A mais pequenina

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Princesa

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

AVE MARIA

Neste final de ano, quiçá dos mais complicados da nossa história recente, e precisamente porque ainda nem sequer começou o de 2011, que parece não trazer nada de melhor, deixo a quem tem tido a paciência de me ler, os votos de Boas Festas e, dentro do possível, um bom Ano Novo. (Nunca este voto foi tão paradoxo!)

As coisas não estão bem neste Portugal feito de uma História riquíssima e que teimamos em não ensinar aos nossos filhos de uma forma mais profunda. Mas é por causa dela que sinto que daremos a volta por cima.

Que seremos capazes.

Mas sinto e sei – todos sabemos – que há muitos que sofrem e choram.


E o drama aumenta e adensa-se porque não conseguimos o milagre de a todos acorrer. De a todos ajudar.


Fica a intenção.

E algo que se vai fazendo.


E a vontade de estendermos a mão sempre que possível.


E o coração a quem precisa de uma palavra amiga.


Para todos os amigos que por aqui passam deixo a serenidade e a paz de uma Avé-Maria cantada às “ordens de André Rieu”.


Não é preciso acreditar para se ouvir e sentir a mensagem.


Não é preciso acreditar para juntos todos fazermos algo de bom pelo outro.


Mas é bom acreditar



António Rodrigues







sábado, 18 de dezembro de 2010

Kika e o escritor de sonhos

Era uma vez uma andorinha que vivia muito feliz com as suas irmãs e amigas.

Ela gostava muito de voar! Ora fazia piruetas no ar, ora voava rentinho ao chão, para logo a seguir subir, bem lá para cima, parecendo que queria voar até ao céu...

Voava com as suas quatro irmãs. Todas tinham nascido num ninho feito de barro,

debaixo do telhado de uma pequena capoeira, no quintal de uma casa.

Ah, como ela gostava de brincar!


Voava baixinho, junto do galo, das galinhas e dos patos, que ocupavam todo o quintal, e cantava para eles… Todas as andorinhas por ali andavam a chilrear, durante todo o dia, alimentando-se dos insectos que apareciam à volta dos patos e das capoeiras.


As andorinhas ouviam muitos avisos da mãe e do pai… Estes, preocupados, passavam o dia ao seu lado, voando, chilreando e ralhando:


− Tenham cuidado! Tenham juízo! Não voem tão depressa! Ainda se podem magoar e partir uma asa...


No quintal, os donos da casa, faziam uma grande festa quando por lá aparecia a Kika. E que festa! Eram os avós babados de uma neta bonita que mal sabia andar, tal como as andorinhas, que voavam há tão pouco tempo...

A pequenita, a tentar equilibrar-se no seu andar, passava o tempo a brincar com os patinhos e com as andorinhas.

De vez em quando, a Kika levantava os braços no ar, tentando agarrar as andorinhas...

E estas, que também queriam brincar com ela, voavam tão perto da sua cabecita que quase paravam em cima dela.

Estávamos em plena Primavera e a alegria abundava naquele quintal, onde as macieiras e as pereiras se enchiam de flores e de muitas abelhas, suspensas sobre as pétalas em busca do pólen... A andorinha, que por ali passeava e brincava, quase poisava nas mãos da menina.

Até parecia que parava em pleno voo…


− Olá passarinho! Como te chamas? − Perguntava a Kika à andorinha que, chilreando, lhe respondia:

− Sou a Teté, e tu?

− Eu sou a Kika.

E sempre que a Kika vinha ao quintal dos avós, havia alegria e festa, para os avós e para as andorinhas…


Os dias longos e quentes iam dando lugar aos dias mais curtos…

O Verão estava a acabar e, com os últimos dias de calor, também as andorinhas partiam. A Kika perguntava, e voltava a perguntar, pelos passarinhos, e chorava pela ausência das amiguinhas. As andorinhas voaram para longe, muito longe… Voaram, e voaram, passaram dias e dias sempre a voar…


Voaram pelos campos, pelas cidades, atravessaram o oceano e o deserto.

Iam para sul, à procura de calor e alimento, queriam chegar a África.


Cansadas de atravessar o vasto oceano, chegaram a Cabo Verde, poisaram nas montanhas íngremes de Santo Antão, uma ilha perdida no azul do mar...

O bando descansou, então, numa frondosa árvore, muito verde, com folhas grandes e frutos que pareciam melões, a fruta-pão.

Eram tantas as montanhas, tantas, tantas, que as andorinhas conseguiam vê-las do alto daquela árvore enorme…

As andorinhas voaram para o telhado de uma igreja, que tinha à sua volta muitas casinhas, com telhado de colmo. De algumas delas saía fumo.

