A mais pequenina

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Princesa

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sta. Cruz - da matança à esperança

 
 
22 de Novembro de 1991.
O dia que marcou a viragem da resistência timorense à selvática ocupação Indonésia.
O dia da matança e da desgraça.
O dia do massacre de Sta. Cruz.

Até então, a resistência tinha vivido tempos de alguma inércia, fruto também do esquecimento a que diplomacia internacional votou o Povo Maubere, incluindo a portuguesa. Aqui, há que lembrar,  que muitos políticos de então (daqueles tempos, como dizem os timorenses) e que hoje estão no exercício do poder, afirmavam sem pudor que a luta do Povo timorense era uma causa definitivamente arrumada.
E perdida.
Os mesmos que mais tarde, a reboque dos acontecimentos de Díli, voltariam ao terreno da diplomacia com mais força e empenho.
E foi precisamente por causa do justificado cancelamento de uma visita a Timor de uma delegação do Parlamento português, que tudo começou.
O Comité Executivo da Resistência havia preparado de forma estruturada, com entusiasmo e com inusitada envolvência nacional, a sua recepção aos portugueses.
E organizaram-se para que o mundo pudesse entender não só o sofrimento do povo, como ainda a dimensão da revolta e do seu protesto.
Foi o desalento e a tristeza absoluta a ausência da delegação.
Mais tarde, a 28 de Outubro de 1991, na igreja de Motael, os jovens, aproveitando a dinâmica e a movimentação criada para a recepção da lusa delegação, refugiam-se na igreja em sinal de protesto; frágil sinal da revolta de todo um Povo em sofrimento, preso e humilhado na sua própria terra...

A 28 de Outubro, os militares indonésios não perdoam a provocação e invadem a igreja, expulsando os jovens. E mataram UM.
"Só UM"
O jovem Sebastião Gomes.
 
Na missa do seu funeral D. Ximenes, o Bispo, clamou a sua revolta e, mais uma vez, reclamou a intervenção do mundo para salvar o povo de Timor. O funeral de Sebastião atraiu milhares e milhares de timorenses que misturavam as lágrimas da revolta, com as lágrimas da dor.

Sebastião teve como todos os cristãos, o direito à missa do sétimo dia.
Mas, em Timor, também há a missa dos quinze dias, para a deposição das flores na campa do falecido. Momento particular do afecto de toda a população, dado que a do sétimo dia, é mais dedicada à família de quem partiu.
A resistência, atenta e ainda frustrada pela ausência dos parlamentares portugueses, aproveitou a manifestação de dor que se expressa na deposição das flores, para organizar um enorme sinal de protesto para o mundo. Estariam, no entanto, longe de sonhar, que seria aquele o primeiro dia do resto das suas vidas...

Foi na madruga de 11 de Novembro que afincadamente preparam a manifestação das flores, conseguindo em poucas horas, a mobilização de milhares para o dia que viria a ser o da viragem para o Povo de Timor.
 
Eram tempos especiais, aqueles que o mundo vivia.

Gorbatchov dava alma à Perestroika, o muro de Berlim havia caído em 1989 e, também por via de tudo isso, as interacções geoestratégicas sofrem mutações em todo o mundo... Timor encontrou aqui um espaço para a luta diplomática que antes não havia, num tempo de troca das ditaduras pelas democracias, incluindo a Indonésia. Parecia que tudo se conjugava. 

Naquela manhã do dia 12, o Povo juntou-se em Motael. Sempre Motael…
Celebrou a Missa o actual Bispo de Díli, D. Ricardo. Sebastião foi por todos chorado e homenageado. Mas havia flores, milhares de flores, para depor na sua humilde campa no agora mítico cemitério de Sta. Cruz... E o Povo, aos milhares, com cartazes de protesto, seguia até ao cemitério. E um deles dizia "venham deputados portugueses, não tenhais medo porque o sangue é nosso" 

Eis aqui o porquê da simbologia de tão trágico quanto promissor acontecimento.
Já dentro do cemitério, acontece um dos maiores símbolos da barbárie a que homem jamais deveria assistir, quanto mais permitir.  A campa de Sebastião fica mesmo lá no fundo do grande campo dos mortos. Entraram milhares para depor as flores, mas muitos por lá ficaram, chacinados à "queima-roupa" pelas armas dos militares da ditadura indonésia. Muitos outros, os feridos, incapazes de fugirem, eram assistidos entre as campas...para mais tarde morrerem com os banhos de creolina "à falta de outros medicamentos no hospital".

