A mais pequenina

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Princesa

sábado, 18 de outubro de 2014

Francisco, o Operário



Morreu Francisco, o Operário.
Morreu Francisco Canais Rocha.

Torres Novas perdeu um grande Homem e um grande Amigo.
Sereno e humilde, foi um vencedor da vida, porque a viveu em plena harmonia e na defesa dos seus ideais. Antifascista movido por princípios, pagou caras as suas convicções e a sua coragem. A ditadura prendeu-o e durante anos o torturou barbaramente. Por causa disso, nunca lhe ouvi expressões de rancor ou revolta. Mas também por causa disso, teve uma saúde frágil, consequência dos tempos da cadeia.

Discreto na vida e na acção, foi assim que fundou uma das mais importantes instituições que Torres Novas viu nascer no Pós 25 de Abril, a ARPE. Foi um perno da instituição, que a todos respeitou e considerou. Nunca para a ARPE reclamou o que quer que fosse e muito menos exigiu “... se a Câmara puder ajudar... se a Câmara puder fazer...” era assim que o ouvia, sempre que com os seus colegas de direcção ia ao meu Gabinete. Quando ainda não há um ano, quase lhe exigiram para protestar porque a sede da instituição tardava em ficar concluída, recusou...não queria fazer política utilizando a ARPE...
E a Sede está lá, “também para ele”.

Canais Rocha tinha raízes crioulas.
O seu pai nasceu na ilha de Sto. Antão, em Cabo Verde, precisamente onde Torres Novas mantém cooperação lusófona. Foi o primeiro Secretário Geral da CGTP. Foi o príncipe do operariado e, também por isso, por muitos era admirado. Que o diga Carvalho da Silva, que muitas vezes vinha à cidade do Almonda para com ele matar saudades dos tempos, em que os tempos eram outros.

Canais Rocha foi sindicalista de referência e grande intelectual, discreto… quase envergonhado. Homem culto e profundo conhecedor da História do séc. XX, em particular a do operariado, Mestre em História Contemporânea, leva consigo conhecimentos e saberes invulgares.
Por deliberação do dia 30 de Setembro de 2003 foi homenageado pela Câmara Municipal de Torres Novas com a Medalha de Mérito Municipal da Cultura, que solenemente lhe foi entregue a 19 de Outubro do mesmo ano, em cerimónia realizada no Castelo da cidade. 

Deste Homem que me deu muitos conselhos e alertas, terei sempre saudades, muito em especial do seu exemplo enquanto cidadão dos pobres.
Que descanse em Paz, meu bom Amigo.

António Rodrigues

 

São garotos, os garotos da nossa desgraça


Assaltaram o poder, a pretexto de não mais impostos e nem pensar em reduzir vencimentos. E sabiam do que falavam, porque conheciam bem a situação económica e financeira do país, disse então o que queria e viria a ser o líder da nossa desgraça. Toda a esquerda (?) dita radical cantou em coro e foi esse coral que nos arrastou para uma das maiores desgovernanças da história do país, porque em coro bem afinado criaram a crise politica que teve as consequências que teve e que continuamos a viver.  
Em 2010, a dívida do país era 94% do PIB… 

E a garotada tomou posse… com pompa e circunstância, sob a presidência deleitada de um semi-moribundo Presidente da República… o tal do bolo-rei, que nunca se engana e que meses antes tinha em discurso solene, dito ao deposto primeiro-ministro, que o país não aguentava mais sacrifícios e mais austeridade…aguenta aguenta, diria mais tarde, sem respeito e sem vergonha, um dos representantes maiores dos mercados e do capital, neste país sem esperança.
E partir daí foi e é o que se sabe.

O maior ataque jamais realizado em Portugal aos que trabalham e que vivem do esforço do seu labor. Um ataque descarado, feito sem vergonha, sem pudor e sem remorsos. Que não chorassem, como aconteceu com a ministra italiana das finanças ao anunciar uma “gota” percentual na redução de alguns vencimentos, ainda vai que não vai… mas, que pelo menos, respeitassem os assaltados. É esta a marca de imagem da gente que nos desgoverna: insensibilidade social e desvergonha, próprio das gentes que vivendo bem, pouco ou nada fizeram na vida. Os tais que não sabem diferenciar uma galinha de um ganso…. Os tais que se assumem neo liberais… um liberalismo selvático que nenhum partido português, acredito que nem o “verdadeiro” PSD, defende.
Começaram pois, os delirantes aumentos dos impostos… sempre ou quase sempre as castigar os mesmos. Começaram as agressões à dignidade dos funcionários públicos, onde se englobam, entre outros, os professores e, mais grave ainda, o desrespeito e a traição a quem trabalhou uma vida inteira e passou a ser, na óptica dessa gente, a escória da sociedade: os pensionistas e os reformados. Os espoliados da esperança, traídos na memória dos tempos suados da vida passada.

