A mais pequenina

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Princesa

sábado, 6 de dezembro de 2014

Judite e Ronaldo


As televisões portuguesas, por sistema, mostram-nos a miséria, a desgraça e tudo que de negativo temos. Somos assim… gostamos de nos miserabilizar, mais parecendo proibido termos acesso às emoções do que de bom acontece na nossa terra.

 Ontem e hoje foi diferente.

Judite e Ronaldo deram-nos o exemplo de uma carga sentimental genuína, em que se comunga emotivamente a desgraça dela, com o ícone que ele é.

São portugueses que entram na nossa casa todos os dias e que fazem parte do nosso colectivo.

Judite Sousa mostrou a face da dor e, muito em especial, no que a dor profunda é capaz de transformar o sofredor. Com a dor de Judite, percebemos melhor e em directo, a dor de tantas “Judites” que, como ela, sofrem por esse país fora a drama supremo da perca de um filho.

Ela foi corajosa e inspirou.

Ele, o exemplo de quem não tem vergonha das suas origens e faz delas com parcimónia, a referência do seu ponto de partida. É o exemplo do profissionalismo e da exigência com que encara a sua actividade. Por isso é campeão e o melhor. O melhor da Europa e o melhor do Mundo.

Hoje, na TVI percebemos (ou não) a dimensão da vida na diversidade de emoções que ela nos oferece. Ele, no auge da sua carreira e do deslumbre afirmativo e ela, na cova da tristeza profunda. Foi fantástico perceber a ternura solidária da forma em como Ronaldo olhava e respondia a Judite, e arrebatadora a coragem e a força com que aquela mulher encarou o jovem entrevistado.

Este par de Portugueses ensinou o país a melhor perceber os contrastes da vida. A tristeza suprema fruto da desgraça maior, de mão dada com a força da vida, assente na esperança de que tem 29 anos.

Tal como o malogrado filho da jornalista. 

António Rodrigues  

 

O Abraço de Timor à Guiné Bissau

O abraço de Timor Leste à Guiné Bissau, passou despercebido aos Portugueses. E ao mundo político em geral. Mas não ao Povo timorense e, muito menos e em particular, ao guineense.

Porque o abraço foi bom, foi exemplar e, acima de tudo, porque foi uma bofetada para muito boa gente da área política, ele foi calado… ignorado!
Da Guiné estamos habituados a más notícias… de resto, em Portugal, só se divulgam as más notícias. Chafurdamos com o pessimismo e quase nos obrigam a ignorar o que de bom se faz.

Por cá e por lá.
Segundo Xanana, foi um gesto de gratidão para com a Guiné, e Timor enviou para aquele pequeno país, o que de melhor actualmente tem: homens e mulheres do seu povo e, com eles, o que de melhor aprenderam nos 13 anos que levam de independência ou seja, a experiência em processo de recenseamento e actos eleitorais.
Como há dias dizia Luís Amado em entrevista a RR, Xanana instalou uma autêntica Secretaria de Estado em Bissau, com o objectivo de promover todo o processo eleitoral naquele quase abandonado país da CPLP.

Os chamados grandes países “rosnaram” com a ideia e, no silêncio, Timor foi criticado… Dinheiro mal gasto, tudo vai correr mal, vai ser um fracasso… melhor ficassem em Timor… mas Xanana seguiu em frente, mantendo corajosamente o seu gesto solidário para com o sacrificado povo da Guiné Bissau.
Em Bissau, a chefiar as dezenas de técnicos e administrativos timorenses, ficou Tomás Cabral, Secretário de Estado da Descentralização Administrativa, que assumiu a representação do Estado Timorense naquelas terras de áfrica.
E foram oito meses de intenso trabalho e milhões de dólares investidos por Timor neste processo. Com as “máquinas às costas” calcorrearam montes e montanhas e, de aldeia e em aldeia, promoveram o recenseamento e, com ele, a preparação dos actos eleitorais. Com os computadores, as máquinas para emissão dos cartões eleitorais e, com elas, o espirito da solidariedade para com um povo dela bem carente, tudo paulatinamente, foi conseguido. Tudo!