Foi o drama que o mundo viu, sentiu e chorou.
Em Portugal a emoção foi ainda maior, pois vimos gente de outro lado do mundo que morria, enquanto outros rezavam o terço a Nossa Senhora de Fátima, a Mãe de todos os timorenses. E rezavam em Português...

O padre Felgueiras, entre outros, correu ao cemitério de estola ao pescoço e de bíblia na mão, para abençoar os falecidos e clamar pelo fim da desgraça. Cá fora, os camiões carregavam os corpos deixando um mar de sangue, das centenas de filhas e filhos de Timor, que lutavam pela paz e pela liberdade. E que morreram, na flor das suas vidas, levando com eles os sonhos da liberdade e do amor a uma pátria martirizada.

Não fora Max Stahl, jornalista, e o mundo de nada saberia. Filmou e escondeu junto a uma campa, a cassete do sacrifício,  que acabaria por se tornar na cassete da esperança.

O mundo acordou e olhou para Timor.
Tudo passou a ser diferente.
 
Timor hoje é independente e hoje comemorou o 12 de Novembro.
Onde estive.
Onde me emocionei.
Onde chorei.
Nada de mais, perante as lágrimas e o sofrimento, daqueles que naquele mesmo espaço, perderam centenas de entes queridos.
 
 
Nota - Portugal, mais tarde, em 1992, teria um gesto de verdadeira solidariedade para com o Povo timorense, que reforçou de forma incomensurável o entusiasmo da resistência, muito em particular a dos mais jovens. A coragem de Rui Marques, de Ramalho Eanes e de Rui Correia, entre muitos que zarparam de Lisboa, no barco Lusitânia Expresso, para depor flores no local do massacre de Sebastião. Não pisaram terra e as flores lançadas ao mar, mas o gesto ainda hoje é recordado com emoção e gratidão, na terra do sol nascente, onde os portugueses chegaram entre 1512 e 1514…
 
António Rodrigues
Em Díli

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

À mesa com uma heroína


 
(Homenagem às Mulheres timorenses)

