A mais pequenina

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Princesa

domingo, 3 de dezembro de 2017



O meu Pai
O meu Pai é calceteiro.
Ainda muito jovem, veio do Pinheiro no concelho de Ansião, até Torres Novas e por cá ficou e casou. 
É artista da pedra.
Foi assim durante 75 anos de trabalho.
Nasci e aprendi a vê-lo dobrado sobre si mesmo, com a dureza da profissão, a partir pedra e a calcetar.
Aquelas costas apanharam milhares de horas de sol, de chuva e de frio. A trabalhar no “duro” para o sustento da casa. Sem nada reivindicar e sem nada exigir.
Por aquelas mãos passaram milhões de pedras, para fazer calçada portuguesa. Para fazer arte; a arte dos pobres, mas arte.
Quando garoto, recordo-o a chegar a casa, na sua pequena motorizada Sachs Minor, cansado após oito horas de labuta, mas sempre com uma confiança que a todos nos transmitia. Nunca, mas nunca faltou ao trabalho, porque também a felicidade da sua saúde assim o permitiu.
Foi dobrado e de pedra na mão, que faz ferida e calos, que a todos nos educou e preparou para a vida.
Hoje, com 86 anos, saiu de sua casa, a 40 km de Torres Novas. Veio a conduzir a sua carrinha de trabalho. Nela trazia pedra de calcário e granito. E o seu martelo…, claro.
Veio à nova casa da sua neta mais velha, a Rita, para deixar no chão e para sempre oferecer, o símbolo da sua arte. Casa, com carga emocional bem expressiva, porque nela vivemos, entre os meus quatro e oito anos de idade. No tempo em que em torno dela só havia oliveiras e figueiras… e a eira do Barreirá… mistérios da vida, estas coincidências…
Chegou cedo e, passadas seis horas, com óbvio intervalo para o almoço, deixou à neta a pequena obra de arte, que as fotos revelam. E fê-la com carinho, ternura e vaidade, porque para a neta; a sua neta mais velha.
O meu Pai é assim: artista da pedra.
Homem de trabalho, o Sr. Acácio Rodrigues
Obrigado Pai.
António Rodrigues
27.09.2017

Marcelo, o cristão 

Não votei em Marcelo.

Não gostava dele.

Mudava de canal, quando aparecia o Professor… achava que ele abusava dos comentários e se exibia. Mas sabia, reconhecia e reconheço que não é inteligente… é muito inteligente.

Hoje, ele é para mim e, porventura para muitos, o paradigma do político quase ideal.

É ele que perante tragédia empurra emocionalmente o país. E empurra-o com gestos de afecto e de carinho. De ternura e de comoção. E vê-se que o homem é sincero, é genuíno. E um homem sincero e genuíno, quando muito inteligente, torna-se “perigoso”. Porque diferente, porque provocador. Mas perigoso, porque activo e bom de coração.

Hoje, ouvem-se algumas (poucas) vozes do PS – os que têm a memória curta - a discordarem do seu discurso de Oliveira do Hospital, em que deu um murro na mesa, impondo um rumo, um caminho de união, colocando à frente de tudo, os interesses do nosso país…

Foi e é o garante de um Portugal unido na dor e na tragédia. Terá sido, em minha opinião, o murro mais feliz e mais eficaz da história da democracia portuguesa. Ajudou a lavar a cara de um Estado incompetente, provocador de desgraça e tragédia, neste pormenor dos incêndios.

…E o Estado não é um só Governo. Somos todos nós, também…

Mas esta postura de Marcelo, está muito, mas muito para além do político e presidente. Ela encarna e de que maneira, a postura do cristão assumido, que em atitudes de coerência com a sua fé, corre o país cumprimentado, abraçando e beijando quem sofre, quem chora e quem tudo perdeu. Quem perdeu a esperança no futuro.

E quem perdeu filhos, pais, amigos e outros a quem os liga o sangue da vida… e da morte.

Marcelo tornou-se, em tempo de desgraça e de tragédia nacionais, a luz ao fundo do túnel para uma boa parte dos portugueses. Talvez mesmo da maioria!

Obrigado Presidente…

Desculpe, porque o “burro”, afinal, fui eu!


António Rodrigues

22 de Outubro de 2017

domingo, 5 de março de 2017

Desculpe Presidente Mário Soares

Foi com surpresa e desgosto que tive conhecimento de que o PS em Torres Novas, na última sessão da Assembleia
Municipal, votou contra uma proposta de um voto de pesar pela morte do Dr. Mário Soares.
Não dá para entender e, pelo menos em mim, gera-me sentimento de revolta, de repúdio e de lástima.
Claro que nos tempos recentes, tenho visto no concelho de Torres Novas muito que não me agrada… e com o qual não concordo. Por dever mínimo de tolerância e solidariedade política, até determinada altura fiz as críticas no local próprio.
Esse tempo acabou.
Mas esta tomada pública de posição, fere e incomoda todos os militantes e simpatizantes do PS e, muito em especial, os admiradores do Dr. Mário Soares. Esta atitude do PS de Torres Novas é indesculpável, pois um voto de pesar, proposto por quem quer que seja, mesmo que pela oposição, é sempre aceite. Nem a um indigente se recusa um voto desta natureza.
Não foi uma moção, foi um simples voto de pesar, que por proposta do ainda Presidente da Assembleia, foi votada na Assembleia… e que mereceu o chumbo do Partido Socialista, incluindo os votos da maior parte das Juntas de Freguesia. O documento que mais tarde leram sobre Mário Soares, infelizmente, não apaga esta pobre imagem de desnorte político.
É evidente que ninguém vai ter culpa destas aberrações… como sempre…
O PS de Torres Novas fica na história pois, seguramente, será o único concelho no país em que uma cena (triste) destas aconteceu. E é isto que fica em acta para memória futura...
Ao Presidente da A. M., não faço minhas as palavras do saudoso Mário Soares dirigindo-se ao guarda, mas pelo menos sugiro que pense nelas.