Vieram os actos eleitorais, que poucos acreditavam se desenvolvessem com êxito e sem incidentes.
Foram três eleições: Para o Parlamento guineense e, também, para a Presidência da República, esta com duas “voltas”…

Lemos ou ouvimos notícias? Muito poucas e curtas.
E as que houve, quase sempre ignorando o papel determinante de Timor Leste, que também teve em Ramos Horta o representante oficial da ONU naquele país.
Muitos dos que antes olharam com desconfiança e até desdém, o papel e o contributo de Timor, foram obrigados a vergar e, mais do que isso, a aprender a lição. A lição de dois pequenos países onde há gente grande, de coragem e de saber. E de querer!

Os resultados eleitorais foram rápidos e serenos. Ninguém pôde ou pode questionar a liberdade, o rigor das eleições e a verdade dos resultados finais.
Tudo foi quase perfeito e a Guiné é hoje um Estado de Direito aos olhos do Mundo.
Este sim, o verdadeiro espírito da Lusofonia e a entreajuda que deve nortear o caminho político da CPLP…

E será a Díli a receber no próximo dia 23 de Julho a cimeira da CPLP, que o Governo de Timor prepara com dedicação, afinco e entusiasmo.
Tudo isto que parece ter passado ao lado da opinião pública e publicada, mas em Timor e na Guiné, foram escritas páginas de história que ambos os Povos merecem e das quais se devem orgulhar.

Parabéns ao Povo da Guiné!
Parabéns a Tomás Cabral

Parabéns a Xanana!

António Rodrigues
 

O morcego e o passarinho


É pelo menos incómoda, acima de tudo para quem vive de mais perto as coisas da política partidária e não só, a situação criada com a trapalhada da votação das subvenções vitalícias.
Há que ser coerente!
Num país em que os reformados têm sido espoliados dos seus direitos e os mais jovens são convidados a emigrar na procura de melhor vida, choca que o PS tenha ido neste engodo… e nesta confusão.

Sim, confusão!
Porque a haver razões de equidade e de justiça nesta intenção, então que se explicasse bem o que está em causa e que não se deixasse passar a imagem de, mais uma vez, os políticos só se entenderem quando toca a “coçar para dentro” e a defenderem os seus interesses.
Sim, porque se o PS em questões se interesse nacional, raramente e muito bem, se entendeu com esta maioria que nos desgoverna, ficamos com a boca a saber a jornal quando ele aparece coligado a este adversário neoliberal e o mais desumano do pós  25 de Abril … ainda se estivesse em causa o tal interesse nacional…vai que não vai…  há que explicar melhor… para melhor se perceber.
Como dizia o outro, “passarinho que acompanha morcego amanhece de cabeça para baixo…

Haja pudor!

António Rodrigues

Se isto não é Amor


História verídica, narrada com dificuldade e sem contornos de qualquer tipo de romance.
Setembro de 2014
Aeroporto de  Schiphol de Amesterdão.

Vindo de Timor teria que por ali esperar cinco horas até apanhar avião para Lisboa. Num bar apinhado de gente de todas as raças e origens, sentei-me na única mesa disponível.
Fiquei só e entretido na leitura.
Passados breves momentos, levantei os olhos e percebi que teria companhia.
Um casal aproximou-se.
Surpreendi-me porque a senhora vinha em cadeira de rodas, conduzida pelo companheiro.
Ambos, sem o parecer, terão mais de 70.
E ambos elegantes e bonitos. Ela, apesar de tudo, tem a memória física de uma jovial beleza que o tempo disfarçou, mas não matou.
A senhora tem problemas de saúde e sérios. A sua expressão de profunda tristeza, estampava-se numa cabeça trémula, que deambulava quase descontrolada sobre os ombros magros. Mas elegantes, como toda ela. 
De olhos azuis, por vezes escondidos pelo cabelo louro que desordenadamente lhe caia sobre a face, com a ajuda do companheiro, levantou-se da cadeira. E, nesse instante, o susto foi ainda maior… o desequilíbrio era tal, que parecia que cairia a todo o momento. Dava essa impressão, mas os pés estavam bem colados ao chão e isso era a garantia da sua segurança.