Vinda de Díli esteve em Torres Novas uma delegação do Parlamento de Timor Leste. Eram dez os membros, onde predominavam as Mulheres.
Aurora, deputada da Fretilin, compunha a delegação que veio até nós para conhecer a lógica e a dinâmica do Poder Local Português. Instalados na cidade do Almonda, dividiram o seu tempo pela autarquia torrejana, pela de Vila Franca de Xira e, muito em particular, aproveitaram para irem até Fátima.
Foi bom, muito bom, tê-los connosco.  
Como sempre, ficaram muito gratos porque muito por cá aprenderam, erradamente convencidos que com eles, nós nada aprendemos.
Nada mais falso!
Fizemos o nosso jantar de despedida.
No Boquilobo, porque as enguias, para os nossos irmãos timorenses, seriam novidade. Que ambiente mais sereno. Que gente mais simples e humilde, mas estóica, inteligente e determinada.
Não conseguia, ainda que discretamente, tirar os meus olhos da expressão de Aurora.
Havia algo de especial naquela cara…
Difícil de “ler” e de interpretar…
Ora era uma mulher serena ora, quando falava, exprimia convicção e acção. Estavam ali uns olhos bonitos, mas tristes.
A minha curiosidade foi mais forte.
Perguntei-lhe: Aurora, a senhora perdeu familiares durante a guerra?
A sua cara transfigurou-se e Aurora agitou-se na cadeira… senti que tinha exagerado com a pergunta e tentei recuar… Mas Aurora não permitiu, porque de imediato disse, “a História é para se contar”. E o que sofri valeu a pena, porque hoje Timor é livre - arrematou…
E, sem mais delongas e sem grandes interrupções, desfiou o rosário da sua desgraça, a razão da tristeza dos seus olhos… e da sua alma.
Falou tão devagar, tão pausadamente e tão serenamente!
- Sabe, fui muito nova para as montanhas. Foi muito difícil, pois deixei o meu menino de dois anos em casa de meus pais… nunca mais o vi, pois morreu passado pouco tempo.
Nas montanhas, mataram o meu marido. Terá sido fuzilado…
            Porque eu tinha irmãos nas montanhas e, para nos amedrontarem, vieram à cidade matar o              meu pai, pensando que assim desistiríamos da luta.
Depois, mataram-me um irmão e logo de seguida mais outro irmão.
Uns tempos mais à frente – dizia com espantosa serenidade - mataram mais um irmão e, logo depois, a minha irmã mais velha…
Envergonhado com a pergunta que fiz, mas emocionadíssimo com a resposta que obtive desta grande mulher, ainda tentei tirar dúvidas: a senhora perdeu sete elementos da família?
- Sim, sim! O meu pai, o meu bebé, o meu marido ainda jovem e quatro irmãos…
- E hoje vivo com os meus filhos que comigo sobreviveram e estou no parlamento para continuar a defender os valores da Nação.
Que deputada! Com tinta de sangue escreveu esta mulher a sua dramática história. Entre muitos outros, sabe bem o que quer, conhece bem o seu Povo e hoje é um dos símbolos de uma nação que vive a esperança de um futuro risonho, em homenagem aos sete que, multiplicados por muitos, perfazem as largas dezenas de milhar que caíram pela dignidade colectiva de um Povo Nobre.
À mesa com uma heroína soa a pouco.
À mesa com heróis.
E nós, nada aprendemos?…
Ai não que não aprendemos!
Por bem menos, muito menos, nos zangamos com a vida.
Eis a lição!
Entretanto, Aurora licenciou-se e hoje estuda para conseguir um Mestrado.
ANTÓNIO RODRIGUES
  
 
 

sábado, 1 de junho de 2013

TIMOR


Acabei de chegar de mais uma missão, realizada a convite do governo daquele país amigo e irmão.

Mais uma vez ali vivi momentos únicos.

1.    A Conferência Internacional sobre o Poder Local ocorreu a 28 e 29 e foi acontecimento único, quer na apreciação do tema quer, muito em particular, na dimensão do debate político que foi, em minha opinião, exemplar.

Foi, seguramente, uma aposta ganha!

Está, por isso, de parabéns o Dr. Tomás Cabral, Secretário de Estado da Descentralização Administrativa e toda a sua equipa a quem endereço os meus parabéns.

2.    O outro, foi a assinatura do protocolo do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da UTL (a minha escola) da Universidade Técnica de Lisboa, com Universidade de Timor Lorosae, acto determinante para um papel indelével que as duas universidades terão no futuro, na formação dos quadros públicos do Estado Timorense.

3.    Por fim, a subida às montanhas, calcorreadas durante 3h (para cada lado) para a entrega de uma imagem de N. Sª de Fátima, ao povo de Salau, no distrito de Manatuto, foi algo para jamais esquecer. A paisagem, a beleza e o misticismo das montanhas associadas à dimensão humana daquele Povo que nos esperou durante 8h para o momento alto, é indescritível. Gente bonita e digna aquela que simbolizo na pessoa da Dionísia, a catequista das crianças de Salau.

Na sua alegria e emoção me revejo e aprendo.
 
Timor é cada vez mais uma lição...

     António Rodrigues

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

MAE


Lembro-me bem.
Muito bem!

Estava uma manhã linda e com muito sol. Presumo que estaríamos em Março ou Abril de 1966…

Na escola, havia três filas de carteiras onde os miúdos se sentavam. Na que ficava do lado das três grandes janelas, sentavam-se os filhos dos ricos, supostamente os mais inteligentes e, por isso, melhores alunos. Na do meio, os menos ricos e alunos medianos. Na outra, ficavam, de forma assumida, os mais pobres e mais burros. Como eram então tratados na linguagem da época… os mais fracos!