António Rodrigues
27.02.2017

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Viva as Fontainhas

Estou emocionado e muito contente.
Acabei de saber, pelo meu amigo e grande Torrejano/Cabo-verdiano, Aníbal Teixeira de Sousa, filho do saudoso escritor Teixeira de Sousa, que a linda aldeia de Fontainhas, na Ilha de Sto. Antão, mais concretamente no “meu” concelho da Ribeira Grande, foi considerada a segunda aldeia com “a vista mais bela do mundo”, ela que em si própria, é uma aldeia de sonho. Assim classificada pela National Geographic, a dimensão e a credibilidade da decisão é acrescida.   
Parabéns ao Povo de Fontainhas, a Sto. Antão e a Cabo Verde.
Sou um dos muitos que dizem e agora com mais oportunidade o digo, que a ilha de Sto. Antão no seu todo, deveria ser classificada como Património da Humanidade.

Quem a conhece dar-me-á razão.
Ir a Fontainhas é uma aventura de arrepiar, com paisagem deslumbrante e com caminho de tão estreito e sinuoso, com o mar lá em baixo a mais de 300m, que nos obriga a pensar duas vezes… mas, mesmo pensando, vale a pena avançar e desfrutar… lembro-me de um dia, o meu querido amigo Pedro Lobo Antunes de se ter recusado a fazer o caminho de jipe… mas não desistiu e foi na mesma… a pé. E, já na altura ele dizia, que aquele era local de beleza de excelência. Não foi o único, que só a pé lá quis ir…
Aliás, há quem lhe chame o presépio vivo de Cabo Verde, muito em particular durante a noite. E eu concordo! De noite, “aquilo” é um autêntico presépio, não sendo por acaso, que a capa do meu primeiro livro sobre Cabo Verde, tenha a foto da aldeia de Fontainhas.

Um povo bom e carinhoso nos acolhe de braços e de portas abertas, que oferecem o que têm. Recordo-me de um dia, lá em Fontainhas, ter recusado uma laranja que uma senhora, dentro de sua casa, me quis oferecer. Alertado para a minha “indelicadeza”, voltei atrás e saboreei o fruto para deleite da velhinha. E lá, também ouvi um fontainhense descrever toda a história de Portugal, como poucos por cá o sabem fazer…
Fontainhas passará a ser um local de visita. E ainda bem, porque Sto. Antão tem muito para visitar e saborear, para além da daquele local mítico. Sto. Antão é e ainda mais será, com esta novidade, uma ilha de turismo.

Pela simbologia do local, pela sua beleza, pelas pessoas e pela dimensão deste fantástico país que é Cabo Verde, vale pena visitar Sto. Antão.
Aos meus Amigos Orlando Delgado e Jorge Santos endereço um abraço de parabéns extenso a todos os amigos da Ribeira Grande.
António Rodrigues

sábado, 6 de dezembro de 2014

Judite e Ronaldo


As televisões portuguesas, por sistema, mostram-nos a miséria, a desgraça e tudo que de negativo temos. Somos assim… gostamos de nos miserabilizar, mais parecendo proibido termos acesso às emoções do que de bom acontece na nossa terra.

 Ontem e hoje foi diferente.

Judite e Ronaldo deram-nos o exemplo de uma carga sentimental genuína, em que se comunga emotivamente a desgraça dela, com o ícone que ele é.

São portugueses que entram na nossa casa todos os dias e que fazem parte do nosso colectivo.

Judite Sousa mostrou a face da dor e, muito em especial, no que a dor profunda é capaz de transformar o sofredor. Com a dor de Judite, percebemos melhor e em directo, a dor de tantas “Judites” que, como ela, sofrem por esse país fora a drama supremo da perca de um filho.

Ela foi corajosa e inspirou.

Ele, o exemplo de quem não tem vergonha das suas origens e faz delas com parcimónia, a referência do seu ponto de partida. É o exemplo do profissionalismo e da exigência com que encara a sua actividade. Por isso é campeão e o melhor. O melhor da Europa e o melhor do Mundo.

Hoje, na TVI percebemos (ou não) a dimensão da vida na diversidade de emoções que ela nos oferece. Ele, no auge da sua carreira e do deslumbre afirmativo e ela, na cova da tristeza profunda. Foi fantástico perceber a ternura solidária da forma em como Ronaldo olhava e respondia a Judite, e arrebatadora a coragem e a força com que aquela mulher encarou o jovem entrevistado.

Este par de Portugueses ensinou o país a melhor perceber os contrastes da vida. A tristeza suprema fruto da desgraça maior, de mão dada com a força da vida, assente na esperança de que tem 29 anos.

Tal como o malogrado filho da jornalista. 

António Rodrigues  

 

O Abraço de Timor à Guiné Bissau

O abraço de Timor Leste à Guiné Bissau, passou despercebido aos Portugueses. E ao mundo político em geral. Mas não ao Povo timorense e, muito menos e em particular, ao guineense.

Porque o abraço foi bom, foi exemplar e, acima de tudo, porque foi uma bofetada para muito boa gente da área política, ele foi calado… ignorado!
Da Guiné estamos habituados a más notícias… de resto, em Portugal, só se divulgam as más notícias. Chafurdamos com o pessimismo e quase nos obrigam a ignorar o que de bom se faz.