Ficaram ambos à minha frente naquela estreita mesa de madeira. Que não esquecerei e onde voltarei…
Ele levantou-se e sempre com o olho nela, foi ao balcão buscar água.
Dois copos de plástico na mesa. O dela com palhinha.
O esforço que ele fez para lhe conseguir colocar a palhinha. Mas conseguiu e ela, com muita dificuldade, sorveu a frescura da água. Acto contínuo, ela com a cabeça sempre deambulando, estendeu o trémulo braço direito dirigida à face do marido e, com a mão bem aberta, acariciou-a. Ele responde-lhe com um olhar penetrante de “estranha” felicidade, com uns olhos que brilhavam como duas pérolas.

Pediu mais água e ele repetiu o gesto. Ela voltou com a mesma ternura, a mesma mão, o mesmo gesto. Ele sorriu. Ela sorria.
Perguntou-lhe se queria chocolate. Sim, foi a resposta.
Sentado, já com o pequeno chocolate, levou-o à boca e trincou-o. Molhado com a sua saliva, tentou e conseguiu com a ponta dos dedos, colocar-lhe na boca aquele pedacito… percebi o pormenor da saliva… a sua preocupação para que ela não se engasgasse. E ela de imediato lhe agradeceu com a carícia mais linda que se pode imaginar… aquele braço trémulo de novo se esforçou para que ele lhe oferecesse os olhos brilhantes de felicidade. Azuis, como os dela. Louro, como ela. Desta vez, para além da face, também a perna dele mereceu um gesto trémulo, mas lindo.

E os gestos, de ambos, repetiram-se até não haver chocolate.
Passaram-se poucos minutos... o diálogo era pouco (ela tem dificuldade em se expressar) e aconteceu o desagradável…

A senhora teve uma sequência de inesperados espirros e a sua face ficou banhada do ranho que o nariz expulsou… a vergonha foi grande. Corou e conseguiu com as mãos esconder a face bonita…e o resto. Simultaneamente, grossas lágrimas caiam-lhe e misturavam-se com a oferta do nariz. A senhora chorava. E chorava… 
Ele, sereno mas rápido, levantou-se e foi buscar guardanapos de papel.
Com a maior ternura do mundo, de cócoras, limpou-lhe a face e, meigamente, limpou-lhe os olhos e devolveu-lhe a beleza e a memória de outros tempos. Olhou para ela com um grande sorriso, puxou-a a si, abraçou-a e deu-lhe um expressivo beijo naquela testa coberta de cabelo desgrenhado.  

Que beijo aquele… e a senhora voltou a sorrir…
Ajudou-a a levantar-se. Mais uma vez temi que caísse.
De mão dada afastaram-se lentamente.

Não me esquecerei desta cena: a de uma mulher que caminha de tal forma, que mais parece forçadamente puxada pelo companheiro… que se perdeu no meio da multidão do aeroporto de Amesterdão… talvez com destino ao Oriente…
Se isto não é Amor!...   

António Rodrigues

Mindelo – CV – 16.10.2014

sábado, 18 de outubro de 2014

Francisco, o Operário



Morreu Francisco, o Operário.
Morreu Francisco Canais Rocha.

Torres Novas perdeu um grande Homem e um grande Amigo.
Sereno e humilde, foi um vencedor da vida, porque a viveu em plena harmonia e na defesa dos seus ideais. Antifascista movido por princípios, pagou caras as suas convicções e a sua coragem. A ditadura prendeu-o e durante anos o torturou barbaramente. Por causa disso, nunca lhe ouvi expressões de rancor ou revolta. Mas também por causa disso, teve uma saúde frágil, consequência dos tempos da cadeia.

Discreto na vida e na acção, foi assim que fundou uma das mais importantes instituições que Torres Novas viu nascer no Pós 25 de Abril, a ARPE. Foi um perno da instituição, que a todos respeitou e considerou. Nunca para a ARPE reclamou o que quer que fosse e muito menos exigiu “... se a Câmara puder ajudar... se a Câmara puder fazer...” era assim que o ouvia, sempre que com os seus colegas de direcção ia ao meu Gabinete. Quando ainda não há um ano, quase lhe exigiram para protestar porque a sede da instituição tardava em ficar concluída, recusou...não queria fazer política utilizando a ARPE...
E a Sede está lá, “também para ele”.

Canais Rocha tinha raízes crioulas.
O seu pai nasceu na ilha de Sto. Antão, em Cabo Verde, precisamente onde Torres Novas mantém cooperação lusófona. Foi o primeiro Secretário Geral da CGTP. Foi o príncipe do operariado e, também por isso, por muitos era admirado. Que o diga Carvalho da Silva, que muitas vezes vinha à cidade do Almonda para com ele matar saudades dos tempos, em que os tempos eram outros.