Sendo pobre, fiz os quatro anos da primária na fila dos ricos…
A todos, incluindo os ricos, o professor passou “a mão pelo pelo”. Vá lá perceber-se porquê, nunca o homem me tocou.
Nunca!

Em casa, na véspera desta manhã solarenga, o meu pai e minha mãe discutiram.
E muito. Muito!

A minha mãe queria impor que o meu pai me deixasse fazer o exame de admissão[1]. Que teria que ser pago ao professor. Não, nem pensar - dizia o meu pai, desconsolado com a resposta. Não há dinheiro para isso e temos mais dois filhos… nem pensar!
Foi a sentença.

Naquela manhã fui para a escola, a pé, claro – como todos - pensando que quando acabasse aquela 4ª classe teria que ir dar serventia ou a pedreiros ou a calceteiros. Tinha sido a decisão da véspera, que deixou a minha mãe em choro prolongado. Tudo isto me marcou… por isso me lembro.
A aula começou com o professor zangado com o Zé Ancedo. Ele não queria nada com os trabalhos de casa.

Nunca os fazia!
A mãe estava sempre doente do coração e, por isso, não havia trabalhos de casa para ninguém. Era a desculpa, ainda por cima repetida, que dava força à régua que fervia as palmas das mãos grandes do Zé.

Ainda não refeitos da cena, batem à porta da sala.
Fiquei boquiaberto. Era a minha Mãe.

Teria 26 ou 27 anos.
Magra e bonita. De vestido caído e cabelos pretos ligeiramente caídos sobre o ombro…

Ficou de frente para o professor e, por isso, para toda a sala.
Só me lembro de a ver chorar.
E muito.

E, baixinho, porque a pobreza por vezes também envergonha. Todos os colegas se aperceberam e a sala calou-se num silêncio que evidenciou ainda mais o pranto de minha mãe. Encostei a cabeça ao tampo da secretária e não me lembro se chorei também. Talvez!
Aquela mancha de batas brancas que marcavam a nossa sala, tenho-a bem presente na minha memória. Todos olharam para trás para me marcarem e tentarem perceber o que se passava. Estando na fila dos ricos, a minha carteira era a última o que obrigava a que os meus colegas se movimentassem na cadeira e, por isso, nada disfarçassem…

Sendo rápida a conversa, demorou uma eternidade. Percebi que o choro serenou e que algo de positivo terá ocorrido. Percebi o sorriso tão molhado quanto rasgado de agradecimento que minha mãe patenteou…
Só mais tarde, umas semanas mais tarde, percebi tudo que se tinha passado.

O professor, sem eu o saber e sem prévio aviso, começou a impor que eu ficasse no grupo dos colegas que se preparavam para o exame de admissão. Percebi que também iria fazer o exame… e, se calhar, não teria que ir dar serventia a pedreiros.
E assim foi.
O professor propôs-me a exame, assumindo as despesas. Terei tido a melhor nota, mas nunca consegui a confirmação.

Nesse dia de festa, diz-me o Professor:
- Rodrigues, mereces o que te fiz mas nunca te esqueças que a tua Mãe é uma grande mulher.

E eu sabia disso. E de muito mais.
E sei hoje, neste dia muito especial, que estando a dar a minha primeira aula enquanto professor universitário, o devo em primeiro lugar à coragem e ousadia de minha mãe e ao professor que sempre me estimou. A eles lhes devo muito do que se tem passado em toda a minha vida.
Manda a verdade dizer que meu pai se rendeu, percebeu que afinal foi temeroso, receando não ter condições para que todos estudássemos.

E tivemos! Graças ao seu trabalho e labuta incansável, que foi e é exemplo para todos nós.
António Rodrigues

(HOJE SERIA O DIA DO SEU ANIVERSÁRIO)

[1] Exame pago, sem o qual seria impossível ao aluno continuar os estudos

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

3,7%



Mesmo após o 25 de Abril, ainda se manteve o hábito de se dizer que Portugal era Lisboa e o resto paisagem. Aliás, não era por caso, que os lisboetas quando saíam fora de muros se arrogavam dizer que iam à província. Tudo o que não fosse Lisboa, salvo raras excepções, era um atraso de vida. Era a província...