Os meninos brincavam por ali, corriam atrás de uma bola e faziam muito barulho.


Parecia que estavam no recreio da escola. Corriam e corriam, com o cabelito muito curto e encarapinhado, tom de pele escura, muito bonitos, alguns de olhos azuis…

Nas escadas da igreja, estava um menino, muito triste que não brincava, olhava em redor e via os colegas a correr e a brincar... A andorinha Teté observava-o intrigada.

Saltitou para o chão e ficou ali parada, pertinho dele.

− Olá, eu sou a andorinha Teté! E tu, como te chamas?

− Eu sou o Joca. Respondeu tristemente

− Sabes, Teté, os meus amigos estão muito felizes a jogar à bola, mas eu sonho ser escritor. Passo aqui horas e horas, sentado, a imaginar histórias tão bonitas… Mas, à noite, quando a mãe me chama para dormir, já me esqueci do princípio da história, por isso todos se riem de mim… Dizem que sem princípio a história não faz sentido… O que eu mais queria, Teté, era ter um lápis. Assim, já podia escrever a história, do princípio ao fim, e todos acreditariam em mim.

− Eu acho que posso ajudar-te, Joca, mas tens de ser paciente e esperar uns meses…

− Eu nasci em Portugal, numa cidade chamada Torres Novas. Na casa onde eu nasci há uma menina, a Kika, que é minha amiga… Ela ainda não sabe, mas, no próximo ano, vou voltar a casa dela. A Kika tem muitos lápis, faz muitos desenhos, alguns de andorinhas… Quando eu regressar, vou-lhe contar a tua história e pedir-lhe um lápis para te oferecer. Não fiques triste, para o ano a tua história vai ser conhecida por todos. Vais escrevê-la com o lápis que a Kika te vai mandar...

O tempo passou e as andorinhas regressaram a Portugal.

Teté volta ao quintal onde nasceu e reencontra a Kika. Os olhos da menina brilham de alegria… Kika, mais crescida, continua a entusiasmar-se com as andorinhas, entretém-se com elas, gesticulando e falando.

Teté conta a Kika a história do Joca, o amigo cabo-verdiano, que aguarda ansioso o seu regresso. As duas amigas não perdem tempo: a Kika ajuda a andorinha a levantar voo com o lápis no bico. A tarefa não era nada fácil.

As duas davam grandes gargalhadas, enquanto o lápis caía no chão vezes sem conta, mas ambas sabiam que acabariam por conseguir…

Tanto treinaram que, no final da Primavera, quando Teté partiu em direcção à ilha,


Levava no bico o lápis da Kika.


Foi com grande esforço que a andorinha Teté manteve o lápis no bico durante a longa viagem. Mas, a Teté era muito corajosa e amiga do seu amigo. Por isso, nunca desistiu.


Joca, de lápis na mão, escreve a sua história, acompanhado pelo rápido compasso da dança, marcado pelos saltitos da Teté. O Joca nunca mais parou de escrever histórias. Hoje, todos o conhecem pelo nome de Joca, o escritor de sonhos.

A partir de então, todas as Primaveras, a Teté regressa a Torres Novas com histórias vindas de Cabo Verde.


A Kika lê com atenção todas as histórias trazidas pela Teté e imagina a vida daqueles meninos que têm sonhos tão grandes que não cabem naquela pequena ilha…


E foi assim, da amizade entre uma criança e uma andorinha, que nasceu a cooperação entre as pessoas de Torres Novas e as de Cabo Verde.


Um sonho que se transformou em história, uma história escrita a lápis, símbolo da esperança e do amor que existe no coração dos amigos.


António Rodrigues
Livro lançado a 20 de Novembro de 2010
Com ilustrações de Alexandra Sirgado

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Diáspora - a nossa e a dos outros

É sabido que em Portugal sempre se viveu e conviveu com o fenómeno social a que chamamos emigração. E é importante abordar e analisar a nossa emigração para melhor compreendermos a imigração que hoje se regista.

É bom sentir o que fomos, num dado contexto da nossa história, para melhor percebermos esse outro contexto da nossa contemporaneidade em que Portugal também se torna país de acolhimento.