Canais Rocha foi sindicalista de referência e grande intelectual, discreto… quase envergonhado. Homem culto e profundo conhecedor da História do séc. XX, em particular a do operariado, Mestre em História Contemporânea, leva consigo conhecimentos e saberes invulgares.
Por deliberação do dia 30 de Setembro de 2003 foi homenageado pela Câmara Municipal de Torres Novas com a Medalha de Mérito Municipal da Cultura, que solenemente lhe foi entregue a 19 de Outubro do mesmo ano, em cerimónia realizada no Castelo da cidade. 

Deste Homem que me deu muitos conselhos e alertas, terei sempre saudades, muito em especial do seu exemplo enquanto cidadão dos pobres.
Que descanse em Paz, meu bom Amigo.

António Rodrigues

 

São garotos, os garotos da nossa desgraça


Assaltaram o poder, a pretexto de não mais impostos e nem pensar em reduzir vencimentos. E sabiam do que falavam, porque conheciam bem a situação económica e financeira do país, disse então o que queria e viria a ser o líder da nossa desgraça. Toda a esquerda (?) dita radical cantou em coro e foi esse coral que nos arrastou para uma das maiores desgovernanças da história do país, porque em coro bem afinado criaram a crise politica que teve as consequências que teve e que continuamos a viver.  
Em 2010, a dívida do país era 94% do PIB… 

E a garotada tomou posse… com pompa e circunstância, sob a presidência deleitada de um semi-moribundo Presidente da República… o tal do bolo-rei, que nunca se engana e que meses antes tinha em discurso solene, dito ao deposto primeiro-ministro, que o país não aguentava mais sacrifícios e mais austeridade…aguenta aguenta, diria mais tarde, sem respeito e sem vergonha, um dos representantes maiores dos mercados e do capital, neste país sem esperança.
E partir daí foi e é o que se sabe.

O maior ataque jamais realizado em Portugal aos que trabalham e que vivem do esforço do seu labor. Um ataque descarado, feito sem vergonha, sem pudor e sem remorsos. Que não chorassem, como aconteceu com a ministra italiana das finanças ao anunciar uma “gota” percentual na redução de alguns vencimentos, ainda vai que não vai… mas, que pelo menos, respeitassem os assaltados. É esta a marca de imagem da gente que nos desgoverna: insensibilidade social e desvergonha, próprio das gentes que vivendo bem, pouco ou nada fizeram na vida. Os tais que não sabem diferenciar uma galinha de um ganso…. Os tais que se assumem neo liberais… um liberalismo selvático que nenhum partido português, acredito que nem o “verdadeiro” PSD, defende.
Começaram pois, os delirantes aumentos dos impostos… sempre ou quase sempre as castigar os mesmos. Começaram as agressões à dignidade dos funcionários públicos, onde se englobam, entre outros, os professores e, mais grave ainda, o desrespeito e a traição a quem trabalhou uma vida inteira e passou a ser, na óptica dessa gente, a escória da sociedade: os pensionistas e os reformados. Os espoliados da esperança, traídos na memória dos tempos suados da vida passada.

E a dívida foi aumentando…

E aumentaram os pobres e muitos mais pobres.
Muitos, para o não serem, emigraram em busca da esperança, negada neste país por um líder que convida a juventude a emigrar… nem toda a juventude claro, porque vale mais um bom emprego no Banco de Portugal, para o filho de um tal durão, que mil jovens em busca da vida noutro tempo e fora de casa. Os tais que, noutras paragens e noutros continentes, beijam os filhos no vidro do Ipad. Estes sim, os heróis de Portugal, que sem padrinhos e sem durões, sofrem na pele a desgraça a que também por esta gente foram forçados.

Ao mesmo tempo que o Povo é assaltado, a dívida pública cresce e cresce. E não só porque baixou o PIB, pois claro, mas também e muito, porque o Governo que nos desgoverna aumenta a despesa pública, não parando de a aumentar a dívida do país…

O Povo paga para impostos.
O Povo paga para as despesas do Estado.
O Povo paga para os Bancos e para engordar aos mercados.