E a dívida foi aumentando…

E aumentaram os pobres e muitos mais pobres.
Muitos, para o não serem, emigraram em busca da esperança, negada neste país por um líder que convida a juventude a emigrar… nem toda a juventude claro, porque vale mais um bom emprego no Banco de Portugal, para o filho de um tal durão, que mil jovens em busca da vida noutro tempo e fora de casa. Os tais que, noutras paragens e noutros continentes, beijam os filhos no vidro do Ipad. Estes sim, os heróis de Portugal, que sem padrinhos e sem durões, sofrem na pele a desgraça a que também por esta gente foram forçados.

Ao mesmo tempo que o Povo é assaltado, a dívida pública cresce e cresce. E não só porque baixou o PIB, pois claro, mas também e muito, porque o Governo que nos desgoverna aumenta a despesa pública, não parando de a aumentar a dívida do país…

O Povo paga para impostos.
O Povo paga para as despesas do Estado.
O Povo paga para os Bancos e para engordar aos mercados.

A propósito dos bancos, não podemos ter memória curta.
Temos um Presidente da República que garantiu, lá do Oriente, que o BES era boa gente e dava confiança ao País. O tal que nunca se engana, enganou-se e, mais grave, enganou o País… nem uma palavra de retratamento… outros Povos o teriam demitido. Para ele, o Povo agora até aguenta mais sacrifícios e mais austeridade… estranha a mudança de sentimentos.

Temos um Primeiro Ministro que garantiu a consistência do BES, que estava tudo bem…não haveria problema… mais uma vez, no meio de muitas, enganou os portugueses. Nem desculpas, nem demissão… nem demitido.
Temos um Governador do Banco de Portugal, que garante que o BES tem dinheiro e muito… a tal almofada salvadora, de milhares de milhões. Mentiu ao país… nem desculpas…nem meias desculpas. Nem se demitiu, nem foi demitido.

Perante tudo isto, que mais esperar?
Nada, absolutamente nada, a não ser cinismo e palhaçada, pois é disso que se trata quando o líder informa que em 2015 não haverá aumento de impostos. Para além de assaltarem o Povo, ainda o julga de parvo… todos sabemos que 2015 é ano de eleições.

E a dívida vai aumentando…

Com tantos cortes, com tantos e imorais impostos, em três anos a dívida do país passou de 94% para 134% no segundo trimestre deste ano… como foi possível? Como é possível?
De forma lúcida, o sábio Adriano Moreira, no sua obra “Memórias do Outono Ocidental um século sem bússola”, caracteriza o momento da seguinte forma: …A atitude do poder político neoliberal repressivo, inclina para um ataque à difícil unidade de nacionais, povo e multidão, porque lhe acrescenta politicas de divisão entre gerações, entre ricos e classes média, usando o incitamento à emigração qualificada e desacreditando a validade do Estado Social…

Isto é incontestável. E poderá ser uma desgraça.

 António Rodrigues 

 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O abraço de Timor à Guiné Bissau


O abraço de Timor Leste à Guiné Bissau, passou despercebido aos Portugueses. E ao mundo político em geral. Mas não ao Povo timorense e, muito menos e em particular, ao guineense.
Porque o abraço foi bom, foi exemplar e, acima de tudo, porque foi uma bofetada para muito boa gente da área política, ele foi calado… ignorado!
Da Guiné estamos habituados a más notícias… de resto, em Portugal, só se divulgam as más notícias. Chafurdamos com o pessimismo e quase nos obrigam a ignorar o que de bom se faz.

Por cá e por lá.
Segundo Xanana, foi um gesto de gratidão para com a Guiné, e Timor enviou para aquele pequeno país, o que de melhor actualmente tem: homens e mulheres do seu povo e, com eles, o que de melhor aprenderam nos 13 anos que levam de independência ou seja, a experiência em processo de recenseamento e actos eleitorais.
Como há dias dizia Luís Amado em entrevista a RR, Xanana instalou uma autêntica Secretaria de Estado em Bissau, com o objectivo de promover todo o processo eleitoral naquele quase abandonado país da CPLP.

Os chamados grandes países “rosnaram” com a ideia e, no silêncio, Timor foi criticado… Dinheiro mal gasto, tudo vai correr mal, vai ser um fracasso… melhor ficassem em Timor… mas Xanana seguiu em frente, mantendo corajosamente o seu gesto solidário para com o sacrificado povo da Guiné Bissau.
Em Bissau, a chefiar as dezenas de técnicos e administrativos timorenses, ficou Tomás Cabral, Secretário de Estado da Descentralização Administrativa, que assumiu a representação do Estado Timorense naquelas terras de áfrica.