Durante séculos Portugal foi um país em sangria constante, expedindo os seus cidadãos pelo mundo fora, consequência da sua pobreza e, paradoxalmente, da sua grandeza. Para muitos dos nossos historiadores Portugal adormeceu, anestesiado pelo viço de um comércio que prosperou em grande escala e rapidez ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, acabando, talvez por isso, reduzindo o nosso empreendedorismo. No enquadramento político e social daqueles tempos percebe-se hoje, e bem, porque nos atrasámos face a uma Europa que, paulatinamente, se foi afirmando e desenvolvendo a uma outra velocidade, e de tal modo que no arranque da revolução industrial, ainda Portugal se limitava a colher os últimos resquícios das riquezas naturais oriundas das Áfricas, Oriente e Brasil.


E é justamente o Brasil o primeiro destino do nosso primeiro grande surto de emigração. Ainda antes de um Brasil independente, tivemos intensos fluxos migratórios com aquela que era, então, a mais activa e importante colónia portuguesa. Desde logo com toda a vasta comitiva que acompanhou a Corte no seu movimento de fuga, perante as invasões francesas, opção que muitos estudiosos vêm apontando como estratégia inteligente que garantiu a salvaguarda da independência do reino. Uma deslocação massiva das elites nacionais que moldou a face do Brasil, proporcionando-lhe uma centralidade nunca antes auferida. Foi esse processo que, após o retorno da Corte a Portugal e a subsequente independência da colónia, daria lugar a um forte desenvolvimento económico, social e político, ao qual corresponderia o auge da emigração portuguesa já em princípios do séc. XX, mais concretamente entre 1900 e 1930, em busca das novas oportunidades desse “novo mundo”, por oposição à pobreza e à instabilidade vivida em Portugal e um pouco por toda a Europa.


Fruto dos novos cuidados médicos, destacando-se a vacinação e as inovações nos processos de higiene, a Europa duplicou a sua população entre o séc. XIX e princípios do XX. O continente americano, a sul ou a norte, foi o grande receptor desta fortíssima onda migratória, ímpar na história da Humanidade. O “velho mundo” dava vida e impulso ao “novo mundo”.

Já na segunda metade da última centúria são a França, a Alemanha e a Suíça que surgem como o grande destino para os nossos emigrantes, havendo umas boas centenas de milhar que optaram por viver em Angola e Moçambique.


Depois desta autêntica síntese, de uma síntese do nosso historial migratório, será fácil perceber que é rara a família portuguesa que não tenha no seu seio elementos que foram ou ainda são emigrantes.

Ora, este pormenor é determinante para melhor percebermos toda a nossa postura face à vaga migratória que, após a concessão da independência às ex-colónias, e, mais intensamente, desde finais da década de noventa, atinge o nosso país, muito em especial a imigração oriunda dos recém libertados países de leste. Com efeito, sem esquecermos o verdadeiro fenómeno migratório do pós 25 de Abril, que caracterizou a vinda dos ditos “retornados” das ex-colónias (que muitos apontam serem na ordem dos 800 mil, embora oficialmente os números se fixem pelo meio milhão), são os naturais desses países africanos que, apesar da independência, vêm optando por viver em Portugal, perseguindo os seus sonhos em busca de maior qualidade de vida, ou por aqui passando, qual plataforma de porta aberta ao mundo.

Somos, pois, um povo habituado à dor de ver partir, um povo de diáspora, mas também habituado a receber e a acolher quem vê em nós, muitas vezes, a miragem da sua felicidade.

Somos portugueses!


Recebemos bem!.



sábado, 4 de dezembro de 2010

E a revolta dos Injustiçados?


Começa a cheirar muito mal todo o tipo de incoerências e de injustiças a que o país assiste… impunemente, assim parece.

Já não basta aquelas que aparentemente são incontornáveis ou pelos menos de resolução difícil, quanto mais aquelas que são fruto da incompetência, do oportunismo e do “xico-espertismo” de alguns políticos.

Não percebo e sinto até alguma revolta, em como foi possível que o grupo parlamentar do PS tivesse aceitado e votado essa escandalosa isenção de impostos a aplicar aos dividendos antecipados da PT, Portucel, Jerónimo Martins, entre outras. E com essa postura, ao que parece, terá arrastado a posição do PSD que, diga-se, também não fica nada bem na fotografia.

Então, a lei só se aplica a alguns?

A crise não é para ser suportada por todos de forma equitativa?

E a coerência da matriz identitária do PS?

Se ela não é bandeira em tempo de crise, então, quando o será?

Onde pára a veia humanista do PS?

E nem quero acreditar que a posição socialista tenha a ver com a proveniência da proposta. Não me parece que ela tenha perdido oportunidade e justiça social, só porque proveniente da CDU...