A propósito dos bancos, não podemos ter memória curta.
Temos um Presidente da República que garantiu, lá do Oriente, que o BES era boa gente e dava confiança ao País. O tal que nunca se engana, enganou-se e, mais grave, enganou o País… nem uma palavra de retratamento… outros Povos o teriam demitido. Para ele, o Povo agora até aguenta mais sacrifícios e mais austeridade… estranha a mudança de sentimentos.

Temos um Primeiro Ministro que garantiu a consistência do BES, que estava tudo bem…não haveria problema… mais uma vez, no meio de muitas, enganou os portugueses. Nem desculpas, nem demissão… nem demitido.
Temos um Governador do Banco de Portugal, que garante que o BES tem dinheiro e muito… a tal almofada salvadora, de milhares de milhões. Mentiu ao país… nem desculpas…nem meias desculpas. Nem se demitiu, nem foi demitido.

Perante tudo isto, que mais esperar?
Nada, absolutamente nada, a não ser cinismo e palhaçada, pois é disso que se trata quando o líder informa que em 2015 não haverá aumento de impostos. Para além de assaltarem o Povo, ainda o julga de parvo… todos sabemos que 2015 é ano de eleições.

E a dívida vai aumentando…

Com tantos cortes, com tantos e imorais impostos, em três anos a dívida do país passou de 94% para 134% no segundo trimestre deste ano… como foi possível? Como é possível?
De forma lúcida, o sábio Adriano Moreira, no sua obra “Memórias do Outono Ocidental um século sem bússola”, caracteriza o momento da seguinte forma: …A atitude do poder político neoliberal repressivo, inclina para um ataque à difícil unidade de nacionais, povo e multidão, porque lhe acrescenta politicas de divisão entre gerações, entre ricos e classes média, usando o incitamento à emigração qualificada e desacreditando a validade do Estado Social…

Isto é incontestável. E poderá ser uma desgraça.

 António Rodrigues 

 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O abraço de Timor à Guiné Bissau


O abraço de Timor Leste à Guiné Bissau, passou despercebido aos Portugueses. E ao mundo político em geral. Mas não ao Povo timorense e, muito menos e em particular, ao guineense.
Porque o abraço foi bom, foi exemplar e, acima de tudo, porque foi uma bofetada para muito boa gente da área política, ele foi calado… ignorado!
Da Guiné estamos habituados a más notícias… de resto, em Portugal, só se divulgam as más notícias. Chafurdamos com o pessimismo e quase nos obrigam a ignorar o que de bom se faz.

Por cá e por lá.
Segundo Xanana, foi um gesto de gratidão para com a Guiné, e Timor enviou para aquele pequeno país, o que de melhor actualmente tem: homens e mulheres do seu povo e, com eles, o que de melhor aprenderam nos 13 anos que levam de independência ou seja, a experiência em processo de recenseamento e actos eleitorais.
Como há dias dizia Luís Amado em entrevista a RR, Xanana instalou uma autêntica Secretaria de Estado em Bissau, com o objectivo de promover todo o processo eleitoral naquele quase abandonado país da CPLP.

Os chamados grandes países “rosnaram” com a ideia e, no silêncio, Timor foi criticado… Dinheiro mal gasto, tudo vai correr mal, vai ser um fracasso… melhor ficassem em Timor… mas Xanana seguiu em frente, mantendo corajosamente o seu gesto solidário para com o sacrificado povo da Guiné Bissau.
Em Bissau, a chefiar as dezenas de técnicos e administrativos timorenses, ficou Tomás Cabral, Secretário de Estado da Descentralização Administrativa, que assumiu a representação do Estado Timorense naquelas terras de áfrica.

E foram oito meses de intenso trabalho e milhões de dólares investidos por Timor neste processo. Com as “máquinas às costas” calcorrearam montes e montanhas e, de aldeia e em aldeia, promoveram o recenseamento e, com ele, a preparação dos actos eleitorais. Com os computadores, as máquinas para emissão dos cartões eleitorais e, com elas, o espirito da solidariedade para com um povo dela bem carente, tudo paulatinamente, foi conseguido. Tudo!
E vieram os actos eleitorais, que poucos acreditavam se desenvolvessem com êxito e sem incidentes. Foram três eleições: Para o Parlamento guineense e, também, para a Presidência da República, esta com duas “voltas”…

Lemos ou ouvimos notícias? Muito poucas e curtas.
E as que houve, quase sempre ignorando o papel determinante de Timor Leste, que também teve em Ramos Horta o representante oficial da ONU naquele país.
Muitos dos que antes olharam com desconfiança e até desdém, o papel e o contributo de Timor, foram obrigados a vergar e, mais do que isso, a aprender a lição. A lição de dois pequenos países onde há gente grande, de coragem e de saber. E de querer!