E foram oito meses de intenso trabalho e milhões de dólares investidos por Timor neste processo. Com as “máquinas às costas” calcorrearam montes e montanhas e, de aldeia e em aldeia, promoveram o recenseamento e, com ele, a preparação dos actos eleitorais. Com os computadores, as máquinas para emissão dos cartões eleitorais e, com elas, o espirito da solidariedade para com um povo dela bem carente, tudo paulatinamente, foi conseguido. Tudo!
E vieram os actos eleitorais, que poucos acreditavam se desenvolvessem com êxito e sem incidentes. Foram três eleições: Para o Parlamento guineense e, também, para a Presidência da República, esta com duas “voltas”…

Lemos ou ouvimos notícias? Muito poucas e curtas.
E as que houve, quase sempre ignorando o papel determinante de Timor Leste, que também teve em Ramos Horta o representante oficial da ONU naquele país.
Muitos dos que antes olharam com desconfiança e até desdém, o papel e o contributo de Timor, foram obrigados a vergar e, mais do que isso, a aprender a lição. A lição de dois pequenos países onde há gente grande, de coragem e de saber. E de querer!

Os resultados eleitorais foram rápidos e serenos. Ninguém pôde ou pode questionar a liberdade, o rigor das eleições e a verdade dos resultados finais.
Tudo foi quase perfeito e a Guiné é hoje um Estado de Direito aos olhos do Mundo.

Este sim, o verdadeiro espírito da Lusofonia e a entreajuda que deve nortear o caminho político da CPLP…
E será a Díli a receber no próximo dia 23 de Julho a cimeira da CPLP, que o Governo de Timor prepara com dedicação, afinco e entusiasmo.

Tudo isto que parece ter passado ao lado da opinião pública e publicada, mas em Timor e na Guiné, foram escritas páginas de história que ambos os Povos merecem e das quais se devem orgulhar.

Parabéns ao Povo da Guiné!
Parabéns a Tomás Cabral

Parabéns a Xanana!

 António Rodrigues

 

 

 

sábado, 28 de junho de 2014

A nossa Língua


Faz hoje anos que começámos a falar português.
Faz hoje 800 anos que começámos a ter uma alma enquanto Povo e que iniciámos o processo fundamental da nossa identidade histórica.
Faz hoje anos que alguém pensou no futuro e sentiu que havia uma Nação.

Uma Nação que falaria português por muitos e muitos anos. Foi D. Afonso II que assumiu este futuro e, diga-se, não há muitas nações que saibam exactamente o dia em que nasceu a sua própria língua.

Pois nós sabemos!

A língua de Camões falada em quase todo o mundo.
É no Brasil, que por consequência directa das invasões francesas em Portugal, ela melhor, mais rápido e eficazmente se implantou, com aquele sotaquezinho tão próprio e sensual dos brasileiros.

É na África quente de terra vermelha, entre crioulos e vernáculos locais, que a nossa língua é ponte para o mundo multicultural e multirracial, orgulho para quem de peito aberto se afirma luso pela língua. Essa África mítica de sonhos e anseios, onde Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde, se sentem irmãos pela língua, e com ela e também por causa dela, vivem o futuro com esperança. África, essa crioula voz que adocica a língua e nos aquece a alma.

E Timor? Timor lá do outro lado do planeta, onde muitos, mas muitos, foram assassinados por falarem português e que hoje lutam para que o português seja também elemento determinante para o seu desenvolvimento e afirmação no contexto das nações. E se a nossa língua tão bem convive com o tétum…tão bem…

E Macau e Goa onde ainda há vestígios da nossa alma?…
Onde se fala o português e ver televisão portuguesa é orgulho e referência para muitos…

E em Malaca, onde ainda se fala e reza com o velho português…lá no bairro de S. Pedro…
Eis a nossa língua, alma que a Lusa Expansão Marítima deixou um pouco por todo o mundo.

Faz hoje 800 anos que começámos a falar português.
E há que ter orgulho por falarmos português e ainda mais orgulho de muitos outros países o fazerem. Há que perder os complexos e traumas neocolonialistas e assumirmos que é também nestas e com estas nações, que poderemos sonhar com um futuro ainda mais solidário e próspero para todos os qua falam, como agora escrevo.

Perdemos no futebol onde jogou uma equipa de 11, mas ainda ninguém falou que ganhámos na promoção da língua que o Brasil fala e que em todo o mundo é abraçada por mais de 244 milhões de almas.
O futebol não é a nossa pátria.

“A minha pátria é a Língua Portuguesa”… disse Pessoa… olhando o mundo, ele teria dito
“a nossa pátria é a língua portuguesa.”

Eis o testamento de D. Afonso II, o Gordo! O do conteúdo e o da forma!

Que orgulho!