Mas esta situação gera outra ainda mais grave e que esmaga por completo aquela que já por si é miserável e nula: a imagem e a liberdade da acção política dos deputados, diga-se, que generalizada a todo o parlamento. Quando nestes assuntos tão sérios e profundos, que colidem com os princípios e a génese política de alguém supostamente militante partidário, eleito precisamente com base nesses princípios e, na hora da verdade, tem que os ignorar e, mais do que isso, votar contra a sua vontade em detrimento da vontade das cúpulas, há que perguntar: para que serve o parlamento? Para que serve votar?

Para ratificar a vontade das cúpulas e chefias?

Para que servem os partidos e os seus militantes?

Para eleger lideres e depois ser-lhes subserviente, andar com eles ao colo e ser escravo das suas vontades?

Eis a deturpação de toda a lógica da representatividade democrática.

Uhm! Isto não está bem! E cheira mal!

Não há nesta decisão qualquer equidade e justiça social e ainda sobeja humilhação para um parlamento, que o é cada vez menos, em particular para alguns grupos parlamentares…

A uns, aumentam-se impostos, corta-se nos vencimentos e anulam-se subsídios que agravam dramas e pobrezas. A outros, perdoam-se impostos…

Como se não bastasse, aparece agora um gesto de puro xico-espertismo do Dr. César dos Açores, que quer evitar que o arquipélago sinta na pele o que os do continente são obrigados a suportar… a crise que a todos deveria afectar. E quer fazer compensações aos ilhéus, nos cortes dos vencimentos e quejandos. Anda gente preocupada com a constitucionalidade da decisão. Que estupidez!

Então?

Se for constitucional, a atitude do homem dos Açores passa a ser eticamente correcta e moralmente aceite?

E, já agora, como apontam César como um dos eventuais candidatos a sucessor de Sócrates, por mim fiquei esclarecido. Com este tipo de atitudes, dispenso-o.

Pois, se fosse o imprevisível Jardim a lançar esta ideia, cairia o carmo e a trindade. E não basta a preocupação de Cavaco e Sócrates. É pouco! Terão que fazer muito mais, se tiverem coragem e autoridade.

E é esta que cada vez mais está ausente neste país e que, por ausência dela, nos arrastam cada vez mais para o fosso.

A mesma autoridade ou falta dela, que caracteriza essa vergonha nacional, de termos gestores em empresas públicas, quais vacas sagradas de iluminação celestial, que ganham num mês, mais do que o Presidente da República aufere em anos. Ainda há dias, uma entrevistadora da RTP, entrevistava o primeiro ministro de Portugal. Eis um bom exemplo da vergonha e do destempero a que chegou a justiça salarial que caracteriza a aplicação dos dinheiros públicos! Ou falta dela... A entrevistadora ganha o triplo do entrevistado. E, com o sim político e a assinatura do entrevistado, que só este ano transferiu 200 milhões de euros para a RTP.

Dinheiro dos nossos impostos.

Como conseguem sobrevir os canais privados? É a pergunta que apetece.

Tudo isto e muito mais que não foi aqui referido, prova que isto ainda não bateu no fundo. Ainda há muita gente a brincar com coisas muito sérias… e a brincar com o sofrimento de milhares de pessoas que, por mero acaso, também são portugueses.

Até que o Povo, o tal que elege deputados que acabam por não o ser, transforme em acções concretas a revolta que lhes vai na alma. E, infelizmente, esta não é uma expressão de retórica, que até poderá ficar bem no fim de um texto.

Não!

É o risco que se corre.

E um texto que gostaria de não ter escrito.

António Rodrigues

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A hora di bai de Nhô Domingos



O Mar de Canal, pontual como sempre, partiu rumo ao porto de Porto Novo.

Para trás vislumbramos a linda baía do Mindelo, de mar sempre sereno, com os barcos e os botes ancorados que parecem sempre duplicados, tal o reflexo perfeito na água. Linda e azul como sempre. No mar e no céu.

E o barco galga as ondas, por vezes de um azul muito escuro, sempre potentes e gigantes, e que cospem água por força das ventanias. É um sobe e desce, consoante a onda, e, quando desce, mais parece que vai direito ao fundo do mar profundo.

Mas não!

Empertiga-se e, por vezes inclinado, volta a ter força para emergir na coroa da onda… É assim esta sensação de sobe desce. Ora parece que vai para as profundezas do inferno, ora parece que vai ao céu…

E a água, a tal que é cuspida pela força dos alísios, enxagua-nos a face e faz-nos sentir que somos mais um a ter que lutar contra ventos e marés, para que o destino depressa chegue.