Os resultados eleitorais foram rápidos e serenos. Ninguém pôde ou pode questionar a liberdade, o rigor das eleições e a verdade dos resultados finais.
Tudo foi quase perfeito e a Guiné é hoje um Estado de Direito aos olhos do Mundo.

Este sim, o verdadeiro espírito da Lusofonia e a entreajuda que deve nortear o caminho político da CPLP…
E será a Díli a receber no próximo dia 23 de Julho a cimeira da CPLP, que o Governo de Timor prepara com dedicação, afinco e entusiasmo.

Tudo isto que parece ter passado ao lado da opinião pública e publicada, mas em Timor e na Guiné, foram escritas páginas de história que ambos os Povos merecem e das quais se devem orgulhar.

Parabéns ao Povo da Guiné!
Parabéns a Tomás Cabral

Parabéns a Xanana!

 António Rodrigues

 

 

 

sábado, 28 de junho de 2014

A nossa Língua


Faz hoje anos que começámos a falar português.
Faz hoje 800 anos que começámos a ter uma alma enquanto Povo e que iniciámos o processo fundamental da nossa identidade histórica.
Faz hoje anos que alguém pensou no futuro e sentiu que havia uma Nação.

Uma Nação que falaria português por muitos e muitos anos. Foi D. Afonso II que assumiu este futuro e, diga-se, não há muitas nações que saibam exactamente o dia em que nasceu a sua própria língua.

Pois nós sabemos!

A língua de Camões falada em quase todo o mundo.
É no Brasil, que por consequência directa das invasões francesas em Portugal, ela melhor, mais rápido e eficazmente se implantou, com aquele sotaquezinho tão próprio e sensual dos brasileiros.

É na África quente de terra vermelha, entre crioulos e vernáculos locais, que a nossa língua é ponte para o mundo multicultural e multirracial, orgulho para quem de peito aberto se afirma luso pela língua. Essa África mítica de sonhos e anseios, onde Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde, se sentem irmãos pela língua, e com ela e também por causa dela, vivem o futuro com esperança. África, essa crioula voz que adocica a língua e nos aquece a alma.

E Timor? Timor lá do outro lado do planeta, onde muitos, mas muitos, foram assassinados por falarem português e que hoje lutam para que o português seja também elemento determinante para o seu desenvolvimento e afirmação no contexto das nações. E se a nossa língua tão bem convive com o tétum…tão bem…

E Macau e Goa onde ainda há vestígios da nossa alma?…
Onde se fala o português e ver televisão portuguesa é orgulho e referência para muitos…

E em Malaca, onde ainda se fala e reza com o velho português…lá no bairro de S. Pedro…
Eis a nossa língua, alma que a Lusa Expansão Marítima deixou um pouco por todo o mundo.

Faz hoje 800 anos que começámos a falar português.
E há que ter orgulho por falarmos português e ainda mais orgulho de muitos outros países o fazerem. Há que perder os complexos e traumas neocolonialistas e assumirmos que é também nestas e com estas nações, que poderemos sonhar com um futuro ainda mais solidário e próspero para todos os qua falam, como agora escrevo.

Perdemos no futebol onde jogou uma equipa de 11, mas ainda ninguém falou que ganhámos na promoção da língua que o Brasil fala e que em todo o mundo é abraçada por mais de 244 milhões de almas.
O futebol não é a nossa pátria.

“A minha pátria é a Língua Portuguesa”… disse Pessoa… olhando o mundo, ele teria dito
“a nossa pátria é a língua portuguesa.”

Eis o testamento de D. Afonso II, o Gordo! O do conteúdo e o da forma!

Que orgulho!