António Rodrigues

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Os Silêncios de Pedro


O Pedro Lobo Antunes morreu depressa.
Em época de Natal… sem avisar e deixando na família e nos amigos uma o
nda de dor e de choque.
Para além do desgosto da partida, senti o coração apertado porque estava em falta com ele.
Foi meu Vereador durante oito anos.
Há muito que tínhamos em atraso, conversas e temas para ajustar e pôr em ordem… Pensava um dia ter o tempo e a oportunidade para esse tipo de diálogo. Que era fundamental existir. Na altura, bastavam-nos as nossas trocas de mensagens durante os jogos do Benfica, que cada um via na sua casa… era o nosso silencioso elo de amizade.  
No dia do seu funeral saí de Lisboa também incomodado por nunca ter arranjado tempo falar com o Pedro.
Já não havia nada a fazer… pensei. Nunca temos tempo para nada… vamos adiando…fica sempre para amanhã! Por isso suportei o peso na consciência.
Ainda assim, no dia do funeral, disse ao seu filho Daniel que um dia gostaria de ter uma conversa com ele. Para desabafar! Para compensar o incompensável!
Mas porque havia de falar eu com o Daniel se só o tinha visto três ou quatro vezes?
O tempo foi passando e sempre em mim a vontade de escrever algo sobre o Pedro. Mas algo que fizesse profundo sentido. Ele que não era nada de banalidades e de loas ao desbarato, não aceitaria qualquer tipo de desabafo sem sentido. Fui adiando o texto, tal como as conversas com ele.
Tive que vir a Cabo Verde.
A data nem estava para ser esta. Afinal estamos na semana da Páscoa e Cabo Verde, de tantos turistas, tem as ilhas cheias até ao mar. Hesitei muito mas, mesmo em cima da hora, decidi e vim. E cá estou!
Por sua vez, o Daniel, que fala em silêncio com o seu pai, um dia descobriu num dos blusões do Pedro, um canhoto de um bilhete de viagem feita a Cabo Verde, precisamente comigo. Já lá vão uns anos. E o Daniel, que na altura estava para fazer uma viagem, interpretou o óbvio. O meu pai está a convidar-me a visitar Cabo Verde, terra de que tanto gostava. O Daniel hesitou mas acabou por marcar a viagem. É um dos muitos que em férias enche o arquipélago crioulo.
Cheguei a Cabo Verde no domingo de madrugada e, claro, fui para o hotel.
O Daniel, chegou a Cabo Verde no domingo de madrugada e, claro, foi para o Hotel.
Na manhã de domingo, ao pequeno-almoço, o Pedro pregou-nos uma partida…
Eu, que raras vezes via o Daniel, e que nunca desde que venho a este país, tinha ficado alojado neste hotel, julguei ser ele que estava ali. 
Estava só, numa das mesas do restaurante.
Olha que está ali um sósia de um dos filhos do Pedro; já nem me lembrava do nome dele. Isto da idade é uma chatice para guardar nomes…
Fixámo-nos nos olhos (os dele, são muito bonitos) e foi arrepiante percebermos quem éramos.
Porquê aqui? Perguntei. Estou numa de homenagem a meu pai, respondeu. Foi quando soube da história do canhoto do bilhete e do porquê da sua vinda a Cabo Verde.
E conversámos e conversámos.
Almoçámos e jantámos.
E falei com o Daniel o que não tinha falado com o Pedro.
Com o Daniel “ajustei as contas” que tinha com o seu pai.
Fiquei com a consciência mais leve.
Indiquei-lhe os locais que o pai adorava ver em Sto. Antão. Enquanto o Daniel passeia pelo Tarrafal, que visitei pela primeira vez com o Pedro, escrevo estas palavras para, de Cabo Verde, homenagear o meu Amigo Pedro Lobo Antunes.
Que admirei e cuja amizade é perene, agora continuada com o filho. E fizemos um pacto de amizade, qual trespasse do pai… Passaremos a trocar mensagens aquando dos jogos do Benfica… e a estreia será já no domingo quando as águias voarem a glória de campeãs.
O Daniel, dos três filhos, é o único que nasceu em Torres Novas, terra que o pai adorava.
Tantas coincidências, não são?
Obrigado Pedro por nos ter marcado as viagens.
O Pedro era assim! Falava muito e bem nos silêncios…
E nos silêncios continua a falar!…
 
António Rodrigues
15 de Abril de 2014
Cidade da Praia – Cabo Verde
 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sta. Cruz - da matança à esperança

 
 
22 de Novembro de 1991.
O dia que marcou a viragem da resistência timorense à selvática ocupação Indonésia.
O dia da matança e da desgraça.
O dia do massacre de Sta. Cruz.

Até então, a resistência tinha vivido tempos de alguma inércia, fruto também do esquecimento a que diplomacia internacional votou o Povo Maubere, incluindo a portuguesa. Aqui, há que lembrar,  que muitos políticos de então (daqueles tempos, como dizem os timorenses) e que hoje estão no exercício do poder, afirmavam sem pudor que a luta do Povo timorense era uma causa definitivamente arrumada.
E perdida.
Os mesmos que mais tarde, a reboque dos acontecimentos de Díli, voltariam ao terreno da diplomacia com mais força e empenho.
E foi precisamente por causa do justificado cancelamento de uma visita a Timor de uma delegação do Parlamento português, que tudo começou.
O Comité Executivo da Resistência havia preparado de forma estruturada, com entusiasmo e com inusitada envolvência nacional, a sua recepção aos portugueses.
E organizaram-se para que o mundo pudesse entender não só o sofrimento do povo, como ainda a dimensão da revolta e do seu protesto.
Foi o desalento e a tristeza absoluta a ausência da delegação.
Mais tarde, a 28 de Outubro de 1991, na igreja de Motael, os jovens, aproveitando a dinâmica e a movimentação criada para a recepção da lusa delegação, refugiam-se na igreja em sinal de protesto; frágil sinal da revolta de todo um Povo em sofrimento, preso e humilhado na sua própria terra...