Há um silêncio absoluto no magote de crioulos que enchem o barco. E, no bar, o espírito é o mesmo. Onde antes imperava a anedota fácil, a história rápida ou o piropo às meninas que nos servem o melhor café de todo o Mindelo, o ambiente é pesado.

Nhô Domingos não resistiu à queda da cama.

O colo do fémur partido e as suas consequências, associados aos seus 92 anos, ditaram o fim.

Sereno e atento até aos últimos instantes, partiu com a dignidade e a dimensão dos Grandes. Os tais que, sendo Grandes, passam ao lado dos grandes.

Cá em baixo, no porão do barco, com as cautelas e o respeito devido, Nhô Domingos dorme o sono eterno e faz a sua derradeira viagem para Coculi.

Este é o canal que ele já não vê!

O mesmo que ele em vida atravessou, altas horas da madrugada, fugindo às leis injustas de Salazar. Também ele, num bote minúsculo, subiu e desceu as ondas gigantes, enquanto em Coculi se rezava para que voltasse são e salvo. Os mesmos que hoje rezam pela sua eternidade. Para que nos céus se faça justiça.

No ar, gaivotas sobrevoam e acompanham o Mar de Canal.

Na água, peixes voadores surgem do azul das ondas, voam e mergulham mais à frente… Os golfinhos emergem e mergulham num constante entrar e sair de água, que cansa só dever.

Estes, os guardas de honra do Mar de Canal. Estes, os melhores guardiães da última viagem de Nhô Domingos.

No Coculi é grande a tristeza.

O sino da velha igreja, paredes meias com a casa de Nhô Domingos, brame espaçadamente. E deixa no ar um som triste que se espalha pelos vales e inunda o espírito dos viventes. E quando o vento se ajeita e a flor da cana baloiça ao sabor dele, até em Boca de Coruja se ouve o choro do velho e fraco sino…

Aqui e ali ouve-se a criançada. Mas não se vê a criançada…

Ficaram-se pelos pobres quintais onde os mais velhos comentam a hora di bai de Nhô Domingos.

Mas Coculi está sempre bonita.

Sempre!

Mesmo na hora da tristeza!

Vieram de todo o lado.

Da Povoação, da Ponta do Sol, de Fontainhas, do Figueiral, de Boca de Coruja e de Chã de Igreja, entre outras.

O Coculi encheu.

E subiu a montanha rezando pelo falecido, ao som melodioso e penetrante das cordas dos violinos….que arrepiam e choram, tal a destreza e o sentimento que os dedos lhe incutem.

Mais em baixo o terreno da C.A.S.A, que Nhô Domingos não viu construída. Mas que o será, com toda a certeza, para que nela os pobres sejam menos pobres.

E sobe-se. E continua a subir-se.

E, quanto mais se sobe, mais bebemos daquele vento persistente e vislumbramos os cumes de Sto. Antão.

Uma paisagem única.

Uma beleza inaudita.

E chega-se ao Campo-Santo, onde o nosso amigo, para sempre ficará.

No regresso já se sente alguma descompressão.

E já há vozes altercadas na descida compassada.

O que tinha que ser feito, feito está.

Já passou a emoção, a reza e os pêsames que sempre se dão e não se regateiam nestas alturas…

E a família de Nhô Domingos esteve lá. Toda!

Na hora de bai,

Do pai,

Do avô, do bisavô, do irmão, do tio…

Do amigo.

A tarde caiu e a família, agora em casa, continua reunida. A vida passou a ser outra. É a vida! Que se muda de um para outro momento.

É a hora da dor vivida no silêncio, com as memórias que a todos assolam.

Tudo vem à memória.

Tudo!

E o passado, faz-se presente.

Os filhos, alguns, sentam-se junto à igreja, antes que a noite caia.

E falam silêncios, entrecortados com os pequenos goles de grogue.

O Cónego Terças, que mereceu campa rasa, perto da porta de entrada do velho edifício, é testemunha desta homenagem a Nhô Domingos.

Dos filhos que bebem do seu grogue.

Abençoados trapiches que tanta cana espremeram.

Abençoados braços que tudo deram a tantos filhos.

E também os de D. Mariazinha. Que afagaram e trabalharam.

E muito!

Ela, sempre presente, que não se despediu de Nhô Domingos.

Há muitas mulheres assim que, como ela,

jamais de despedem.

Nem do homem, nem dos filhos.

Porque amaram muito.

Amam muito.

Um amor infinito que não tem hora de bai…

Foi assim a hora di bai de Nhô Domingos.

Que descanse em paz.

