, pelo carácter ofensivo da dignidade de quem é eleito e dedica a sua vida à causa pública, para além de ofensivas da dignidade da própria democracia.

Esta lei é o reflexo do nível a que foi votado o Poder Local em Portugal, prevendo-se que, como tal, a mesma venha a ser também reflexo da incapacidade de quem agora terá que a corrigir. Só dessa forma poderá o país não ver todo o seu Poder Local economicamente asfixiado e inoperativo e, mais ainda, deixar de ser promotor do desenvolvimento económico e social do respectivo concelho.

 António Rodrigues

Artigo Publicado na Revista Pontos de Vista, suplemento do Jornal "Público" do dia 16 de Julho de 2012

sábado, 19 de maio de 2012

TIMOR - a paixão


Há dez anos estive lá.
Em Tacitolo
Eram aos milhares, centenas milhares.
O Povo de Timor comemorava a sua dignidade e, por via dela, a sua independência. Segundo Matoso, na sua obra “A dignidade de Konis Santana” foi essa a arma primeira do Povo Maubere na resistência ao ocupante.
Vi e vivi a festa daquela noite.
Os choros da emoção e da saudade pelos que deram a vida por aquela causa… ouvi as orações das crianças e dos adultos e partilhei os silêncios envoltos no breu da noite, onde não chegavam as luzes dos holofotes.
Vivi e chorei naquele 20 de Maio quando a bandeira de Timor se desfraldou lenta e cerimoniosamente, ao som daquelas femininas e celestiais vozes que entoavam o hino da primeira nação do século XXI…
E estive com Xanana dias mais tarde.
Senti a serenidade de combatente e estratega que levou Timor à vitória.
E, mais do que isso, deixei-me inundar por aquele mar de humildade. A humildade dos grandes.
E voltei a Timor.
E voltei. E voltei...
Sempre com o privilégio de estar com Xanana. Mais do que isso, trabalhar para aquele Povo a convite deste amigo especial.
Foram bons e gratificantes todos aqueles momentos…

Aquelas reuniões…
Aquelas conversas…
sempre com Timor com pano de fundo…
E voltei lá em Janeiro passado…
E estive de novo com Kay Rala Xanana Gusmão.
Duas horas…ou mais…
Para preparar novos trabalhos, novas colaborações… qual gota do oceano que também pode ajudar a pensar o futuro.
E Xanana está diferente.
Muito diferente.
Mais e melhor conhecedor do que pretende para o seu país.
Profundo dominador da sua estratégia para Timor.
Como nunca, sabe o que quer e o que pode fazer...
Para desenvolver a sua terra.
O homem que no passado recente conheceu todos os cantos do seu país, porque os calcorreou no combate ao inimigo, sabe hoje melhor do que nenhum outro, o que precisa cada um desses cantos para que o Povo sinta que valeu a pena.
Xanana que foi estratega na guerra é hoje um estratega na paz em busca do melhor para Timor.
Com uma particularidade:
Continua humilde. O humilde que fala com os silêncios e que tem no olhar a expressão da palavra. Xanana que hoje mereceu o maior aplauso da noite de Tacitolo, porque o Povo não esquece e Ramos Horta relembrou:  

Xanana, o nosso irmão que nos levou à vitória.

Obrigado Xanana pelo convite para hoje voltar a Tacitolo.
Guardá-lo-ei na arca das minhas melhores memórias…
Vi a festa pela televisão e também aplaudi quando o Povo, em uníssono, te aplaudiu.
Como escreveu Richard Bach, “não há longe nem distância” e, como há dez anos, emocionei-me.
Viva Timor Leste!

António Rodrigues

19 em Lisboa, 20 de Maio em Timor Leste






domingo, 4 de março de 2012

PS sem freguesia


O processo da junção de freguesias, melhor falando, da reforma administrativa do território português, não vai correr bem.


Por isso, perderão as populações.


Seguramente!


O Governo apresentou proposta no parlamento, que para muitos terá sido feita a régua e esquadro e, talvez, também com compasso.