A 28 de Outubro, os militares indonésios não perdoam a provocação e invadem a igreja, expulsando os jovens. E mataram UM.
"Só UM"
O jovem Sebastião Gomes.
 
Na missa do seu funeral D. Ximenes, o Bispo, clamou a sua revolta e, mais uma vez, reclamou a intervenção do mundo para salvar o povo de Timor. O funeral de Sebastião atraiu milhares e milhares de timorenses que misturavam as lágrimas da revolta, com as lágrimas da dor.

Sebastião teve como todos os cristãos, o direito à missa do sétimo dia.
Mas, em Timor, também há a missa dos quinze dias, para a deposição das flores na campa do falecido. Momento particular do afecto de toda a população, dado que a do sétimo dia, é mais dedicada à família de quem partiu.
A resistência, atenta e ainda frustrada pela ausência dos parlamentares portugueses, aproveitou a manifestação de dor que se expressa na deposição das flores, para organizar um enorme sinal de protesto para o mundo. Estariam, no entanto, longe de sonhar, que seria aquele o primeiro dia do resto das suas vidas...

Foi na madruga de 11 de Novembro que afincadamente preparam a manifestação das flores, conseguindo em poucas horas, a mobilização de milhares para o dia que viria a ser o da viragem para o Povo de Timor.
 
Eram tempos especiais, aqueles que o mundo vivia.

Gorbatchov dava alma à Perestroika, o muro de Berlim havia caído em 1989 e, também por via de tudo isso, as interacções geoestratégicas sofrem mutações em todo o mundo... Timor encontrou aqui um espaço para a luta diplomática que antes não havia, num tempo de troca das ditaduras pelas democracias, incluindo a Indonésia. Parecia que tudo se conjugava. 

Naquela manhã do dia 12, o Povo juntou-se em Motael. Sempre Motael…
Celebrou a Missa o actual Bispo de Díli, D. Ricardo. Sebastião foi por todos chorado e homenageado. Mas havia flores, milhares de flores, para depor na sua humilde campa no agora mítico cemitério de Sta. Cruz... E o Povo, aos milhares, com cartazes de protesto, seguia até ao cemitério. E um deles dizia "venham deputados portugueses, não tenhais medo porque o sangue é nosso" 

Eis aqui o porquê da simbologia de tão trágico quanto promissor acontecimento.
Já dentro do cemitério, acontece um dos maiores símbolos da barbárie a que homem jamais deveria assistir, quanto mais permitir.  A campa de Sebastião fica mesmo lá no fundo do grande campo dos mortos. Entraram milhares para depor as flores, mas muitos por lá ficaram, chacinados à "queima-roupa" pelas armas dos militares da ditadura indonésia. Muitos outros, os feridos, incapazes de fugirem, eram assistidos entre as campas...para mais tarde morrerem com os banhos de creolina "à falta de outros medicamentos no hospital".

Foi o drama que o mundo viu, sentiu e chorou.
Em Portugal a emoção foi ainda maior, pois vimos gente de outro lado do mundo que morria, enquanto outros rezavam o terço a Nossa Senhora de Fátima, a Mãe de todos os timorenses. E rezavam em Português...

O padre Felgueiras, entre outros, correu ao cemitério de estola ao pescoço e de bíblia na mão, para abençoar os falecidos e clamar pelo fim da desgraça. Cá fora, os camiões carregavam os corpos deixando um mar de sangue, das centenas de filhas e filhos de Timor, que lutavam pela paz e pela liberdade. E que morreram, na flor das suas vidas, levando com eles os sonhos da liberdade e do amor a uma pátria martirizada.

Não fora Max Stahl, jornalista, e o mundo de nada saberia. Filmou e escondeu junto a uma campa, a cassete do sacrifício,  que acabaria por se tornar na cassete da esperança.

O mundo acordou e olhou para Timor.
Tudo passou a ser diferente.
 
Timor hoje é independente e hoje comemorou o 12 de Novembro.
Onde estive.
Onde me emocionei.
Onde chorei.
Nada de mais, perante as lágrimas e o sofrimento, daqueles que naquele mesmo espaço, perderam centenas de entes queridos.
 