António Rodrigues

(o autor deste artigo, não esteve lá)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Europa das "europas"


Quando intitulo esta minha pequena divagação pela estratégia da língua, ou se quisermos das línguas, de “Europa das Europas”, faço-o precisamente porque penso que é isso mesmo que hoje temos no contexto da União Europeia. Seremos porventura a maior união política do mundo onde o multilinguismo é respeitado de uma forma clara e objectiva, de tal modo que os seus custos têm quinhão muito expressivo nos orçamentos da União. E é precisamente por isso que as “europas” se dispersam pela Europa, pelo simples facto de ao longo dos séculos se ter construído no continente em que vivemos, a afirmação, a conjugação e a articulação da sua riqueza multilinguística, com tantos países e tantas línguas, inseridos num espaço relativamente pequeno. No passado recente, cada país era uma riqueza e uma identidade tão fechada e tão assente nas suas géneses e tradições, que só os tempos modernos, por força da informação e da queda das fronteiras, permitiram outro tipo de evolução. E de interacção.


Quer queiramos quer não, esta matriz identitária dos povos, é hoje um “puzzle” na Europa unida pela política, mas nunca unida pela língua e muito menos pelos costumes.


E é esta exactamente a sua riqueza… e é neste tabuleiro de diversidades culturais que se jogará o futuro da União, nomeadamente a sua identidade que resultará recauchutada, fruto das políticas de miscigenação politica, cultural e social, com a aplicação e a adesão aos programas Erasmus, Sócrates, Leonardo da Vinci e outros que tais…


Precisamente porque os europeus salvaguardaram à união política a não união linguística, de resto impossível, resulta daqui como que uma disputa de liderança de língua em que o Inglês, o Francês e o Alemão, marcam a dianteira, não necessariamente pelos méritos da língua e muito menos pelas sua representatividade mundial, mas antes por questões estratégicas e de representatividade nacional. E da força do dinheiro…


A Europa respeita a liberdade, a democracia e a diversidade e, nesse contexto, também o multilinguismo é respeitado, de tal modo que lhe criou um marco: o Dia Europeu das Línguas. Assim, reconhece que esta diversidade linguística é um dos pontos de honra da Europa, em que a aprendizagem das línguas é factor de tolerância e de respeito mútuo.


O inglês é hoje, inequivocamente, a língua que, depois da materna, mais se aprende ou ensina, não só na Europa como um pouco por todo o Mundo. Por isso mesmo, se tornou aqui a e acolá numa espécie de “crioulo” tal a dimensão da adulteração da sua génese. Aliás, este tipo de fenómeno levou a que, em Torres Novas, o Professor Adriano Moreira se referisse à língua inglesa como o “Globis” ou o Tradut, algo que resultará de um inglês transversal a todo o fenómeno linguístico universal.


A União aconselha e sugere que para além da língua materna, se aprendam mais duas línguas, o que é mais um reforço da estratégia de tolerância e de respeito pelos valores do diálogo intercultural, que há-de ser, se o não é já, a alma de uma União Europeia rica e desenvolvida, que o futuro há-de atestar.


Portugal, em minha opinião, soube e bem, nos anos 80 e 90 do outro século, defender a manutenção da língua portuguesa nos milhões de emigrantes espalhados pelo continente europeu. Tivemos, por ali dispersos, centenas e centenas de professores a ensinar o português aos filhos dos nossos emigrantes. Um feito que passou despercebido ao comum do cidadão mas que foi determinante para a afirmação e para o respeito do nosso idioma.


E se hoje essa “batalha” está, eventualmente ganha, falta perceber se o português consegue sobreviver num mundo de disputa pela utilização e afirmação das línguas, numa Europa prenhe de diversidades linguísticas em que adicionamos às línguas oficias e indígenas, todo o manancial de expressão oral oriundo de outros continentes, muito em particular de África e de Ásia. Falantes que hoje inundam a União Europeia em busca de melhores dias.


Abençoada expansão marítima portuguesa que permitiu a divulgação e também a expansão da nossa língua um pouco por todo o mundo. Se tal não tivesse acontecido e se hoje não fossemos 240 milhões a falar a língua de Camões, os riscos próprios da língua de um país pequeno e periférico da Europa, seriam enormes e o seu futuro muito comprometido.


Quando um intelecto com a dimensão de Adriano Moreira, afirma sem pejo, que dentro de 20 anos a língua italiana, “mãe” de um país rico e nesse contexto nada comparado com Portugal, poderá estar em risco de acabar, o que seria do português se só fosse falado no nosso rectângulo ibérico?


Abençoado Vasco da Gama, Cabral e quejandos.