Mas a verdade é que a apresentou. “Cumpriu” assim, goste-se ou não, o famigerado acordo que o país assumiu com a “Tróika”; a tal, que só nos deixa os trocos…


Nunca fui e presumo que nunca serei, apoiante da redução das freguesias rurais, embora compreenda que é sensato só se justificar a existência dessa autarquia, a partir de determinada dimensão populacional. Como também se entende a redução das freguesias urbanas porque, em muitos casos, assumem uma verdadeira duplicação de esforços e responsabilidades que hoje, dada também a evolução tecnológica ao nível da informação, já não fazem sentido. Pelo menos de forma tão prolífera.


Já aqui, neste blogue manifestei a minha opinião sobre o tema.


E, quando escrevi esse apontamento, era minha ingénua convicção de que o Partido Socialista, ouviria TODOS os seus autarcas e apresentaria proposta no parlamento. Como era sua obrigação, dado que não concorda com a do governo e, mais importante que isso, porque também assinou o tal documento. E, mais ainda, porque no tempo de Sócrates, já as cúpulas do partido defendiam de forma assumida a redução das freguesias. E é bom que nos lembremos que se defendia este desiderato político, quando nem sequer havia Tróika e suas imposições.


Velhos tempos!


O PS errou.


Não por ter votado contra a proposta do governo mas, porque ao votar contra, decorreria dessa legítima posição, a obrigatoriedade de apresentar a sua proposta na Assembleia da República.


Porque assinou o acordo. Da mesma forma com que no parlamento tem votado com venda nos olhos, propostas do governo, indo a reboque do argumento do compromisso que resulta da assinatura do documento, desta vez esqueceu-se desse detalhe.


Custaria muito ao Partido Socialista propor num simples documento aquela que é sua posição pública sobre o tema? Talvez com esse posicionamento e em sede de Comissão da Especialidade todos ganhássemos. O Poder Local em geral e as freguesias em particular.


Os dois partidos do arco do poder local, em sede de negociações e com duas propostas na mesa, teriam, forçosamente que se entender. E o resultado seria, necessariamente, uma proposta final com maior consistência e abrangência política e, por consequência, com maior e melhor acolhimento público.


Se o PS tivesse apresentado proposta, quero acreditar, teríamos muito mais possibilidades de manter muitas das actuais freguesias rurais. Assim, muitas delas, com a proposta do governo, serão anexadas.


O país perde e desiluda-se quem no PS possa sonhar que se ganha politicamente com esta estratégia tacticista, eleitoralmente falando.


Até porque, ao ter assinado o acordo, o PS terá que se preparar, metaforicamente falando, entenda-se, para o velho ditado: “tão ladrão é o que vai à vinha como o que fica cá fora”.



António Rodrigues


4 Março de 2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

A BOFETADA DO MINDELO

Neste início de manhã a cidade estava quase deserta. Pouca gente por ali andava.
Os mindelenses descansavam da folia própria da véspera de feriado.
O vento era forte e o tempo encoberto.
E tristonho.
Neste cenário, nada habitual em Cabo Verde, deambulei pela praça em busca de sinal publico de WI-FI quando me surgiu quase do nada, um jovem cabo-verdiano.

Delicadamente pediu-me 30s segundos de conversa. De imediato garantiu que não iria pedir dinheiro.
Explicou, nervoso, que era estudante do secundário e que precisava de cadernos de apontamentos.
Não queria dinheiro, repetiu e repetiu, mas que o acompanhasse a uma papelaria e lhe oferecesse os cadernos que tanta falta lhe faziam.
Achei estranho porque era feriado nacional, dia de Cabral, e todo o comércio estava encerrado. Garantiu-me me que não e lá o acompanhei a primeira livraria, logo ali ao lado.
Estava fechada.

Pediu-me me para ir a uma outra. E lá fomos para os lados do palácio do governador... Também estava fechada. Como todo o comércio!
Claro, era feriado, dizia eu...
O jovem, repetindo insistentemente que não queria dinheiro, pediu para irmos ao Monte Sossego onde, garantidamente, uma outra livraria estaria aberta.