 
Nota - Portugal, mais tarde, em 1992, teria um gesto de verdadeira solidariedade para com o Povo timorense, que reforçou de forma incomensurável o entusiasmo da resistência, muito em particular a dos mais jovens. A coragem de Rui Marques, de Ramalho Eanes e de Rui Correia, entre muitos que zarparam de Lisboa, no barco Lusitânia Expresso, para depor flores no local do massacre de Sebastião. Não pisaram terra e as flores lançadas ao mar, mas o gesto ainda hoje é recordado com emoção e gratidão, na terra do sol nascente, onde os portugueses chegaram entre 1512 e 1514…
 
António Rodrigues
Em Díli

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

À mesa com uma heroína


 
(Homenagem às Mulheres timorenses)

Vinda de Díli esteve em Torres Novas uma delegação do Parlamento de Timor Leste. Eram dez os membros, onde predominavam as Mulheres.
Aurora, deputada da Fretilin, compunha a delegação que veio até nós para conhecer a lógica e a dinâmica do Poder Local Português. Instalados na cidade do Almonda, dividiram o seu tempo pela autarquia torrejana, pela de Vila Franca de Xira e, muito em particular, aproveitaram para irem até Fátima.
Foi bom, muito bom, tê-los connosco.  
Como sempre, ficaram muito gratos porque muito por cá aprenderam, erradamente convencidos que com eles, nós nada aprendemos.
Nada mais falso!
Fizemos o nosso jantar de despedida.
No Boquilobo, porque as enguias, para os nossos irmãos timorenses, seriam novidade. Que ambiente mais sereno. Que gente mais simples e humilde, mas estóica, inteligente e determinada.
Não conseguia, ainda que discretamente, tirar os meus olhos da expressão de Aurora.
Havia algo de especial naquela cara…
Difícil de “ler” e de interpretar…
Ora era uma mulher serena ora, quando falava, exprimia convicção e acção. Estavam ali uns olhos bonitos, mas tristes.
A minha curiosidade foi mais forte.
Perguntei-lhe: Aurora, a senhora perdeu familiares durante a guerra?
A sua cara transfigurou-se e Aurora agitou-se na cadeira… senti que tinha exagerado com a pergunta e tentei recuar… Mas Aurora não permitiu, porque de imediato disse, “a História é para se contar”. E o que sofri valeu a pena, porque hoje Timor é livre - arrematou…
E, sem mais delongas e sem grandes interrupções, desfiou o rosário da sua desgraça, a razão da tristeza dos seus olhos… e da sua alma.
Falou tão devagar, tão pausadamente e tão serenamente!
- Sabe, fui muito nova para as montanhas. Foi muito difícil, pois deixei o meu menino de dois anos em casa de meus pais… nunca mais o vi, pois morreu passado pouco tempo.
Nas montanhas, mataram o meu marido. Terá sido fuzilado…
            Porque eu tinha irmãos nas montanhas e, para nos amedrontarem, vieram à cidade matar o              meu pai, pensando que assim desistiríamos da luta.
Depois, mataram-me um irmão e logo de seguida mais outro irmão.
Uns tempos mais à frente – dizia com espantosa serenidade - mataram mais um irmão e, logo depois, a minha irmã mais velha…
Envergonhado com a pergunta que fiz, mas emocionadíssimo com a resposta que obtive desta grande mulher, ainda tentei tirar dúvidas: a senhora perdeu sete elementos da família?
- Sim, sim! O meu pai, o meu bebé, o meu marido ainda jovem e quatro irmãos…
- E hoje vivo com os meus filhos que comigo sobreviveram e estou no parlamento para continuar a defender os valores da Nação.
Que deputada! Com tinta de sangue escreveu esta mulher a sua dramática história. Entre muitos outros, sabe bem o que quer, conhece bem o seu Povo e hoje é um dos símbolos de uma nação que vive a esperança de um futuro risonho, em homenagem aos sete que, multiplicados por muitos, perfazem as largas dezenas de milhar que caíram pela dignidade colectiva de um Povo Nobre.
À mesa com uma heroína soa a pouco.
À mesa com heróis.
E nós, nada aprendemos?…
Ai não que não aprendemos!
Por bem menos, muito menos, nos zangamos com a vida.
Eis a lição!
Entretanto, Aurora licenciou-se e hoje estuda para conseguir um Mestrado.
ANTÓNIO RODRIGUES
  
 
 

sábado, 1 de junho de 2013

TIMOR


Acabei de chegar de mais uma missão, realizada a convite do governo daquele país amigo e irmão.

Mais uma vez ali vivi momentos únicos.

1.    A Conferência Internacional sobre o Poder Local ocorreu a 28 e 29 e foi acontecimento único, quer na apreciação do tema quer, muito em particular, na dimensão do debate político que foi, em minha opinião, exemplar.

Foi, seguramente, uma aposta ganha!

Está, por isso, de parabéns o Dr. Tomás Cabral, Secretário de Estado da Descentralização Administrativa e toda a sua equipa a quem endereço os meus parabéns.

2.    O outro, foi a assinatura do protocolo do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da UTL (a minha escola) da Universidade Técnica de Lisboa, com Universidade de Timor Lorosae, acto determinante para um papel indelével que as duas universidades terão no futuro, na formação dos quadros públicos do Estado Timorense.