E tinham alguma razão para tamanha arrogância.

E porquê?
Há 35 anos, quem nascia em Lisboa, desde o berço que se habituava a ter de tudo. Em casa, dentro de casa, água canalizada, esgotos, electricidade e até gás nas cozinhas. Saía de casa e encontrava de tudo naquela que era e é a capital.
Boas avenidas, passeios, bons parques e jardins.
E havia teatros, cinemas, bibliotecas e bons museus... Também bons mercados, bons restaurantes e ainda bons espaços desportivos coberto ou descobertos. Enfim, havia de tudo um pouco.
E até havia e há bons transportes.
E ainda bem que assim era.

Subsistia, no entanto, um problema.

É que, havendo perto de 10 milhões de portugueses, só os de Lisboa e de algumas (não todas) capitais de distrito usufruíam destes privilégios. Os outros, os “provincianos” habitavam um mundo diferente, um Portugal diferente.

E era estigmatizante, tudo isto, não para os Lisboetas que nenhuma culpa tinham de viverem, face aos “provincianos”  muitos furos acima do índice da qualidade de vida.
Eram as chamadas assimetrias do regime que caiu sob o cheiro intenso dos cravos de Abril...

Uma das fantásticas heranças de Abril, é o reforço e a autonomia municipalismo, o Poder Local Português; aliás, Herculano afirmava que o município era "…a mais bela das instituições que o mundo antigo legou ao mundo moderno”

Mas nem sempre foi assim em particular neste Portugal ignorado de Salazar e Caetano?

Os municípios em conjunto com as freguesias operaram a mais fantástica revolução e renovação a que o país jamais assistiu ou assistirá.
Sim, com algumas asneiras que os parasitas procuram evidenciar, em detrimento do muito que foi positivo, de tudo se conseguiu.

De 1979 até aos dias de hoje, levou-se a água potável, electricidade e os esgotos à mais recôndita da aldeia portuguesa. Os caminhos de cabra, de terra batida e enlameada, passaram a ser caminhos para humanos com o mesmo direito dos da capital. Pavimentaram-se milhares de quilómetros de estradas. Edificaram-se escolas, centos escolares, centros de saúde, lares ou centros de dia de acolhimento; construíram-se e equiparam-se espaços desportivos cobertos ou descobertos e promoveu-se a formação desportiva em todas as freguesias deste país. Construíram-se bibliotecas, recuperaram-se teatros e edificaram-se museus para preservarem a nossa memória. A memória de quem trabalha, chora ou ri, um pouco por todo o território português prenhe de feitos fantásticos. E, multiplique-se tudo isto, por 308 municípios cada um à sua escala e dimensão.

E criaram-se, aqui e acolá, zonas industriais que geraram riqueza, criaram emprego e fixaram as populações. E ainda houve tempo para, em muitos casos, se regenerar centros históricos, palcos corroídos da nossa história. A que nos deveria orgulhar e que cobardemente não divulgamos.

Discretamente, e bem, mataram-se carências e estendeu-se a mão a quem dela precisava: para uma palavra, para um conforto ou conselho de um reformado ou um pobre isolado ou até perdido, na casota mais distante da aldeia... da freguesia.

 E hoje, o que se evoca de tudo isto?

A dívida dos municípios e o despesismo dessa gente diminuída e inconsciente, que são os autarcas.

De tal forma é uma classe tão desprezível que há que a abater e controlar ainda mais. Nem que para isso se tenha que acabar com as freguesias e com essa figura estranha e anómala do presidente de Junta.
Venha o Padre da paróquia que o substitua...

E quem faz toda esta apologia e persegue esta riqueza comunitária: os do Terreiro do Paço. Os de hoje e os de ontem.
Os inteligentes!
Os tais que - quase todos - ao virem ao mundo de tudo encontraram. E que acham caro e muito, tudo o que se fez, para que Lisboa deixasse de ser Portugal e paisagem o resto.

Todos somos portugueses e todos merecemos o que só alguns tinham.