Não, não vou, - disse-lhe -, porque é muito longe e já não acredito muito na tua história. Triste, perguntou-me me se podia levar o dinheiro para tentar a compra. Que eu ficaria com os seus parcos haveres como garantia do seu regresso para que eu pudesse confirmar que o dinheiro tinha sido gasto em cinco cadernos de apontamentos. Ou, para mo devolver, se fechada estivesse a loja.
Dei-lhe os escudos! Ainda bastantes! e separá-mo-nos. Garantiu-me que em 20 minutos me reencontraria no hotel. E que traria também a factura da compra...e para isso me pediu o meu nome...
Matutei no caminho, ao encontro do hotel e conclui que história não estava muito bem contada. Afinal era mesmo feriado em todo o Cabo Verde.
A “tanga” tinha sido grande.
Se calhar fui bem enrolado, pensei.
De imediato me arrependi do raciocínio precipitado e porventura injusto. Há que esperar para ver...

Passaram os 20m... Depois 40... E os 50 também.
Nada!
Do rapaz, nem a sombra!
Diz-me a recepcionista do hotel que seguramente fui enganado.
Fiquei fulo, não tanto pelo dinheiro, mas por ter sido burlado por jovem que se arrogou candidato a estudante de cardiologista, na universidade de Coimbra. Porque ganhou bolsa oferecida por uma televisão portuguesa. Porque era bom aluno...

Que história mais bem contada.
Que burro fui em ter ido na conversa.
Não a contes a ninguém que ainda te gozam….pensava eu...
E procurei esquecer tamanho embuste.
Já lá ia uma boa hora desde a despedida e, ao atravessar a mesma praça, vislumbro, de costas, um jovem com camisa rosa, a mesma cor da dos cadernos. Estava em conversa com o meu amigo Pedro Ferreira.
Aproximei-me.
Não é ele, pensei! Mas que coincidência, a camisa é igual…
Aproximei-me e diz-lhe o Pedro:
- Andavas à procura dele, aqui o tens.
O rapaz virou-se e ficámos cara a cara.
Mete a mão ao bolso, saca as notas, estende-me a mão e devolve-me o dinheiro. Com tristeza diz: também estava fechada.
Fiquei gelado e envergonhado.
Sem palavras e ao mesmo tempo feliz, porque a lição foi grande.
E conversámos os três, agora com credibilidade acrescida...
E o jovem tem mesmo inscrição em Coimbra.
Quer ser cardiologista e ficará instalado no S. Teotónio, enquanto estudante. Ganhou mesmo uma bolsa de estudo de um canal televisivo português.
Naquele dia, para ele, não haveria feriado. Tinha que estudar para subir uma nota. O 18,2 não o satisfez...(!!)

Conversámos mais um pouco e despedi-me com pressa.
Queria ainda apanhar a recepcionista para corrigir o juízo precipitado. Não foi preciso muita conversa. Foi por lá que ele começou a procurar... E a recepcionista também já estava esclarecida. E orgulhosa.

Do jovem, nem o nome fixei.
A lição foi grande e, sem traumas, aqui a partilho.
Em homenagem a este a outros jovens cabo-verdianos, que lutam de forma única para vencer obstáculos.
Para estudarem.
Para serem grandes, num país pequeno, mas com alma gigante.
Num país que continua a acreditar no futuro.
Um país com esperança!

Claro que devolvi o dinheiro ao estudante. Sem necessidade de factura de volta.
E deixei um obrigado implícito pela lição.


Não julgues para não seres julgado.
Ajusta-se aqui e muito bem, a palavra do Outro!

António Rodrigues
21 de Janeiro de 2012



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Câmaras de Ar?



O Livro Verde da Reforma da Administração Local poderá tornar-se num autêntico Livro Negro caso se venham a tornar Lei, as propostas apresentadas pelo Governo, as quais, na sua generalidade, contam com a bênção do Partido Socialista.

O PS de Sócrates não gostava das Câmaras Municipais e o PSD de Passos, segue-lhe os mesmos passos.
Mas a passos largos!

Nestas minhas páginas do Aqui & Agora abordei há umas semanas aquele que será, em minha opinião, um dos maiores erros desta Reforma: a extinção/aglutinação/anexação, chamem-lhe o que quiserem, das juntas de freguesia rurais.

Hoje, abordo outro erro profundo da proposta. A possibilidade da existência Câmaras Municipais de um só partido político.
As apelidadas de monocolores.

Ora, tudo o que é “mónó” exprime a ideia de um só, de uma só vontade, de uma só visão, em suma, exprime a unilateralidade.
Nada mais errado para quem tem que decidir sobre a coisa municipal.
Sobre a coisa pública.