Por cá e por lá.
Segundo Xanana, foi um gesto de gratidão para com a Guiné, e Timor enviou para aquele pequeno país, o que de melhor actualmente tem: homens e mulheres do seu povo e, com eles, o que de melhor aprenderam nos 13 anos que levam de independência ou seja, a experiência em processo de recenseamento e actos eleitorais.
Como há dias dizia Luís Amado em entrevista a RR, Xanana instalou uma autêntica Secretaria de Estado em Bissau, com o objectivo de promover todo o processo eleitoral naquele quase abandonado país da CPLP.

Os chamados grandes países “rosnaram” com a ideia e, no silêncio, Timor foi criticado… Dinheiro mal gasto, tudo vai correr mal, vai ser um fracasso… melhor ficassem em Timor… mas Xanana seguiu em frente, mantendo corajosamente o seu gesto solidário para com o sacrificado povo da Guiné Bissau.
Em Bissau, a chefiar as dezenas de técnicos e administrativos timorenses, ficou Tomás Cabral, Secretário de Estado da Descentralização Administrativa, que assumiu a representação do Estado Timorense naquelas terras de áfrica.
E foram oito meses de intenso trabalho e milhões de dólares investidos por Timor neste processo. Com as “máquinas às costas” calcorrearam montes e montanhas e, de aldeia e em aldeia, promoveram o recenseamento e, com ele, a preparação dos actos eleitorais. Com os computadores, as máquinas para emissão dos cartões eleitorais e, com elas, o espirito da solidariedade para com um povo dela bem carente, tudo paulatinamente, foi conseguido. Tudo!

Vieram os actos eleitorais, que poucos acreditavam se desenvolvessem com êxito e sem incidentes.
Foram três eleições: Para o Parlamento guineense e, também, para a Presidência da República, esta com duas “voltas”…

Lemos ou ouvimos notícias? Muito poucas e curtas.
E as que houve, quase sempre ignorando o papel determinante de Timor Leste, que também teve em Ramos Horta o representante oficial da ONU naquele país.
Muitos dos que antes olharam com desconfiança e até desdém, o papel e o contributo de Timor, foram obrigados a vergar e, mais do que isso, a aprender a lição. A lição de dois pequenos países onde há gente grande, de coragem e de saber. E de querer!

Os resultados eleitorais foram rápidos e serenos. Ninguém pôde ou pode questionar a liberdade, o rigor das eleições e a verdade dos resultados finais.
Tudo foi quase perfeito e a Guiné é hoje um Estado de Direito aos olhos do Mundo.
Este sim, o verdadeiro espírito da Lusofonia e a entreajuda que deve nortear o caminho político da CPLP…

E será a Díli a receber no próximo dia 23 de Julho a cimeira da CPLP, que o Governo de Timor prepara com dedicação, afinco e entusiasmo.
Tudo isto que parece ter passado ao lado da opinião pública e publicada, mas em Timor e na Guiné, foram escritas páginas de história que ambos os Povos merecem e das quais se devem orgulhar.

Parabéns ao Povo da Guiné!
Parabéns a Tomás Cabral

Parabéns a Xanana!

António Rodrigues
 

O morcego e o passarinho


É pelo menos incómoda, acima de tudo para quem vive de mais perto as coisas da política partidária e não só, a situação criada com a trapalhada da votação das subvenções vitalícias.
Há que ser coerente!
Num país em que os reformados têm sido espoliados dos seus direitos e os mais jovens são convidados a emigrar na procura de melhor vida, choca que o PS tenha ido neste engodo… e nesta confusão.

Sim, confusão!
Porque a haver razões de equidade e de justiça nesta intenção, então que se explicasse bem o que está em causa e que não se deixasse passar a imagem de, mais uma vez, os políticos só se entenderem quando toca a “coçar para dentro” e a defenderem os seus interesses.
Sim, porque se o PS em questões se interesse nacional, raramente e muito bem, se entendeu com esta maioria que nos desgoverna, ficamos com a boca a saber a jornal quando ele aparece coligado a este adversário neoliberal e o mais desumano do pós  25 de Abril … ainda se estivesse em causa o tal interesse nacional…vai que não vai…  há que explicar melhor… para melhor se perceber.
Como dizia o outro, “passarinho que acompanha morcego amanhece de cabeça para baixo…

Haja pudor!

António Rodrigues

Se isto não é Amor


História verídica, narrada com dificuldade e sem contornos de qualquer tipo de romance.
Setembro de 2014
Aeroporto de  Schiphol de Amesterdão.

Vindo de Timor teria que por ali esperar cinco horas até apanhar avião para Lisboa. Num bar apinhado de gente de todas as raças e origens, sentei-me na única mesa disponível.
Fiquei só e entretido na leitura.
Passados breves momentos, levantei os olhos e percebi que teria companhia.
Um casal aproximou-se.
Surpreendi-me porque a senhora vinha em cadeira de rodas, conduzida pelo companheiro.
Ambos, sem o parecer, terão mais de 70.
E ambos elegantes e bonitos. Ela, apesar de tudo, tem a memória física de uma jovial beleza que o tempo disfarçou, mas não matou.
A senhora tem problemas de saúde e sérios. A sua expressão de profunda tristeza, estampava-se numa cabeça trémula, que deambulava quase descontrolada sobre os ombros magros. Mas elegantes, como toda ela. 
De olhos azuis, por vezes escondidos pelo cabelo louro que desordenadamente lhe caia sobre a face, com a ajuda do companheiro, levantou-se da cadeira. E, nesse instante, o susto foi ainda maior… o desequilíbrio era tal, que parecia que cairia a todo o momento. Dava essa impressão, mas os pés estavam bem colados ao chão e isso era a garantia da sua segurança.