3.    Por fim, a subida às montanhas, calcorreadas durante 3h (para cada lado) para a entrega de uma imagem de N. Sª de Fátima, ao povo de Salau, no distrito de Manatuto, foi algo para jamais esquecer. A paisagem, a beleza e o misticismo das montanhas associadas à dimensão humana daquele Povo que nos esperou durante 8h para o momento alto, é indescritível. Gente bonita e digna aquela que simbolizo na pessoa da Dionísia, a catequista das crianças de Salau.

Na sua alegria e emoção me revejo e aprendo.
 
Timor é cada vez mais uma lição...

     António Rodrigues

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

MAE


Lembro-me bem.
Muito bem!

Estava uma manhã linda e com muito sol. Presumo que estaríamos em Março ou Abril de 1966…

Na escola, havia três filas de carteiras onde os miúdos se sentavam. Na que ficava do lado das três grandes janelas, sentavam-se os filhos dos ricos, supostamente os mais inteligentes e, por isso, melhores alunos. Na do meio, os menos ricos e alunos medianos. Na outra, ficavam, de forma assumida, os mais pobres e mais burros. Como eram então tratados na linguagem da época… os mais fracos!

Sendo pobre, fiz os quatro anos da primária na fila dos ricos…
A todos, incluindo os ricos, o professor passou “a mão pelo pelo”. Vá lá perceber-se porquê, nunca o homem me tocou.
Nunca!

Em casa, na véspera desta manhã solarenga, o meu pai e minha mãe discutiram.
E muito. Muito!

A minha mãe queria impor que o meu pai me deixasse fazer o exame de admissão[1]. Que teria que ser pago ao professor. Não, nem pensar - dizia o meu pai, desconsolado com a resposta. Não há dinheiro para isso e temos mais dois filhos… nem pensar!
Foi a sentença.

Naquela manhã fui para a escola, a pé, claro – como todos - pensando que quando acabasse aquela 4ª classe teria que ir dar serventia ou a pedreiros ou a calceteiros. Tinha sido a decisão da véspera, que deixou a minha mãe em choro prolongado. Tudo isto me marcou… por isso me lembro.
A aula começou com o professor zangado com o Zé Ancedo. Ele não queria nada com os trabalhos de casa.

Nunca os fazia!
A mãe estava sempre doente do coração e, por isso, não havia trabalhos de casa para ninguém. Era a desculpa, ainda por cima repetida, que dava força à régua que fervia as palmas das mãos grandes do Zé.

Ainda não refeitos da cena, batem à porta da sala.
Fiquei boquiaberto. Era a minha Mãe.

Teria 26 ou 27 anos.
Magra e bonita. De vestido caído e cabelos pretos ligeiramente caídos sobre o ombro…

Ficou de frente para o professor e, por isso, para toda a sala.
Só me lembro de a ver chorar.
E muito.

E, baixinho, porque a pobreza por vezes também envergonha. Todos os colegas se aperceberam e a sala calou-se num silêncio que evidenciou ainda mais o pranto de minha mãe. Encostei a cabeça ao tampo da secretária e não me lembro se chorei também. Talvez!
Aquela mancha de batas brancas que marcavam a nossa sala, tenho-a bem presente na minha memória. Todos olharam para trás para me marcarem e tentarem perceber o que se passava. Estando na fila dos ricos, a minha carteira era a última o que obrigava a que os meus colegas se movimentassem na cadeira e, por isso, nada disfarçassem…

Sendo rápida a conversa, demorou uma eternidade. Percebi que o choro serenou e que algo de positivo terá ocorrido. Percebi o sorriso tão molhado quanto rasgado de agradecimento que minha mãe patenteou…
Só mais tarde, umas semanas mais tarde, percebi tudo que se tinha passado.

O professor, sem eu o saber e sem prévio aviso, começou a impor que eu ficasse no grupo dos colegas que se preparavam para o exame de admissão. Percebi que também iria fazer o exame… e, se calhar, não teria que ir dar serventia a pedreiros.
E assim foi.
O professor propôs-me a exame, assumindo as despesas. Terei tido a melhor nota, mas nunca consegui a confirmação.

Nesse dia de festa, diz-me o Professor:
- Rodrigues, mereces o que te fiz mas nunca te esqueças que a tua Mãe é uma grande mulher.

E eu sabia disso. E de muito mais.
E sei hoje, neste dia muito especial, que estando a dar a minha primeira aula enquanto professor universitário, o devo em primeiro lugar à coragem e ousadia de minha mãe e ao professor que sempre me estimou. A eles lhes devo muito do que se tem passado em toda a minha vida.
Manda a verdade dizer que meu pai se rendeu, percebeu que afinal foi temeroso, receando não ter condições para que todos estudássemos.

E tivemos! Graças ao seu trabalho e labuta incansável, que foi e é exemplo para todos nós.
António Rodrigues

(HOJE SERIA O DIA DO SEU ANIVERSÁRIO)

[1] Exame pago, sem o qual seria impossível ao aluno continuar os estudos

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

3,7%



Mesmo após o 25 de Abril, ainda se manteve o hábito de se dizer que Portugal era Lisboa e o resto paisagem. Aliás, não era por caso, que os lisboetas quando saíam fora de muros se arrogavam dizer que iam à província. Tudo o que não fosse Lisboa, salvo raras excepções, era um atraso de vida. Era a província...