A confirmar-se esta proposta governamental, repito, com a bênção das inteligências estratégicas do PS e PSD, estar-se-á, de forma clara e objectiva, logo sem demagogia alguma, a eliminar definitivamente todo o papel determinante que as Câmaras Municipais têm desenvolvido em Portugal, muito em particular no pós 25 de Abril.

Não adianta argumentar que as Assembleias Municipais terão mais e maior capacidade fiscalizadora e até interventiva, o que, obviamente, é positivo. Isso não será suficiente e de modo algum impedirá o esvaziamento de toda a capacidade auto-crítica, criativa e até decisória da Câmara Municipal, se ela vier a ser monocolor, politicamente falando.

Basta ver o que hoje se passa com as poucas autarquias em que democraticamente determinado partido ganhou todos os lugares da vereação.
Analise-se como são as reuniões, - quando existem - a sua cadência e o debate de ideias e opiniões nelas existentes. Se, no futuro, for este o caminho, estaremos perante um órgão político que perderá massa crítica, capacidade de debate, a presença de contraditório e, muitas vezes, em função da dimensão das decisões, sentir-se-á a ausência de oposição, para também a vincular ou não aos momentos determinantes da vida do município.

Na gestão municipal – e só nesta – faz todo o sentido a presença da oposição no órgão executivo.

Respeitem-se as maiorias absolutas conseguidas no acto eleitoral e respeitem-se os lugares conquistados pela oposição, independentemente da escolha dos vereadores poder ocorrer no seio da assembleia municipal.

Por outro lado, a redução drástica do número de Vereadores, associada à redução cega de chefias, - tudo previsto no tal livro – tornará os autarcas em autênticos funcionários do Estado.

A aplicar-se esta proposta, muitas Câmaras do país, poderão, perigosamente, ficar ingovernáveis…. seguramente que sim.

A este propósito, é agora conhecida a sugestão de um Professor Catedrático da Universidade do Minho que, percebendo, presumo, este risco de esvaziar a dimensão política das Câmaras, propõe a fusão da Assembleia Municipal e da Câmara num só órgão político.

Diz o Professor António Cândido de Oliveira que esta junção resultaria num novo e único órgão político, designado de Câmara Municipal, com mais vereadores e do qual o Presidente emerge escolhendo a sua vereação, para exercerem as funções Executivos…

Não contraria de todo o raciocínio que aqui expus e tem a vantagem da Câmara ter mais força e representatividade política, do que parece estar previsto no Livro Verde.

Desde que o Presidente seja eleito pelo povo, esta ideia do académico dá que pensar…


António Rodrigues
3.11.2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Francisca de Bubaque

Numa lancha rumámos a Bubaque, no fantástico e sereno arquipélago dos Bijagós. Para trás ficava a desesperançada, pobre e castigada Bissau, onde ainda marca presença e de que forma, o forte do “tempo português”.
Numa viagem de mais de uma hora, fomos percebendo o porquê de muitos dizerem que o paraíso é aqui mesmo.
Na Terra!

São às dezenas as ilhotas que emergem de um mar sereno e calão.
De um azul, que é azul!
Vislumbrámos e contornámos ilhotas onde imperam velhas cabanas embrulhadas em buganvílias de rosa vivo ou castanho bíblico, assentes na areia açúcar, tal a cor e suavidade do areal…

Nas cabanas, agachadas sob a sombra de árvores de maior porte, dependuram-se cachos gigantes de bananas, que desafiam uma paragem. E, com ela, o deslumbre do mar que se perde, salpicado de estrelinhas cintilantes, que o sol, espraiando-se na pequenina ondulação, inventa.

Afinal, entrámos numa fantástica reserva da biosfera, assim classificada pela UNESCO, composta por 88 ilhas, todas elas de encantos indescritíveis.