Ficaram ambos à minha frente naquela estreita mesa de madeira. Que não esquecerei e onde voltarei…
Ele levantou-se e sempre com o olho nela, foi ao balcão buscar água.
Dois copos de plástico na mesa. O dela com palhinha.
O esforço que ele fez para lhe conseguir colocar a palhinha. Mas conseguiu e ela, com muita dificuldade, sorveu a frescura da água. Acto contínuo, ela com a cabeça sempre deambulando, estendeu o trémulo braço direito dirigida à face do marido e, com a mão bem aberta, acariciou-a. Ele responde-lhe com um olhar penetrante de “estranha” felicidade, com uns olhos que brilhavam como duas pérolas.

Pediu mais água e ele repetiu o gesto. Ela voltou com a mesma ternura, a mesma mão, o mesmo gesto. Ele sorriu. Ela sorria.
Perguntou-lhe se queria chocolate. Sim, foi a resposta.
Sentado, já com o pequeno chocolate, levou-o à boca e trincou-o. Molhado com a sua saliva, tentou e conseguiu com a ponta dos dedos, colocar-lhe na boca aquele pedacito… percebi o pormenor da saliva… a sua preocupação para que ela não se engasgasse. E ela de imediato lhe agradeceu com a carícia mais linda que se pode imaginar… aquele braço trémulo de novo se esforçou para que ele lhe oferecesse os olhos brilhantes de felicidade. Azuis, como os dela. Louro, como ela. Desta vez, para além da face, também a perna dele mereceu um gesto trémulo, mas lindo.

E os gestos, de ambos, repetiram-se até não haver chocolate.
Passaram-se poucos minutos... o diálogo era pouco (ela tem dificuldade em se expressar) e aconteceu o desagradável…

A senhora teve uma sequência de inesperados espirros e a sua face ficou banhada do ranho que o nariz expulsou… a vergonha foi grande. Corou e conseguiu com as mãos esconder a face bonita…e o resto. Simultaneamente, grossas lágrimas caiam-lhe e misturavam-se com a oferta do nariz. A senhora chorava. E chorava… 
Ele, sereno mas rápido, levantou-se e foi buscar guardanapos de papel.
Com a maior ternura do mundo, de cócoras, limpou-lhe a face e, meigamente, limpou-lhe os olhos e devolveu-lhe a beleza e a memória de outros tempos. Olhou para ela com um grande sorriso, puxou-a a si, abraçou-a e deu-lhe um expressivo beijo naquela testa coberta de cabelo desgrenhado.  

Que beijo aquele… e a senhora voltou a sorrir…
Ajudou-a a levantar-se. Mais uma vez temi que caísse.
De mão dada afastaram-se lentamente.

Não me esquecerei desta cena: a de uma mulher que caminha de tal forma, que mais parece forçadamente puxada pelo companheiro… que se perdeu no meio da multidão do aeroporto de Amesterdão… talvez com destino ao Oriente…
Se isto não é Amor!...   

António Rodrigues

Mindelo – CV – 16.10.2014

sábado, 18 de outubro de 2014

Francisco, o Operário



Morreu Francisco, o Operário.
Morreu Francisco Canais Rocha.

Torres Novas perdeu um grande Homem e um grande Amigo.
Sereno e humilde, foi um vencedor da vida, porque a viveu em plena harmonia e na defesa dos seus ideais. Antifascista movido por princípios, pagou caras as suas convicções e a sua coragem. A ditadura prendeu-o e durante anos o torturou barbaramente. Por causa disso, nunca lhe ouvi expressões de rancor ou revolta. Mas também por causa disso, teve uma saúde frágil, consequência dos tempos da cadeia.

Discreto na vida e na acção, foi assim que fundou uma das mais importantes instituições que Torres Novas viu nascer no Pós 25 de Abril, a ARPE. Foi um perno da instituição, que a todos respeitou e considerou. Nunca para a ARPE reclamou o que quer que fosse e muito menos exigiu “... se a Câmara puder ajudar... se a Câmara puder fazer...” era assim que o ouvia, sempre que com os seus colegas de direcção ia ao meu Gabinete. Quando ainda não há um ano, quase lhe exigiram para protestar porque a sede da instituição tardava em ficar concluída, recusou...não queria fazer política utilizando a ARPE...
E a Sede está lá, “também para ele”.

Canais Rocha tinha raízes crioulas.
O seu pai nasceu na ilha de Sto. Antão, em Cabo Verde, precisamente onde Torres Novas mantém cooperação lusófona. Foi o primeiro Secretário Geral da CGTP. Foi o príncipe do operariado e, também por isso, por muitos era admirado. Que o diga Carvalho da Silva, que muitas vezes vinha à cidade do Almonda para com ele matar saudades dos tempos, em que os tempos eram outros.

Canais Rocha foi sindicalista de referência e grande intelectual, discreto… quase envergonhado. Homem culto e profundo conhecedor da História do séc. XX, em particular a do operariado, Mestre em História Contemporânea, leva consigo conhecimentos e saberes invulgares.
Por deliberação do dia 30 de Setembro de 2003 foi homenageado pela Câmara Municipal de Torres Novas com a Medalha de Mérito Municipal da Cultura, que solenemente lhe foi entregue a 19 de Outubro do mesmo ano, em cerimónia realizada no Castelo da cidade. 

Deste Homem que me deu muitos conselhos e alertas, terei sempre saudades, muito em especial do seu exemplo enquanto cidadão dos pobres.
Que descanse em Paz, meu bom Amigo.