E tinham alguma razão para tamanha arrogância.

E porquê?
Há 35 anos, quem nascia em Lisboa, desde o berço que se habituava a ter de tudo. Em casa, dentro de casa, água canalizada, esgotos, electricidade e até gás nas cozinhas. Saía de casa e encontrava de tudo naquela que era e é a capital.
Boas avenidas, passeios, bons parques e jardins.
E havia teatros, cinemas, bibliotecas e bons museus... Também bons mercados, bons restaurantes e ainda bons espaços desportivos coberto ou descobertos. Enfim, havia de tudo um pouco.
E até havia e há bons transportes.
E ainda bem que assim era.

Subsistia, no entanto, um problema.

É que, havendo perto de 10 milhões de portugueses, só os de Lisboa e de algumas (não todas) capitais de distrito usufruíam destes privilégios. Os outros, os “provincianos” habitavam um mundo diferente, um Portugal diferente.

E era estigmatizante, tudo isto, não para os Lisboetas que nenhuma culpa tinham de viverem, face aos “provincianos”  muitos furos acima do índice da qualidade de vida.
Eram as chamadas assimetrias do regime que caiu sob o cheiro intenso dos cravos de Abril...

Uma das fantásticas heranças de Abril, é o reforço e a autonomia municipalismo, o Poder Local Português; aliás, Herculano afirmava que o município era "…a mais bela das instituições que o mundo antigo legou ao mundo moderno”

Mas nem sempre foi assim em particular neste Portugal ignorado de Salazar e Caetano?

Os municípios em conjunto com as freguesias operaram a mais fantástica revolução e renovação a que o país jamais assistiu ou assistirá.
Sim, com algumas asneiras que os parasitas procuram evidenciar, em detrimento do muito que foi positivo, de tudo se conseguiu.

De 1979 até aos dias de hoje, levou-se a água potável, electricidade e os esgotos à mais recôndita da aldeia portuguesa. Os caminhos de cabra, de terra batida e enlameada, passaram a ser caminhos para humanos com o mesmo direito dos da capital. Pavimentaram-se milhares de quilómetros de estradas. Edificaram-se escolas, centos escolares, centros de saúde, lares ou centros de dia de acolhimento; construíram-se e equiparam-se espaços desportivos cobertos ou descobertos e promoveu-se a formação desportiva em todas as freguesias deste país. Construíram-se bibliotecas, recuperaram-se teatros e edificaram-se museus para preservarem a nossa memória. A memória de quem trabalha, chora ou ri, um pouco por todo o território português prenhe de feitos fantásticos. E, multiplique-se tudo isto, por 308 municípios cada um à sua escala e dimensão.

E criaram-se, aqui e acolá, zonas industriais que geraram riqueza, criaram emprego e fixaram as populações. E ainda houve tempo para, em muitos casos, se regenerar centros históricos, palcos corroídos da nossa história. A que nos deveria orgulhar e que cobardemente não divulgamos.

Discretamente, e bem, mataram-se carências e estendeu-se a mão a quem dela precisava: para uma palavra, para um conforto ou conselho de um reformado ou um pobre isolado ou até perdido, na casota mais distante da aldeia... da freguesia.

 E hoje, o que se evoca de tudo isto?

A dívida dos municípios e o despesismo dessa gente diminuída e inconsciente, que são os autarcas.

De tal forma é uma classe tão desprezível que há que a abater e controlar ainda mais. Nem que para isso se tenha que acabar com as freguesias e com essa figura estranha e anómala do presidente de Junta.
Venha o Padre da paróquia que o substitua...

E quem faz toda esta apologia e persegue esta riqueza comunitária: os do Terreiro do Paço. Os de hoje e os de ontem.
Os inteligentes!
Os tais que - quase todos - ao virem ao mundo de tudo encontraram. E que acham caro e muito, tudo o que se fez, para que Lisboa deixasse de ser Portugal e paisagem o resto.

Todos somos portugueses e todos merecemos o que só alguns tinham.

E hoje, todos ou quase todos, têm o que a minoria já tinha.
Essa associação estranha, a riqueza do municipalismo português, associação de homens e mulheres,  que reergueram o país e esbateram diferenças e mataram assimetrias, mesmo contra a vontade ou a inveja do terreiro do Paço, ficará para sempre na memória de todos.

 Hoje Portugal está falido.

Quanto custou ao país a "loucura" dos autarcas portugueses para que os alfacinhas deixassem de ir à província?

3,7% da nossa falência.

E os outros 96,3% da nossa desgraça quem os estoirou, quem os queimou?

O Terreiro do Paço.
O tal que é ocupado, maioritariamente, por quem nasceu com água em casa e com tudo à porta...

 António Rodrigues