Chegámos a Bubaque!
Ilha grande e de denso arvoredo.
Aguardavam-nos a curiosidade de muitas e muitos que raramente por ali vêem caras estranhas e, muito menos, de brancos do Portugal….
Para eles, a festa da recepção e o aplauso fácil.
Uma espécie de regresso ao passado, ali, por alguns, tão desejado…
Para nós, o choque do que se vê. E de quem se vê…

Lojas que o não são mas que merecem esse nome. Armazéns do nada, sujos e desarrumados, com montes de lixo e lixo aos montes.
As casas, que já o foram e das quais resta o esqueleto salpicado de cimento, têm como cobertura, zinco aquecido e pelo sol escaldado.
As crianças, sempre elas, pobres mas muito sorridentes e sem cansarem de correrem ao lado dos visitantes….foram a nossa guarda de honra.

Homens e mulheres saúdam-nos e fazem cortejo atrás de meia dúzia de almas espantadas com a recepção. E os régulos, que pouco mandam, num arquipélago onde, para alguns, quem manda são elas(1) , fazem-nos as honras oficiais da recepção. Eles bem sabem que a comunidade tem muito de matriarcal e não se esquecem que alguns já ficaram à porta com o saquinho da tradição…

O calor abrasava e deixava que o vermelho de uma terra ressequida e poeirenta, se evidenciasse.
Caminhos largos, árvores gigantes que os ladeiam, com curvas suaves que mais além nos transmitem imagens genuinamente africanas, enchem-nos a alma de sonhos perdidos.
Com eles convivemos e por lá almoçámos, num ambiente sempre aberto e franco.

Estávamos dentro da barcola na preparação do regresso.
O povo, um pouco mais lá em cima, acumulava-se para a singela despedida com aceno frenético de um adeus para sempre. De repente, no meio da chusma, alguém insistentemente gritou para que não arrancássemos. O motor desligou-se.

Uma jovem mulher voava sobre a cabeça do povo, de braços abertos e pés descalços.
Bonita e serena!

De pano enrolado em cabeça acarapinhada,
ficou espojada num chão de barco de base milimétrica.

Sentadas, mãe e filha acomodaram-se.
E naquele peito de mãe, se encaixou o corpo dorido da filha…
entre as pernas da futura avó, a nova mãe encontrou conforto e amparo para a loucura que se avizinhava..
Estava grávida!
Em trabalho de parto. E já havia alguns dias.

O motor roncou e o barco voou.
As estrelinhas cintilantes amaciaram o bater daqueles corpos de mulheres.
De Mães.
Que não se ouviam e, no meio de tanto homem, quase pediam desculpa da boleia que apanharam.
As dores de quem ia parir, só no aperto das mãos de quem a acarinhava, se sentiam.
Tamanha dignidade, tamanha dimensão do saber sofrer, sem nada protestar.

E foi uma hora até Bissau, sempre na expectativa de que o parto acontecesse em pleno mar dos Bijagós.

Uma carrinha velha a que chamaram ambulância, arrecadou a jovem e estóica mulher deitada na maca, também ela gasta pelo tempo e pela pobreza.
Deste cenário fica-me a memória do pé descalço, símbolo de uma feminilidade que não tem cor e de um encanto maternal que é mistério.

Já no hotel, ainda não passada uma hora, soubemos que uma menina nascera.
Uma menina.
A 6 de Março de 2010.
Vibrámos, pois com a brutalidade da viagem, pareceu milagre tudo estar bem.
Mãe e filha.
No outro dia, com o Paulo Braga, quisemos ir à maternidade. No caminho disseram-nos que não. Que não fossemos, pois mãe e filha haviam saído para casa de familiares.

Que pena!
Não as veremos.
E não as vimos, pois o avião para Lisboa seria um pouco mais tarde, e uma visita nossa poderia ser descabida.
Num jantar apressado, e porque souberam da nossa preocupação, recebemos um telefonema da família.
Da avó que agradecia a simpatia e boa-vontade.
Fizemos o que tínhamos que fazer e vieram os agradecimentos e o pedido:
Por favor, dê o nome à minha neta!

Que seja Francisca!
Para mim, Francisca de Bubaque, para ser diferente da Francisca que lhe oferece o nome.