António Rodrigues

 

São garotos, os garotos da nossa desgraça


Assaltaram o poder, a pretexto de não mais impostos e nem pensar em reduzir vencimentos. E sabiam do que falavam, porque conheciam bem a situação económica e financeira do país, disse então o que queria e viria a ser o líder da nossa desgraça. Toda a esquerda (?) dita radical cantou em coro e foi esse coral que nos arrastou para uma das maiores desgovernanças da história do país, porque em coro bem afinado criaram a crise politica que teve as consequências que teve e que continuamos a viver.  
Em 2010, a dívida do país era 94% do PIB… 

E a garotada tomou posse… com pompa e circunstância, sob a presidência deleitada de um semi-moribundo Presidente da República… o tal do bolo-rei, que nunca se engana e que meses antes tinha em discurso solene, dito ao deposto primeiro-ministro, que o país não aguentava mais sacrifícios e mais austeridade…aguenta aguenta, diria mais tarde, sem respeito e sem vergonha, um dos representantes maiores dos mercados e do capital, neste país sem esperança.
E partir daí foi e é o que se sabe.

O maior ataque jamais realizado em Portugal aos que trabalham e que vivem do esforço do seu labor. Um ataque descarado, feito sem vergonha, sem pudor e sem remorsos. Que não chorassem, como aconteceu com a ministra italiana das finanças ao anunciar uma “gota” percentual na redução de alguns vencimentos, ainda vai que não vai… mas, que pelo menos, respeitassem os assaltados. É esta a marca de imagem da gente que nos desgoverna: insensibilidade social e desvergonha, próprio das gentes que vivendo bem, pouco ou nada fizeram na vida. Os tais que não sabem diferenciar uma galinha de um ganso…. Os tais que se assumem neo liberais… um liberalismo selvático que nenhum partido português, acredito que nem o “verdadeiro” PSD, defende.
Começaram pois, os delirantes aumentos dos impostos… sempre ou quase sempre as castigar os mesmos. Começaram as agressões à dignidade dos funcionários públicos, onde se englobam, entre outros, os professores e, mais grave ainda, o desrespeito e a traição a quem trabalhou uma vida inteira e passou a ser, na óptica dessa gente, a escória da sociedade: os pensionistas e os reformados. Os espoliados da esperança, traídos na memória dos tempos suados da vida passada.

E a dívida foi aumentando…

E aumentaram os pobres e muitos mais pobres.
Muitos, para o não serem, emigraram em busca da esperança, negada neste país por um líder que convida a juventude a emigrar… nem toda a juventude claro, porque vale mais um bom emprego no Banco de Portugal, para o filho de um tal durão, que mil jovens em busca da vida noutro tempo e fora de casa. Os tais que, noutras paragens e noutros continentes, beijam os filhos no vidro do Ipad. Estes sim, os heróis de Portugal, que sem padrinhos e sem durões, sofrem na pele a desgraça a que também por esta gente foram forçados.

Ao mesmo tempo que o Povo é assaltado, a dívida pública cresce e cresce. E não só porque baixou o PIB, pois claro, mas também e muito, porque o Governo que nos desgoverna aumenta a despesa pública, não parando de a aumentar a dívida do país…

O Povo paga para impostos.
O Povo paga para as despesas do Estado.
O Povo paga para os Bancos e para engordar aos mercados.

A propósito dos bancos, não podemos ter memória curta.
Temos um Presidente da República que garantiu, lá do Oriente, que o BES era boa gente e dava confiança ao País. O tal que nunca se engana, enganou-se e, mais grave, enganou o País… nem uma palavra de retratamento… outros Povos o teriam demitido. Para ele, o Povo agora até aguenta mais sacrifícios e mais austeridade… estranha a mudança de sentimentos.

Temos um Primeiro Ministro que garantiu a consistência do BES, que estava tudo bem…não haveria problema… mais uma vez, no meio de muitas, enganou os portugueses. Nem desculpas, nem demissão… nem demitido.
Temos um Governador do Banco de Portugal, que garante que o BES tem dinheiro e muito… a tal almofada salvadora, de milhares de milhões. Mentiu ao país… nem desculpas…nem meias desculpas. Nem se demitiu, nem foi demitido.

Perante tudo isto, que mais esperar?
Nada, absolutamente nada, a não ser cinismo e palhaçada, pois é disso que se trata quando o líder informa que em 2015 não haverá aumento de impostos. Para além de assaltarem o Povo, ainda o julga de parvo… todos sabemos que 2015 é ano de eleições.

E a dívida vai aumentando…

Com tantos cortes, com tantos e imorais impostos, em três anos a dívida do país passou de 94% para 134% no segundo trimestre deste ano… como foi possível? Como é possível?
De forma lúcida, o sábio Adriano Moreira, no sua obra “Memórias do Outono Ocidental um século sem bússola”, caracteriza o momento da seguinte forma: …A atitude do poder político neoliberal repressivo, inclina para um ataque à difícil unidade de nacionais, povo e multidão, porque lhe acrescenta politicas de divisão entre gerações, entre ricos e classes média, usando o incitamento à emigração qualificada e desacreditando a validade do Estado Social…

Isto é incontestável. E poderá ser uma desgraça.

 António Rodrigues 

 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O abraço de Timor à Guiné Bissau


O abraço de Timor Leste à Guiné Bissau, passou despercebido aos Portugueses. E ao mundo político em geral. Mas não ao Povo timorense e, muito menos e em particular, ao guineense.
Porque o abraço foi bom, foi exemplar e, acima de tudo, porque foi uma bofetada para muito boa gente da área política, ele foi calado… ignorado!
Da Guiné estamos habituados a más notícias… de resto, em Portugal, só se divulgam as más notícias. Chafurdamos com o pessimismo e quase nos obrigam a ignorar o que de bom se faz.