E hoje, todos ou quase todos, têm o que a minoria já tinha.
Essa associação estranha, a riqueza do municipalismo português, associação de homens e mulheres,  que reergueram o país e esbateram diferenças e mataram assimetrias, mesmo contra a vontade ou a inveja do terreiro do Paço, ficará para sempre na memória de todos.

 Hoje Portugal está falido.

Quanto custou ao país a "loucura" dos autarcas portugueses para que os alfacinhas deixassem de ir à província?

3,7% da nossa falência.

E os outros 96,3% da nossa desgraça quem os estoirou, quem os queimou?

O Terreiro do Paço.
O tal que é ocupado, maioritariamente, por quem nasceu com água em casa e com tudo à porta...

 António Rodrigues  



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Perdoado seja (II)


A Igreja no seu melhor… a portuguesa claro!
Para D. Policarpo o país chegou a um estado tal que as manifestações não fazem sentido. “Comer e calar” parece ser o seu lema… ou por outra, não comer e calar…
Eis uma afirmação de incompreensível resignação que, vindo de quem vem, tem algo de muito mais grave. Para este homem da Igreja, o primeiro do país, as manifestações e protestos de rua não fazem sentido e só incomodam.

Só fala assim quem está fora da realidade e de barriga cheia!
Não comer e calar, parece ser a sugestão deste patriarca há muito fora do contexto… mas o drama é que para muitos já não há mesmo nada para comer.
A fome atinge muitos e, em particular, os que dela sempre estiveram muito longe.
A dura realidade é que em Portugal há fome e fome escondida, pela vergonha.
E há sub-alimentação.

Em ambos os casos, todos temos – uns mais outros menos – a nossa responsabilidade e, ao mesmo tempo, a obrigação de ser solidários.
Só manda calar quem tem fome, os que estão de barriga cheia.
E que não são solidários.  

É feio mandar calar quem tem fome.
É feio mandar calar quem não tem para aconchegar e suavizar o drama dos filhos.
É mau ser insensível.
Esta não é a Igreja solidária de que todos precisamos.
Se há uns meses D. Policarpo nos mimoseou com a afirmação de que “ninguém sai da política de mãos limpas”, também é caso para lhe dizer que nem todos os líderes da igreja sabem estender a mão a quem precisa.
Valha-nos não ser aquela a verdade absoluta da política, valha-nos não ser aquela a verdade absoluta da Igreja Católica portuguesa.

Hoje, um pouco por todo o lado, prolifera a solidariedade e o apoio efectivo, muitas vezes no silêncio e na discrição, dos católicos deste ou daquele recanto do nosso traumatizado país. Há, em Portugal, homens, mulheres e jovens que, no silêncio do amor, repartem o que têm para que o outro sofra menos. Na solidariedade e no apoio ao próximo, os católicos e suas instituições são exemplo.
No respeito por todos aqueles que sofrem, católicos ou não, D. Policarpo deveria dar uma mensagem de respeito, de esperança e de solidariedade.

Ou então, ficar calado!
António Rodrigues
16.10.2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O absurdo da cegueira


Não é preciso recorrer à demagogia, nem ao excesso de argumentos, para comprovar o absurdo daquela a que chamam a “Lei dos Compromissos”. Bastará alguma objectividade no mero exercício da sua aplicação para se perceber que ela, para além de cega, reflecte bem a incapacidade de quem a idealizou e de quem a aprovou.
Falamos da incapacidade de compreender a gestão diária e corrente de uma autarquia, ou da incapacidade de perceber ao que estão sujeitas as Câmaras quando, sistematicamente e a todo o momento, são confrontadas com necessidades que aliam uma decisão a uma despesa. Com a sua implementação, ficará a esmagadora maioria dos municípios inibida de actos administrativos tão elementares como a compra de selos postais ou pneus para os veículos municipais. Para não falar em situações ainda mais revoltantes como o caso concreto de Centros Escolares concluídos e que não abrirão as portas aos alunos porque as câmaras estão impedias de contratarem o gás ou outras vertentes complementares do investimento ou obras em curso que irão parar pela impossibilidades de novos contratos ou, ainda, de se dotarem de equipamentos imprescindíveis ao seu funcionamento.

