A mais pequenina
Princesa
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Ribeira Grande de Santo Antão
É qualquer coisa de único.
O caminho para lá faz-se por cima de água, com os peixes voadores a disputarem connosco quem chega primeiro.
Lixam-se porque nós chegamos sempre primeiro. Não fazemos como eles. Não mergulhamos para voltar a levantar voo.
Estava a esquecer de dizer que partimos do Mindelo, rumo a Porto Novo. E foi aqui que chegámos.
E pronto. Deu logo para ver que estávamos num cenário africano. Verdadeiramente africano. As pessoas, as casas, a paisagem quase toda árida; e o mar ali sempre a bater; nunca se cala.
Aquilo é bonito, também porque é diferente.
Aquela mulher fixa ao chão, feita de metal, com o lenço a acenar e o filho a ela agarrado, faz impressão. Parece que o rapaz nunca mais verá o pai. É a emigração crioula, dizem-nos. Mas há outros que dizem, que é uma homenagem á mulher cabo verdiana. Seja lá o que for, aquilo mexe. Emociona.
No carro, quase jipe, Nhô Nande, o motorista pergunta por onde queres ir. Vamos pela montanha, pelo mar não. Estou farto de mar. Ele sabe, que nós sabemos o que é ir pelo mar, viajando no jipe.
Vamos para o outro lado; pela Corda.
E então subimos os montes.
Para o outro lado da ilha.
Aqui é seco de mais.
A gente sobe e sobe. Só vez coisas secas e pedras a estalar. Lá em baixo, o raio do mar que não nos larga. Lá muito ao fundo, transforam-se em azul e até tem piada. Fica bonito.
O carro sobe e sobe. É só curvas. Quanto mais alto estamos, mais oceano vislumbramos.
Nhô Nane vai calado. Conduz bem. Até parece que não tem curvas.
Vai tudo a direito.
Finalmente estamos no pico e só vemos picos. Por todo o lado. Começamos a descer. Agora só vemos verde. Tudo verde. Antes parecia que a ilha estava zangada com ele. Agora até parece que cassaram. E que casamento.
Vamos descendo e começamos a ver as manchas dos bananais. E vemos frutas pão e amendoeira que vieram da América.
Descemos tanto que até assusta. Lá está outra vez o mar a fazer barulho e a bater na encosta. Está bruto, mas bonito. É um bruto que dá vida.
Quando entramos na vila aquilo mexe. Mexem eles e mexem connosco.
Terra mais linda.
O dia brilha; na terra e o mar. Brilham os dois.
Vão muitas crianças a caminho a escola, todas brancas. Quer dizer, toda brancas as batas. Elas são negrinhas lindas.
As pessoas levantam o braço e cumprimentam, com dentes brilhantes em caras felizes. E bonitas.
Nhô Nande manda-nos para os vales. Manda-nos e leva-nos. Ele lá sabe porquê.
E entramos no da grande ribeira que eles pomposamente tratam por Ribeira Grande. É a mania das grandezas, herdada do branco que já lá mandou.
Eh pá, aquilo é mesmo bonito. Entrar pela estrada nova e à esquerda e à direita, só se vêem encostas. Quer dizer, encostas forradas de verde.
Agora, mais perto, vêem-se as bananas. E é cada cacho. E as grandes frutas que são pão para muitos, são lindas de ver. Estão lá muitas mangas e papaeiras, carregadas de papaias que mais parecem grandes melancias suspensas no ar.
Mas o que racha mesmo e temos de ter cuidado para não cairmos com falta de ar, é a dança das encostas. Mas como é que elas dançam sem música? Depois se percebe. O vento dá-lhes o tom e o balanço… suave balanço. São encostas do sporting… e eu, benfiquista, ali fico a gostar dos leões. Aquele verde e branco que mancha os montes é bonito para caraças. São mares de sportinguistas nas montas. Quanto mais Nhô Nande conduz, mais verde e branco bebemos.
Bebemos, porque só depois se sabe que é com elas que fazem o grogue. Esqueci de dizer que elas são as canas-de-açúcar. Fiquei tão embriagado com aquele encanto que me esqueci do essencial. A cana-de-açúcar, mãe do grogue.
Então o carro parou. Fomos ver um trapiche. É ele que faz o milagre de estragar o verde e branco, esmagado par dentro de uma vasilha muito grande.
Estava lá o Napoleão, silencioso, mais cheio de força e perigoso. Não é quem podem imaginar napoleão é um boi preto com um dos cornos torcido.
- Não se aproximem do boi, que ele é torcido. Ele e o seu corno direito, dizia o trapicheiro, amigo de longa data.
E bebemos grogue… E bebemos grogue… E bebemos grogue…
Ficámos grogues de tal modo que só deu pensarmos que afinal eles não são presunçosos. Aquilo é mesmo grande. As paisagens e a sua gente fantástica.
A grande ribeira
É mesmo Ribeira Grande.
António Rodrigues
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