Por cá e por lá.
Segundo Xanana, foi um gesto de gratidão para com a Guiné, e Timor enviou para aquele pequeno país, o que de melhor actualmente tem: homens e mulheres do seu povo e, com eles, o que de melhor aprenderam nos 13 anos que levam de independência ou seja, a experiência em processo de recenseamento e actos eleitorais.
Como há dias dizia Luís Amado em entrevista a RR, Xanana instalou uma autêntica Secretaria de Estado em Bissau, com o objectivo de promover todo o processo eleitoral naquele quase abandonado país da CPLP.

Os chamados grandes países “rosnaram” com a ideia e, no silêncio, Timor foi criticado… Dinheiro mal gasto, tudo vai correr mal, vai ser um fracasso… melhor ficassem em Timor… mas Xanana seguiu em frente, mantendo corajosamente o seu gesto solidário para com o sacrificado povo da Guiné Bissau.
Em Bissau, a chefiar as dezenas de técnicos e administrativos timorenses, ficou Tomás Cabral, Secretário de Estado da Descentralização Administrativa, que assumiu a representação do Estado Timorense naquelas terras de áfrica.

E foram oito meses de intenso trabalho e milhões de dólares investidos por Timor neste processo. Com as “máquinas às costas” calcorrearam montes e montanhas e, de aldeia e em aldeia, promoveram o recenseamento e, com ele, a preparação dos actos eleitorais. Com os computadores, as máquinas para emissão dos cartões eleitorais e, com elas, o espirito da solidariedade para com um povo dela bem carente, tudo paulatinamente, foi conseguido. Tudo!
E vieram os actos eleitorais, que poucos acreditavam se desenvolvessem com êxito e sem incidentes. Foram três eleições: Para o Parlamento guineense e, também, para a Presidência da República, esta com duas “voltas”…

Lemos ou ouvimos notícias? Muito poucas e curtas.
E as que houve, quase sempre ignorando o papel determinante de Timor Leste, que também teve em Ramos Horta o representante oficial da ONU naquele país.
Muitos dos que antes olharam com desconfiança e até desdém, o papel e o contributo de Timor, foram obrigados a vergar e, mais do que isso, a aprender a lição. A lição de dois pequenos países onde há gente grande, de coragem e de saber. E de querer!

Os resultados eleitorais foram rápidos e serenos. Ninguém pôde ou pode questionar a liberdade, o rigor das eleições e a verdade dos resultados finais.
Tudo foi quase perfeito e a Guiné é hoje um Estado de Direito aos olhos do Mundo.

Este sim, o verdadeiro espírito da Lusofonia e a entreajuda que deve nortear o caminho político da CPLP…
E será a Díli a receber no próximo dia 23 de Julho a cimeira da CPLP, que o Governo de Timor prepara com dedicação, afinco e entusiasmo.

Tudo isto que parece ter passado ao lado da opinião pública e publicada, mas em Timor e na Guiné, foram escritas páginas de história que ambos os Povos merecem e das quais se devem orgulhar.

Parabéns ao Povo da Guiné!
Parabéns a Tomás Cabral

Parabéns a Xanana!

 António Rodrigues

 

 

 

sábado, 28 de junho de 2014

A nossa Língua


Faz hoje anos que começámos a falar português.
Faz hoje 800 anos que começámos a ter uma alma enquanto Povo e que iniciámos o processo fundamental da nossa identidade histórica.
Faz hoje anos que alguém pensou no futuro e sentiu que havia uma Nação.

Uma Nação que falaria português por muitos e muitos anos. Foi D. Afonso II que assumiu este futuro e, diga-se, não há muitas nações que saibam exactamente o dia em que nasceu a sua própria língua.

Pois nós sabemos!

A língua de Camões falada em quase todo o mundo.
É no Brasil, que por consequência directa das invasões francesas em Portugal, ela melhor, mais rápido e eficazmente se implantou, com aquele sotaquezinho tão próprio e sensual dos brasileiros.

É na África quente de terra vermelha, entre crioulos e vernáculos locais, que a nossa língua é ponte para o mundo multicultural e multirracial, orgulho para quem de peito aberto se afirma luso pela língua. Essa África mítica de sonhos e anseios, onde Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde, se sentem irmãos pela língua, e com ela e também por causa dela, vivem o futuro com esperança. África, essa crioula voz que adocica a língua e nos aquece a alma.

E Timor? Timor lá do outro lado do planeta, onde muitos, mas muitos, foram assassinados por falarem português e que hoje lutam para que o português seja também elemento determinante para o seu desenvolvimento e afirmação no contexto das nações. E se a nossa língua tão bem convive com o tétum…tão bem…

E Macau e Goa onde ainda há vestígios da nossa alma?…
Onde se fala o português e ver televisão portuguesa é orgulho e referência para muitos…

E em Malaca, onde ainda se fala e reza com o velho português…lá no bairro de S. Pedro…
Eis a nossa língua, alma que a Lusa Expansão Marítima deixou um pouco por todo o mundo.

Faz hoje 800 anos que começámos a falar português.
E há que ter orgulho por falarmos português e ainda mais orgulho de muitos outros países o fazerem. Há que perder os complexos e traumas neocolonialistas e assumirmos que é também nestas e com estas nações, que poderemos sonhar com um futuro ainda mais solidário e próspero para todos os qua falam, como agora escrevo.