É também gritante a incompreensão da injustiça de uma lei que transforma os eleitos municipais em autênticos funcionários do Estado, sujeitando-os à humilhação de depender da autorização dos serviços para que uma sua tomada de decisão se possa executar.
À luz da sua natureza intrínseca, e sem qualquer margem para dúvidas, a lei em causa reporta o papel dos autarcas àquele que tinham os presidentes de Câmara na vigência do Estado Novo: pouca ou nenhuma autonomia e total subserviência ao Poder Central. Mas mais do que isso, esta é uma lei que não se coaduna com uma exequibilidade clara e objectiva, na medida em que chega ao cúmulo inverosímil de forçar a cessão da actividade regular das autarquias junto das comunidades que servem, inibindo e humilhando quem tem obrigação de, junto das populações, resolver, objectivamente, os problemas que se vão apresentando.

Os autarcas têm absoluta consciência da necessidade de contenção e poupança. Sabem também que têm de ser parte da solução para melhorar o actual estado do país, ainda que, também plenamente conscientes de contribuírem, tão somente, com 4% da dívida de todo o país. Contudo, lamenta-se que esses 4% tenham vindo a ser pretexto para, de forma fria e indiscriminada, se tomar um conjunto de decisões que, não obstante a inevitabilidade de umas, pecam pela incorrecção, pelo carácter ofensivo da dignidade de quem é eleito e dedica a sua vida à causa pública, para além de ofensivas da dignidade da própria democracia.

Esta lei é o reflexo do nível a que foi votado o Poder Local em Portugal, prevendo-se que, como tal, a mesma venha a ser também reflexo da incapacidade de quem agora terá que a corrigir. Só dessa forma poderá o país não ver todo o seu Poder Local economicamente asfixiado e inoperativo e, mais ainda, deixar de ser promotor do desenvolvimento económico e social do respectivo concelho.

 António Rodrigues

Artigo Publicado na Revista Pontos de Vista, suplemento do Jornal "Público" do dia 16 de Julho de 2012

sábado, 19 de maio de 2012

TIMOR - a paixão


Há dez anos estive lá.
Em Tacitolo
Eram aos milhares, centenas milhares.
O Povo de Timor comemorava a sua dignidade e, por via dela, a sua independência. Segundo Matoso, na sua obra “A dignidade de Konis Santana” foi essa a arma primeira do Povo Maubere na resistência ao ocupante.
Vi e vivi a festa daquela noite.
Os choros da emoção e da saudade pelos que deram a vida por aquela causa… ouvi as orações das crianças e dos adultos e partilhei os silêncios envoltos no breu da noite, onde não chegavam as luzes dos holofotes.
Vivi e chorei naquele 20 de Maio quando a bandeira de Timor se desfraldou lenta e cerimoniosamente, ao som daquelas femininas e celestiais vozes que entoavam o hino da primeira nação do século XXI…
E estive com Xanana dias mais tarde.
Senti a serenidade de combatente e estratega que levou Timor à vitória.
E, mais do que isso, deixei-me inundar por aquele mar de humildade. A humildade dos grandes.
E voltei a Timor.
E voltei. E voltei...
Sempre com o privilégio de estar com Xanana. Mais do que isso, trabalhar para aquele Povo a convite deste amigo especial.
Foram bons e gratificantes todos aqueles momentos…

Aquelas reuniões…
Aquelas conversas…
sempre com Timor com pano de fundo…
E voltei lá em Janeiro passado…
E estive de novo com Kay Rala Xanana Gusmão.
Duas horas…ou mais…
Para preparar novos trabalhos, novas colaborações… qual gota do oceano que também pode ajudar a pensar o futuro.
E Xanana está diferente.
Muito diferente.
Mais e melhor conhecedor do que pretende para o seu país.
Profundo dominador da sua estratégia para Timor.
Como nunca, sabe o que quer e o que pode fazer...
Para desenvolver a sua terra.
O homem que no passado recente conheceu todos os cantos do seu país, porque os calcorreou no combate ao inimigo, sabe hoje melhor do que nenhum outro, o que precisa cada um desses cantos para que o Povo sinta que valeu a pena.
Xanana que foi estratega na guerra é hoje um estratega na paz em busca do melhor para Timor.
Com uma particularidade:
Continua humilde. O humilde que fala com os silêncios e que tem no olhar a expressão da palavra. Xanana que hoje mereceu o maior aplauso da noite de Tacitolo, porque o Povo não esquece e Ramos Horta relembrou:  

Xanana, o nosso irmão que nos levou à vitória.