António Rodrigues

sábado, 13 de novembro de 2010

O outro


Escreve Boaventura de Sousa Santos:

“É na medida em que o multiculturalismo como descrição das diferenças culturais e dos modos da sua inter-relação se sobrepõe o multiculturalismo como projecto político de celebração ou reconhecimento dessas diferenças que ele tem suscitado criticas e controvérsias, vindas tanto de sectores conservadores como de diferentes correntes progressistas da esquerda”

O sociólogo tenta enquadrar numa óptima de linguagem ou interpretação política, o conceito do multiculturalismo, criando de certo modo a dicotomia direita/esquerda, para separar as águas comportamentais das reacções das sociedades ditas modernas face a este moderno fenómeno que atinge os estados nações. Arrisco-me, e de que maneira, a discordar deste raciocínio. Esta questão de aplicar o conservadorismo e a esquerda na apreciação ao comportamento social de determinada sociedade face a coexistência de diversas culturas num mesmo espaço, não me soa bem.

Por um lado, porque hoje, também devido à globalização, é mais do que óbvio questionar o conceito de esquerda e de direita, e, por outro, porque esses conceitos, estiveram e estarão sempre mais imbuídos para questões das disputas de interesses de classes antagónicas nas suas vertentes económicos, sociais e políticos, e também, muito em especial, porque estes conceitos são muito, muito anteriores ao fenómeno das migrações tal como hoje as vemos. E, por isso, parece-me desajustado ir por este caminho. Bem sei que há dois ou três séculos atrás, para não recuar ainda mais no tempo da história, também houve mobilidade de grupos e até de povos, mas o espírito de então, em minha opinião, era mais o da conquista, da guerra e da ocupação territorial, do que o espírito pacifista das migrações que estão na base do multiculturalismo.

Comprometer os conservadores por terem uma visão crítica na apreciação ou depreciação que fazem sobre determinada cultura “infiltrada” no seio da sua sociedade, olhando-a com superioridade, tendo muito de verdade, não será exclusivo duma direita, ainda em muitos casos ferida pela perca do império, saudosista do colonialismo e, por isso, ainda marcada pelas agruras da história.

Há por aí muito boa gente que se assume de esquerda nas questões políticas e sociais do seu estado nação, mas que convive mal com outras culturas e outras raças, por uma série de factores intrínsecos a cada um dos intervenientes. Se quisermos analisar tudo isto na óptima da extrema-direita e da extrema-esquerda, aí, inequivocamente que B.S.S. tem toda a razão.

Conviver com outras raças e outras culturas, que nada nos dizem, é muito mais uma questão intrínseca de cada cidadão, que está muito acima de qualquer conceito político de esquerda ou de direita. Sou um defensor consciente dos valores da multiculturalidade e, mais do que isso, de políticas de assimilação que salvaguardem de uma forma clara, a dignidade humana e os direitos da liberdade de cada um dos imigrantes, em que, valha-nos isso, Portugal é exemplo no mundo. Este não me parece um valor de esquerda ou de direita, mas um valor do humanismo em que deveria assentar toda a nossa relação com o outro.

O respeito pela diferença, a compreensão pelos problemas do outro, a cooperação que fizermos e que estiver ao nosso alcance, as portas que abrirmos para que o outro encontre um sorriso e veja que o sol também para ele nasceu, nunca poderá, em minha opinião, ser um conjunto de valores propriedade de nenhuma esquerda ou direita ou de outro qualquer conceito político, muito menos paternalista, antes valores do humanismo e da liberdade.

Quero ainda acreditar que a liberdade e o humanismo, são valores políticos transversais inerentes a todas as filosofias políticas que têm por objectivo melhorar a vida do cidadão e das comunidades em que vivemos.

António Rodrigues

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Um outro e diferente amor


Coculi é um dos recantos mais bonitos que até hoje conheci.

Nem mais nem menos do que meia dúzia de casas entaladas entre si e encravadas na base da montanha, com uma pobre igreja que respiga e emerge de entre os poucos e velhos telhados. Como pano de fundo as soberbas montanhas de Santo Antão, que mais parece multiplicarem-se entre si. Caísse ali neve, e escondêssemos os coqueiros que, altivos, por detrás do casario emergem, e, garantidamente, poderíamos comparar o cenário ao melhor que da Suíça se conhece.

Coculi mira as suas montanhas e, nelas escarpadas, dançam as largas manchas da flor da cana-de-açúcar, com os seus cachos cinzentos, muitas vezes prateados, que marcam uma paisagem tipicamente africana. E marcam-na, ondeando e brilhando sob o sol quente da morabeza. Morabeza que é também calor, encanto e bem acolher…

Sempre o conheci agarrado aos seus trapiches[1]. Numa labuta calma e serena.