António Rodrigues

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Os Silêncios de Pedro


O Pedro Lobo Antunes morreu depressa.
Em época de Natal… sem avisar e deixando na família e nos amigos uma o
nda de dor e de choque.
Para além do desgosto da partida, senti o coração apertado porque estava em falta com ele.
Foi meu Vereador durante oito anos.
Há muito que tínhamos em atraso, conversas e temas para ajustar e pôr em ordem… Pensava um dia ter o tempo e a oportunidade para esse tipo de diálogo. Que era fundamental existir. Na altura, bastavam-nos as nossas trocas de mensagens durante os jogos do Benfica, que cada um via na sua casa… era o nosso silencioso elo de amizade.  
No dia do seu funeral saí de Lisboa também incomodado por nunca ter arranjado tempo falar com o Pedro.
Já não havia nada a fazer… pensei. Nunca temos tempo para nada… vamos adiando…fica sempre para amanhã! Por isso suportei o peso na consciência.
Ainda assim, no dia do funeral, disse ao seu filho Daniel que um dia gostaria de ter uma conversa com ele. Para desabafar! Para compensar o incompensável!
Mas porque havia de falar eu com o Daniel se só o tinha visto três ou quatro vezes?
O tempo foi passando e sempre em mim a vontade de escrever algo sobre o Pedro. Mas algo que fizesse profundo sentido. Ele que não era nada de banalidades e de loas ao desbarato, não aceitaria qualquer tipo de desabafo sem sentido. Fui adiando o texto, tal como as conversas com ele.
Tive que vir a Cabo Verde.
A data nem estava para ser esta. Afinal estamos na semana da Páscoa e Cabo Verde, de tantos turistas, tem as ilhas cheias até ao mar. Hesitei muito mas, mesmo em cima da hora, decidi e vim. E cá estou!
Por sua vez, o Daniel, que fala em silêncio com o seu pai, um dia descobriu num dos blusões do Pedro, um canhoto de um bilhete de viagem feita a Cabo Verde, precisamente comigo. Já lá vão uns anos. E o Daniel, que na altura estava para fazer uma viagem, interpretou o óbvio. O meu pai está a convidar-me a visitar Cabo Verde, terra de que tanto gostava. O Daniel hesitou mas acabou por marcar a viagem. É um dos muitos que em férias enche o arquipélago crioulo.
Cheguei a Cabo Verde no domingo de madrugada e, claro, fui para o hotel.
O Daniel, chegou a Cabo Verde no domingo de madrugada e, claro, foi para o Hotel.
Na manhã de domingo, ao pequeno-almoço, o Pedro pregou-nos uma partida…
Eu, que raras vezes via o Daniel, e que nunca desde que venho a este país, tinha ficado alojado neste hotel, julguei ser ele que estava ali. 
Estava só, numa das mesas do restaurante.
Olha que está ali um sósia de um dos filhos do Pedro; já nem me lembrava do nome dele. Isto da idade é uma chatice para guardar nomes…
Fixámo-nos nos olhos (os dele, são muito bonitos) e foi arrepiante percebermos quem éramos.
Porquê aqui? Perguntei. Estou numa de homenagem a meu pai, respondeu. Foi quando soube da história do canhoto do bilhete e do porquê da sua vinda a Cabo Verde.
E conversámos e conversámos.
Almoçámos e jantámos.
E falei com o Daniel o que não tinha falado com o Pedro.
Com o Daniel “ajustei as contas” que tinha com o seu pai.
Fiquei com a consciência mais leve.
Indiquei-lhe os locais que o pai adorava ver em Sto. Antão. Enquanto o Daniel passeia pelo Tarrafal, que visitei pela primeira vez com o Pedro, escrevo estas palavras para, de Cabo Verde, homenagear o meu Amigo Pedro Lobo Antunes.
Que admirei e cuja amizade é perene, agora continuada com o filho. E fizemos um pacto de amizade, qual trespasse do pai… Passaremos a trocar mensagens aquando dos jogos do Benfica… e a estreia será já no domingo quando as águias voarem a glória de campeãs.
O Daniel, dos três filhos, é o único que nasceu em Torres Novas, terra que o pai adorava.
Tantas coincidências, não são?
Obrigado Pedro por nos ter marcado as viagens.
O Pedro era assim! Falava muito e bem nos silêncios…
E nos silêncios continua a falar!…
 
António Rodrigues
15 de Abril de 2014
Cidade da Praia – Cabo Verde