Obrigado Xanana pelo convite para hoje voltar a Tacitolo.
Guardá-lo-ei na arca das minhas melhores memórias…
Vi a festa pela televisão e também aplaudi quando o Povo, em uníssono, te aplaudiu.
Como escreveu Richard Bach, “não há longe nem distância” e, como há dez anos, emocionei-me.
Viva Timor Leste!

António Rodrigues

19 em Lisboa, 20 de Maio em Timor Leste






domingo, 4 de março de 2012

PS sem freguesia


O processo da junção de freguesias, melhor falando, da reforma administrativa do território português, não vai correr bem.


Por isso, perderão as populações.


Seguramente!


O Governo apresentou proposta no parlamento, que para muitos terá sido feita a régua e esquadro e, talvez, também com compasso.


Mas a verdade é que a apresentou. “Cumpriu” assim, goste-se ou não, o famigerado acordo que o país assumiu com a “Tróika”; a tal, que só nos deixa os trocos…


Nunca fui e presumo que nunca serei, apoiante da redução das freguesias rurais, embora compreenda que é sensato só se justificar a existência dessa autarquia, a partir de determinada dimensão populacional. Como também se entende a redução das freguesias urbanas porque, em muitos casos, assumem uma verdadeira duplicação de esforços e responsabilidades que hoje, dada também a evolução tecnológica ao nível da informação, já não fazem sentido. Pelo menos de forma tão prolífera.


Já aqui, neste blogue manifestei a minha opinião sobre o tema.


E, quando escrevi esse apontamento, era minha ingénua convicção de que o Partido Socialista, ouviria TODOS os seus autarcas e apresentaria proposta no parlamento. Como era sua obrigação, dado que não concorda com a do governo e, mais importante que isso, porque também assinou o tal documento. E, mais ainda, porque no tempo de Sócrates, já as cúpulas do partido defendiam de forma assumida a redução das freguesias. E é bom que nos lembremos que se defendia este desiderato político, quando nem sequer havia Tróika e suas imposições.


Velhos tempos!


O PS errou.


Não por ter votado contra a proposta do governo mas, porque ao votar contra, decorreria dessa legítima posição, a obrigatoriedade de apresentar a sua proposta na Assembleia da República.


Porque assinou o acordo. Da mesma forma com que no parlamento tem votado com venda nos olhos, propostas do governo, indo a reboque do argumento do compromisso que resulta da assinatura do documento, desta vez esqueceu-se desse detalhe.


Custaria muito ao Partido Socialista propor num simples documento aquela que é sua posição pública sobre o tema? Talvez com esse posicionamento e em sede de Comissão da Especialidade todos ganhássemos. O Poder Local em geral e as freguesias em particular.


Os dois partidos do arco do poder local, em sede de negociações e com duas propostas na mesa, teriam, forçosamente que se entender. E o resultado seria, necessariamente, uma proposta final com maior consistência e abrangência política e, por consequência, com maior e melhor acolhimento público.


Se o PS tivesse apresentado proposta, quero acreditar, teríamos muito mais possibilidades de manter muitas das actuais freguesias rurais. Assim, muitas delas, com a proposta do governo, serão anexadas.


O país perde e desiluda-se quem no PS possa sonhar que se ganha politicamente com esta estratégia tacticista, eleitoralmente falando.


Até porque, ao ter assinado o acordo, o PS terá que se preparar, metaforicamente falando, entenda-se, para o velho ditado: “tão ladrão é o que vai à vinha como o que fica cá fora”.



António Rodrigues


4 Março de 2012