E fica este escrito, na esperança de que estas coisas da internet, permitam que o contacto com a Francisca de Bubaque se retome…

Porque as Franciscas deste mundo merecem…

António Rodrigues
25 de Outubro de 2011




(1) Segundo Raul Fernandes, as pessoas confundem o matriarcado e a matrilinearidade; que são duas coisas distintas. O que acontece na sociedade Bijagó é que as filhas, mesmo depois de casadas, permanecem próximas das mães porque quem atribui estatuto de família é a mãe pela linha uterina (matrilinearidade). Esta ligação é mais forte entre a mãe e a filha visto que, diferentemente do que acontece na patrilinearidade - onde as mulheres a partir do momento em que se casam saem do seu círculo familiar original e passam a ser membros da família do marido, sujeitas às regras da casa do marido –, a filha não se distancia muito da sua mãe.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Que caiam os anjos!

Com o beneplácito do PS e do PSD, Portugal poderá estar a viver a antecâmara da destruição de um dos seus patrimónios imateriais mais pujantes da sua história: as freguesias.

Dir-me-ão que é exagero porque serão só algumas.


Mesmo algumas, tal decisão sairá cara ao País.


Muito cara.


Ponto de partida para esta aventura: imposição da Troika, que exige que façamos, a troco de dinheiro, o que no passado fomos incapazes de fazer, de livre vontade: rentabilizar ainda mais o funcionamento das autarquias. E exige, no ponto 4.3 do referido Memorando dedicado ao Poder Local, a reorganização dos governos locais, com a redução expressiva das entidades em causa: municípios e freguesias.Significantly reduce the number of such entities”, está lá escrito


Mas não é isto que está proposto e em debate.


Foi mais fácil a ambos os partidos atacar o “elo mais fraco”: as freguesias. Será mais fácil ao parlamento acabar com freguesias de quatro, cinco ou mesmo seis mil habitantes, que acabar com um ou dois municípios como dois ou três mil habitantes cada… Este o cinismo, esta a falta de coragem.

Ora isto, para além de profundamente errado, pode virar tragédia. Sem exagero: tragédia!


Porquê?



Porque, se de facto faz sentido reduzir significativamente as freguesias dos centros urbanos, muitas delas autênticas redundâncias face ao Executivo Camarário, já nas zonas rurais a situação exige muito, mas muito cuidado.



Nestas coisas não pode haver régua nem esquadro.

Acabar com uma freguesia rural, seja ela qual e onde quer que seja, será, em muitos casos, retroceder ao tempo da paróquia. A um tempo em que, na ausência do Presidente da Junta, se recorre ao Pároco, como acontecia neste país antes de 1916… Nada tenho contra estes, mas tudo tenho contra a ausência do Presidente da Junta.


A relação próxima do Presidente de Junta, em particular nas zonas rurais, traduz-se cada vez mais, na essência imaterial da riqueza primeira do Poder Local que Abril ofereceu…


Acabar com esta relação de proximidade, que se traduz no conforto e no acompanhamento que se oferece ao freguês, em particular nos seus momentos mais difíceis, nada tem a ver com a “reinvenção do espírito republicano” de que falava o Presidente da República nas comemorações do 5 de Outubro. Que PS e PSD elogiaram…

Ora isto nada tem de reinvenção, antes de matança do verdadeiro espírito de um regime que se quer próximo das pessoas, em prol das pessoas e pelas pessoas.


É cínico falar da despesa das autarquias, sempre “bombos da festa”, quando os governos assobiam para o lado, varrendo o seu próprio lixo para debaixo das secretárias… das suas secretárias.


As juntas de freguesias gastam pouco, muito pouco.

Mas fazem muito.

Muito e com pouco!

Acabar com elas


será, na grande maioria, acabar com o apoio às colectividades, ao folclore, ao teatro, à musica, ao artesanato, à promoção de produtos locais, muitas vezes sustento de muitas famílias.



Acabar com elas,

Será, na grande maioria, acabar com uma identidade colectiva, que se forjou com a história e esta com aquela, em memórias que saltitam de geração para geração.


Acabar com elas

será “destruir” pedra a pedra equipamentos colectivos que homens e mulheres, com sangue suor e lágrimas, construíram para um futuro melhor das suas aldeias. Fora de horas e aos fins-de-semana, no entusiasmo da força colectiva e dos valores da solidariedade, ergueram o que Lisboa não podia erguer, mas que hoje quer derrubar…


São estes os valores de um Povo que, de geração em geração, soube erguer e construir o seu futuro.