Perdemos no futebol onde jogou uma equipa de 11, mas ainda ninguém falou que ganhámos na promoção da língua que o Brasil fala e que em todo o mundo é abraçada por mais de 244 milhões de almas.
O futebol não é a nossa pátria.

“A minha pátria é a Língua Portuguesa”… disse Pessoa… olhando o mundo, ele teria dito
“a nossa pátria é a língua portuguesa.”

Eis o testamento de D. Afonso II, o Gordo! O do conteúdo e o da forma!

Que orgulho!

António Rodrigues

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Os Silêncios de Pedro


O Pedro Lobo Antunes morreu depressa.
Em época de Natal… sem avisar e deixando na família e nos amigos uma o
nda de dor e de choque.
Para além do desgosto da partida, senti o coração apertado porque estava em falta com ele.
Foi meu Vereador durante oito anos.
Há muito que tínhamos em atraso, conversas e temas para ajustar e pôr em ordem… Pensava um dia ter o tempo e a oportunidade para esse tipo de diálogo. Que era fundamental existir. Na altura, bastavam-nos as nossas trocas de mensagens durante os jogos do Benfica, que cada um via na sua casa… era o nosso silencioso elo de amizade.  
No dia do seu funeral saí de Lisboa também incomodado por nunca ter arranjado tempo falar com o Pedro.
Já não havia nada a fazer… pensei. Nunca temos tempo para nada… vamos adiando…fica sempre para amanhã! Por isso suportei o peso na consciência.
Ainda assim, no dia do funeral, disse ao seu filho Daniel que um dia gostaria de ter uma conversa com ele. Para desabafar! Para compensar o incompensável!
Mas porque havia de falar eu com o Daniel se só o tinha visto três ou quatro vezes?
O tempo foi passando e sempre em mim a vontade de escrever algo sobre o Pedro. Mas algo que fizesse profundo sentido. Ele que não era nada de banalidades e de loas ao desbarato, não aceitaria qualquer tipo de desabafo sem sentido. Fui adiando o texto, tal como as conversas com ele.
Tive que vir a Cabo Verde.
A data nem estava para ser esta. Afinal estamos na semana da Páscoa e Cabo Verde, de tantos turistas, tem as ilhas cheias até ao mar. Hesitei muito mas, mesmo em cima da hora, decidi e vim. E cá estou!
Por sua vez, o Daniel, que fala em silêncio com o seu pai, um dia descobriu num dos blusões do Pedro, um canhoto de um bilhete de viagem feita a Cabo Verde, precisamente comigo. Já lá vão uns anos. E o Daniel, que na altura estava para fazer uma viagem, interpretou o óbvio. O meu pai está a convidar-me a visitar Cabo Verde, terra de que tanto gostava. O Daniel hesitou mas acabou por marcar a viagem. É um dos muitos que em férias enche o arquipélago crioulo.
Cheguei a Cabo Verde no domingo de madrugada e, claro, fui para o hotel.
O Daniel, chegou a Cabo Verde no domingo de madrugada e, claro, foi para o Hotel.
Na manhã de domingo, ao pequeno-almoço, o Pedro pregou-nos uma partida…
Eu, que raras vezes via o Daniel, e que nunca desde que venho a este país, tinha ficado alojado neste hotel, julguei ser ele que estava ali. 
Estava só, numa das mesas do restaurante.
Olha que está ali um sósia de um dos filhos do Pedro; já nem me lembrava do nome dele. Isto da idade é uma chatice para guardar nomes…
Fixámo-nos nos olhos (os dele, são muito bonitos) e foi arrepiante percebermos quem éramos.
Porquê aqui? Perguntei. Estou numa de homenagem a meu pai, respondeu. Foi quando soube da história do canhoto do bilhete e do porquê da sua vinda a Cabo Verde.
E conversámos e conversámos.
Almoçámos e jantámos.
E falei com o Daniel o que não tinha falado com o Pedro.
Com o Daniel “ajustei as contas” que tinha com o seu pai.
Fiquei com a consciência mais leve.
Indiquei-lhe os locais que o pai adorava ver em Sto. Antão. Enquanto o Daniel passeia pelo Tarrafal, que visitei pela primeira vez com o Pedro, escrevo estas palavras para, de Cabo Verde, homenagear o meu Amigo Pedro Lobo Antunes.
Que admirei e cuja amizade é perene, agora continuada com o filho. E fizemos um pacto de amizade, qual trespasse do pai… Passaremos a trocar mensagens aquando dos jogos do Benfica… e a estreia será já no domingo quando as águias voarem a glória de campeãs.
O Daniel, dos três filhos, é o único que nasceu em Torres Novas, terra que o pai adorava.
Tantas coincidências, não são?
Obrigado Pedro por nos ter marcado as viagens.
O Pedro era assim! Falava muito e bem nos silêncios…
E nos silêncios continua a falar!…
 
António Rodrigues
15 de Abril de 2014
Cidade da Praia – Cabo Verde
 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Sta. Cruz - da matança à esperança

 
 
22 de Novembro de 1991.
O dia que marcou a viragem da resistência timorense à selvática ocupação Indonésia.
O dia da matança e da desgraça.
O dia do massacre de Sta. Cruz.