Atento e astuto, de carnes secas, pele bem escura e o boné sempre a proteger a cabeça de cabelos ralos, o nosso velhote é uma referência não só nos vales da Ribeira Grande como em toda a ilha.

Referência de trabalho, coragem, verticalidade e pai de grande prole.

Vinte e um! São os filhos! Os seus…

Mas a sua imagem foi sempre marcada pela sua solene altivez e elegância, montando uma mula, a sua mula, que o transportava para todo o lado… E ela, lá parava de quando em vez, para que o montador pudesse cumprimentar o amigo que passa, sempre com um sorriso e com aquele toque na aba do boné, muitas vezes levantando-o em sinal de cumprimento.

E ele está mesmo velhote.

São já noventa e dois anos… de trabalho, de suor e de dedicação.

E com os filhos, os tais vinte e um, sempre a protestar para que não ande mais em cima da mula… muitas vezes adormece em cima dela, e não fora também ela ser velha, manhosa e bem conhecedora do caminho e muitas vezes o nosso amigo teria entrado perigosamente pelos vales dentro.

E, tanto o avisaram, que o aviso passou a ordem. Recentemente!

E o nosso ancião, Domingos de seu nome, passou a andar só a pé. Mas sempre a caminho das suas fazendas, dos seus trapiches, numa labuta, como ele velha e permanente, a mesma que no tempo lhe permitiu, sabe Deus como, dar uma licenciatura a todos os filhos.

Todos!

Incluindo as filhas.

Convém lembrar este pormenor porque Sô Domingos também foi português e do tempo de Salazar. O tal que não dava muita confiança à formação das mulheres.

Mas com Sô Domingos as coisas foram bem diferentes.

E, porque Cabo Verde não tem universidades, os filhos correram o mundo, espalhados por elas e delas regressando de “canudo” na mão. E há por lá engenheiros, arquitectos, médicos, gestores, juristas e até políticos. E todos bem na vida, como ele gosta sempre de lembrar… Com orgulho bem merecido!

Mas Sô Domingos um dia caiu… não da mula, mas da cama!

E, danado, dizia: tanto me proibiram de montar a mula para não cair, que caio da cama!



Partiu o colo do fémur…

E foi de barco para o Mindelo. Para o hospital…



E, assim, rumou o canal de mar alto, o tal que liga Santo Antão a S. Vicente. O mesmo que, cinquenta anos antes, atravessou a altas horas da madrugada dentro de um pequeno bote a remos, perdido na imensidão das ondas e nos medonhos assobios dos ventos alísios, para vender o seu grogue[2]; o tal que Salazar proibia nos termos das leis austeras contra a candonga. Levava grogue para S. Vicente e, no regresso para Sto. Antão, produtos de comércio que escapavam à sua ilha das montanhas.

E lá ficou e lá ainda está. No hospital.

Com dores e impaciência.

Valha-nos o telemóvel, para através dele dar ordens para que os trapiches funcionem e bem.

E, amores de hoje e de antão, os vinte e um filhos estão sempre presentes. Planearam e cumprem. Todas as noites, um dorme no hospital, no quarto do pai.

Revezam-se.

Para que o pai tenha o filho e o amigo presente. Que contam histórias e vasculham a memória até que o sono chegue. E como já está de “molho”, como ele gosta de dizer, há mais de vinte e um dias, os filhos já vão na segunda volta.

E não falham.

E vêm de longe. Onze deles de avião, vêm de Santiago para dormir com o velhote: o pai e amigo.

É assim esta família.

Cá, seria dos tempos idos e antigos. Ultrapassada.

Lá, família dos dias de hoje. Como muitas outras existem.

E, lá como cá, há sempre uma mulher grande nestas famílias.

E ficou para o fim, porque primeira.

Tendo tido onze filhos é “mãe” de vinte e um.

Não a madrasta, mas a mãe. A amiga. Tolerante, disponível e sempre presente.

A D. Mariazinha!

É assim a família crioula.

É assim em Cabo Verde, onde não há lares nem centros-de-dia para hospedar os velhos. Os tais que temos por cá e em profusão cada vez maior. Os tais onde ficam e esperam pelo último dia.

Outro mundo, outra sociedade, outros valores.

Mais atrasados e mais pobres?

Tiremos as ilações!

António Rodrigues



[1] Destilaria artesanal da cana-de-açúcar para produção do grogue

[2] Aguardente de cana-de-açúcar