Estes valores imateriais não chegarão aos odores políticos e pestilentos de um parlamento, em que muitos deputados, contra a sua vontade, terão que levantar o braço para votar contra a freguesia que os viu parir e que, nos corredores da fama e do poder efémero, a ignoram para a sua sobrevivência política, quais personagens rurais de um Camilo na sua “Queda de Um Anjo…”



Que caiam os “anjos” mas que se mantenha a história e com ela a nossa memória.



Será pedir muito?


António Rodrigues


10.10.2011


domingo, 2 de outubro de 2011

500 - 100 - 10 - A Lição de Xanana

Foi na Aula Magna da Reitoria que Xanana se reencontrou com os seus compatriotas residentes em Portugal. E com os amigos de cá, que são muitos.


Foi apresentado um projecto global de desenvolvimento para todo o território timorense, pairando no ar a sensação de se estar a testemunhar algo de muito invulgar: a construção de um país a partir do quase nada…

E de se estar perante um Povo que, devagar devagarinho, mas bem, constrói o seu futuro, saboreando ao mesmo tempo a sua paz sagrada, como gostam sempre de realçar.


Pedra a pedra, degrau a degrau, assim evoluem. E é impressionante a forma como o fazem. Com serenidade, com planeamento e, quem diria, com dinheiro.



E Xanana falou. Uma hora!

E todos o ouviram num silêncio contador de moscas.

Com o seu característico tom de voz, arrastada, mas firme e convicta. A um dado momento, disparou:

…No próximo ano, comemoraremos em Timor, os 500 anos da entrada dos portugueses.


Esses mercadores aventureiros que por lá aparecerem. Esses mal vestidos e dominadores que nos encontraram quase nus perdidos naquelas montanhas sem fim…

E Xanana, que mais parecia brincar, abordava de uma forma séria e muito diferente da que estamos habituadas, a questão da nossa histórica presença colonialista. E dirigiu-se aos amigos portugueses:

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Não pensem, - dizia - que a coisa foi fácil, porque tudo fizemos para correr convosco… ora andávamos amigos, ora tínhamos revoltas e zangas por causa dos abusos de alguns dos colonos… e a maior de todas, contra a vossa presença, ocorreu precisamente em 1912. Foi a revolta de Manufai que provocou a morte a milhares de timorenses.


Para o ano comemoraremos os 100 anos dessa luta pela libertação.

Graças ao apoio de muitos – continuava – e, em particular dos nossos irmãos portugueses, fomos heróis e combatemos a ocupação indonésia. E conseguimos! Com mortes, dramas, sangue, suor e muitas lágrimas, mas conseguimos! Por isso, hoje somos independentes.


Em 2012, comemoraremos 10 anos de independência. E sorria, dizendo, só 10 anos?!


Mas independentes!

Ou seja, no próximo ano faremos três comemorações: os 500 anos da vossa chegada, os 100 anos da nossa revolta e os 10 da independência.


Xanana, de forma inteligente, comemora a história, assumindo-a. Valoriza a presença portuguesa, sem esquecer as ofensas ao povo maubere, marcada de forma dramática com a trágica revolta de Manufai.


Mas é graças à presença portuguesa que hoje somos independentes. Estamos inseridos num universo territorial de 17 000 ilhas, e só metade da nossa é independente. Sabem porquê?


E Xanana explica.


- Há uns meses, em Díli, numa reunião onde participei, um velho indonésio, volta e meia, batia com o punho na mesa e exclamava zangado: Portugal!

E repetiu a cena várias vezes, acabando sempre com a expressão mal-humorada, Portugal! Portugal! o que me obrigou a perguntar-lhe: oh homem, diga-me lá o que tem contra Portugal, para estar para aí tão zangado?

O que tenho? - respondeu o velho, - é muito simples. Se os portugueses não tivessem abandonado as Flores, hoje também seríamos independentes, como Timor. Quer que eu esteja satisfeito?


Eis como, se não fossem os portugueses, hoje não seríamos independentes, rematou Kay Rala Xanana Gusmão, o Moisés de Timor, como o assumiu D. Basílio do Nascimento.


E foi num ambiente de esperança e sincera amizade que mais uma vez reencontrei e abracei este amigo, que em tempos me confiou um dos elementos mais importantes da sua Lulik (Casa Sagrada)


António Rodrigues