Até então, a resistência tinha vivido tempos de alguma inércia, fruto também do esquecimento a que diplomacia internacional votou o Povo Maubere, incluindo a portuguesa. Aqui, há que lembrar,  que muitos políticos de então (daqueles tempos, como dizem os timorenses) e que hoje estão no exercício do poder, afirmavam sem pudor que a luta do Povo timorense era uma causa definitivamente arrumada.
E perdida.
Os mesmos que mais tarde, a reboque dos acontecimentos de Díli, voltariam ao terreno da diplomacia com mais força e empenho.
E foi precisamente por causa do justificado cancelamento de uma visita a Timor de uma delegação do Parlamento português, que tudo começou.
O Comité Executivo da Resistência havia preparado de forma estruturada, com entusiasmo e com inusitada envolvência nacional, a sua recepção aos portugueses.
E organizaram-se para que o mundo pudesse entender não só o sofrimento do povo, como ainda a dimensão da revolta e do seu protesto.
Foi o desalento e a tristeza absoluta a ausência da delegação.
Mais tarde, a 28 de Outubro de 1991, na igreja de Motael, os jovens, aproveitando a dinâmica e a movimentação criada para a recepção da lusa delegação, refugiam-se na igreja em sinal de protesto; frágil sinal da revolta de todo um Povo em sofrimento, preso e humilhado na sua própria terra...

A 28 de Outubro, os militares indonésios não perdoam a provocação e invadem a igreja, expulsando os jovens. E mataram UM.
"Só UM"
O jovem Sebastião Gomes.
 
Na missa do seu funeral D. Ximenes, o Bispo, clamou a sua revolta e, mais uma vez, reclamou a intervenção do mundo para salvar o povo de Timor. O funeral de Sebastião atraiu milhares e milhares de timorenses que misturavam as lágrimas da revolta, com as lágrimas da dor.

Sebastião teve como todos os cristãos, o direito à missa do sétimo dia.
Mas, em Timor, também há a missa dos quinze dias, para a deposição das flores na campa do falecido. Momento particular do afecto de toda a população, dado que a do sétimo dia, é mais dedicada à família de quem partiu.
A resistência, atenta e ainda frustrada pela ausência dos parlamentares portugueses, aproveitou a manifestação de dor que se expressa na deposição das flores, para organizar um enorme sinal de protesto para o mundo. Estariam, no entanto, longe de sonhar, que seria aquele o primeiro dia do resto das suas vidas...

Foi na madruga de 11 de Novembro que afincadamente preparam a manifestação das flores, conseguindo em poucas horas, a mobilização de milhares para o dia que viria a ser o da viragem para o Povo de Timor.
 
Eram tempos especiais, aqueles que o mundo vivia.

Gorbatchov dava alma à Perestroika, o muro de Berlim havia caído em 1989 e, também por via de tudo isso, as interacções geoestratégicas sofrem mutações em todo o mundo... Timor encontrou aqui um espaço para a luta diplomática que antes não havia, num tempo de troca das ditaduras pelas democracias, incluindo a Indonésia. Parecia que tudo se conjugava. 

Naquela manhã do dia 12, o Povo juntou-se em Motael. Sempre Motael…
Celebrou a Missa o actual Bispo de Díli, D. Ricardo. Sebastião foi por todos chorado e homenageado. Mas havia flores, milhares de flores, para depor na sua humilde campa no agora mítico cemitério de Sta. Cruz... E o Povo, aos milhares, com cartazes de protesto, seguia até ao cemitério. E um deles dizia "venham deputados portugueses, não tenhais medo porque o sangue é nosso" 

Eis aqui o porquê da simbologia de tão trágico quanto promissor acontecimento.
Já dentro do cemitério, acontece um dos maiores símbolos da barbárie a que homem jamais deveria assistir, quanto mais permitir.  A campa de Sebastião fica mesmo lá no fundo do grande campo dos mortos. Entraram milhares para depor as flores, mas muitos por lá ficaram, chacinados à "queima-roupa" pelas armas dos militares da ditadura indonésia. Muitos outros, os feridos, incapazes de fugirem, eram assistidos entre as campas...para mais tarde morrerem com os banhos de creolina "à falta de outros medicamentos no hospital".

Foi o drama que o mundo viu, sentiu e chorou.
Em Portugal a emoção foi ainda maior, pois vimos gente de outro lado do mundo que morria, enquanto outros rezavam o terço a Nossa Senhora de Fátima, a Mãe de todos os timorenses. E rezavam em Português...

O padre Felgueiras, entre outros, correu ao cemitério de estola ao pescoço e de bíblia na mão, para abençoar os falecidos e clamar pelo fim da desgraça. Cá fora, os camiões carregavam os corpos deixando um mar de sangue, das centenas de filhas e filhos de Timor, que lutavam pela paz e pela liberdade. E que morreram, na flor das suas vidas, levando com eles os sonhos da liberdade e do amor a uma pátria martirizada.

Não fora Max Stahl, jornalista, e o mundo de nada saberia. Filmou e escondeu junto a uma campa, a cassete do sacrifício,  que acabaria por se tornar na cassete da esperança.

O mundo acordou e olhou para Timor.
Tudo passou a ser diferente.
 
Timor hoje é independente e hoje comemorou o 12 de Novembro.
Onde estive.
Onde me emocionei.
Onde chorei.
Nada de mais, perante as lágrimas e o sofrimento, daqueles que naquele mesmo espaço, perderam centenas de entes queridos.
 
 
Nota - Portugal, mais tarde, em 1992, teria um gesto de verdadeira solidariedade para com o Povo timorense, que reforçou de forma incomensurável o entusiasmo da resistência, muito em particular a dos mais jovens. A coragem de Rui Marques, de Ramalho Eanes e de Rui Correia, entre muitos que zarparam de Lisboa, no barco Lusitânia Expresso, para depor flores no local do massacre de Sebastião. Não pisaram terra e as flores lançadas ao mar, mas o gesto ainda hoje é recordado com emoção e gratidão, na terra do sol nascente, onde os portugueses chegaram entre 1512 e 1514…
 
António Rodrigues
Em Díli