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Princesa

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Malaca - 500 anos



Para alguns poderá ser insignificante que, ante ontem, se tenham passado 500 anos em que nós, os portugueses, tomámos Malaca.


Foi a 15 de Agosto de 1511.


Na linguagem de contexto histórico é assim que se deverá escrever, sem complexos e sem traumas. É precisamente por causa dos complexos e dos traumas em torno da nossa História que, vá lá saber-se porquê, se instalou após a Revolução, que esta data passou despercebida a quase toda a gente. Aliás, como outras ainda mais importantes.


Perguntar-se-á se é assim uma data tão significante para ser recordada?


Claro que é?


Num país em que tudo se comemora, recordar este feito determinante para a expansão marítima portuguesa não seria descabido, antes factor de exaltação dos feitos da nossa gesta marítima.


“Lá no grémio da Aurora, onde nasceste, opulenta Malaca nomeada[1], assim Camões a cantou nos Lusíadas, não só pela sua beleza natural mas acima de tudo pela sua importância de base estratégica, na presença portuguesa no Oriente. Aliás, foi de lá que as naus portuguesas “desceram” mais para sul, até à ilha de Timor, em busca do sândalo. Para alguns historiadores, ali terão chegado por volta de 1512, para outros, 1513 ou mesmo 1514. Estou mais inclinado para a primeira hipótese.


“…Afonso de Albuquerque foi, não só, o verdadeiro fundador do “império” português na Ásia, mas também a melhor garantia da sua permanência. Em pouco mais de seis anos, ancorara os Portugueses no oceano Índico oriental pela conquista de Malaca (1511), controlando assim o tráfico marítimo com o Pacífico; impusera a autoridade e suserania portuguesas sobre Ormuz, dominando o golfo Pérsico (1507-15); e estabelecera uma base territorial para a sede da administração portuguesa pela conquista de Goa (1510)”.[2]


É neste contexto explanado por Oliveira Marques que se deve entender a importância de Malaca para suserana presença das forças portuguesas numa lógica dominadora de todos os mares do oriente. Presença que se manteve até 1641…


Seguramente, quero acreditar, que terão havido excepções, e esta data terá sido lembrada e devidamente reconhecida, aqui ou acolá; mas a verdade é que não foi notícia, num país em que tudo é notícia, mesmo os casos mais escabrosos e destituídos de qualquer interesse, que não seja o comercial.


E Malaca, nos dias de hoje, apesar de tudo, continua a recordar Portugal.


Lembremo-nos do velho Bairro dos Portugueses, onde ainda se fala português. O velho português como gostam de lembrar. E em língua lusa rezam, muito em particular nas missas, algumas delas celebradas em antigas garagens. E persistem, para além das igrejas católicas, ruas com toponímia portuguesa e, mais importante ainda, a velha fortaleza “A Famosa”, construída pelos lusos navegantes, onde ainda impera a lendária Porta de Santiago. E, sem raiva, os “portugueses” de Malaca lamentam que os portugueses deles se tenham esquecido, não deixando, no entanto, de organizar todos os anos as festas de S. João e de continuarem a ouvir o fado.


Apesar de tudo, é justo lembrar que, com o apoio do Instituto de Camões, há crianças em Malaca a aprender a língua portuguesa…


É bom, também por isto, lembrar Malaca!


Pelo que ela simboliza e pela importância que tem na nossa História.


Fica 148 km a sul da capital da Malásia, Kuala Lumpur, e é desde 2008 Património Mundial da Humanidade.




António Rodrigues



17 de Agosto de 2011








[1] Os Lusíadas, X, 44



[2] Marques, A. H. Oliveira – Breve História de Portugal, Editorial Presença - 6ª Edição, 2006 – pág. 212

sábado, 13 de agosto de 2011

Hino à Memória

Desgosta-me que a esmagadora maioria dos portugueses não conheça a sua História. Que ela não seja devidamente estudada e, até, em alguns pormenores, exaltada pelos nossos alunos e pela Nação.

Um povo que não conhece o seu passado, tem dificuldades em ultrapassar os problemas do presente e desacredita no futuro.


No pós 25 de Abril, a história de Portugal, foi renegada de forma estranha, em boa parte dos currículos escolares. Momentos houve, que mais parecia ter-se vergonha dela.

Nenhum governo, à excepção do actual, (ainda não houve tempo) deu ao ensino da História o lugar e a importância que ela justifica. Como é possível moldar-se a identidade de um povo, sem que este tenha conhecimento cabal das suas raízes históricas?


Dizia, o ano passado, o embaixador do Japão em Portugal, em entrevista ao jornal Expresso, não entender como era possível os portugueses não estudarem nem aprofundarem a sua história. No Japão, dizia então ele, os alunos estudam a importância da presença dos portugueses, no séc. XVI, naquele país. Dizia, também, nessa entrevista de Julho de 2010: “estão a perder a vossa memória.”


Podemos perder a memória, mas a nossa História, jamais será apagada.

Vale a pena ler, de seguida, o extracto que ousei transcrever, da autoria de um austríaco (!!!) que escreve assim sobre os portugueses:


“Seja como for: o feito decisivo está concluído. Pela primeira vez foi finalmente possível determinar com exactidão o perfil geográfico do continente africano, pela primeira vez comprovou-se e demonstrou-se, contra Ptolomeu, que se podia chegar à Índia por mar. Na geração que se seguiu ao infante, os seus pupilos e herdeiros tornaram realidade o sonho da vida do seu mestre.

É com assombro e inveja que o mundo volta agora os olhos para este pequeno povo de marinheiros que havia passado despercebido no canto mais recôndito da Europa. Enquanto as grandes potências – França, Alemanha, Itália – se dilaceravam em guerras absurdas, Portugal, essa gata-borralheira da Europa, tinha alargado mil, dez mil vezes, o seu espaço vital; por muito que se esforcem, já ninguém conseguirá pôr em causa este imenso avanço. Da noite para o dia, Portugal tornou-se na primeira nação marítima do mundo, conseguindo garantir, com o seu esforço, não só novas províncias, como também mundos inteiros. Uma década mais tarde, a mais pequena entre as nações europeias irá reivindicar a possessão e a administração de mais área terrestre do que a ocupada pelo império romano na época da sua maior expressão.


… Mas o heroísmo é sempre irracional ou anti-racional; sempre que um homem ou um povo se lançam numa aventura que ultrapassa os seus limites efectivos, também as suas energias aumentam até atingirem um nível nunca antes suspeitado: talvez nunca nenhuma outra nação se tenha unido de forma mais primorosa num único momento de vitória como o Portugal de finais do século XV: de repente, o país não criou somente o seu Alexandre, os seus Argonautas, em Albuquerque, em Vasco da Gama, em Magalhães; criou também o seu Homero, em Camões, o seu Lívio, em Barros. De um dia para o outro, estavam lá os sábios, os construtores, os grandes comerciantes: tal como na Grécia de Péricles, na Inglaterra de Isabel, na França de Napoleão, um povo concretiza, de forma universal, a sua ideia mais íntima e apresenta-a, enquanto feito visível, a todo o mundo. Durante aquela inesquecível hora terrena, Portugal é a primeira nação da Europa, guia da humanidade.”[1]


Seria tão bom que muitos lessem isto!


E, porque não, também os da troika?





[1] Zweig, Stefan – Magalhães, o homem e o seu feito – Assírio & Alvim, Março 2007 – pág. 29 a 31



























sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Médicos com Fronteiras




Vieram com entusiasmo.


Para Torres Novas e outros concelhos da região.


Tudo foi bem divulgado, porque finalmente uma parte das populações concelhias voltaria a dispor do seu médico de família.


E vieram médicos da Colômbia e da Costa Rica. Jovens com entusiasmo a quem foram exigidos exames para a “equivalência de competências”. E fizeram-nos!


Os jornais divulgaram e as populações sentiram que, uma parte do seu problema, estaria resolvido. Por isso, a iniciativa foi aplaudida.


Nada mais falso!


Quando no dia 5 deste mês se tentou fazer o ponto da situação e saber como estava a evoluir a vida social e profissional destes médicos, a surpresa foi total:


Ainda não trabalham, já lá vão três meses.


Apesar do Estado português lhes pagar o vencimento, os médicos sentem-se enganados e sentem-se mal. Receber sem trabalhar não consideram que seja sensato e justo, o que é natural. E desesperam para que venha uma solução.


Ao que parece, não haverá “Convénio de reciprocidade entre Portugal e Costa Rica”.


A ser verdade, porque não se acautelou previamente a questão?


A ser verdade, porque partiram dos seus países, sem estarem devidamente informados e esclarecidos de todos estes problemas.


E porque não foram as restantes entidades envolvidas no processo, informadas de tudo isto?


Na verdade, pura e dura, brincou-se de forma leviana com muita gente, em especial com os próprios médicos. Que se sentem, sem o quererem, turistas à força num país que os chamou para ser médicos.


E que o são, mas com fronteiras…



António Rodrigues